"Faltou a guilhotina em Portugal e Espanha"

O escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte publicou um novo romance, 'Homens Bons'. Onde, num romance inovador, é bastante crítico para com a Igreja católica.

O escritor Arturo Pérez-Reverte está furioso, nota-se isso na expressão do rosto, enquanto verifica se tem mensagens no telemóvel. Está à porta do hotel na Praça dos Restauradores, em Lisboa, aonde veio promover o seu mais recente romance, Homens Bons, e participar do Festival Internacional de Cultura em Cascais. É um hotel diferente de onde gosta de pernoitar quando vem à capital portuguesa porque os turistas são tantos que lhe "tiraram" o lugar. Irá dizer nesta entrevista alguns palavrões de tão irritado que está com a moda do turismo em direção à Península Ibérica, entre outras situações, e pergunta se as livrarias e alfarrabistas que costuma frequentar ainda não deram lugar a lojas de souvenirs: "Já nem se consegue ir comer ao Martinho da Arcada!" Ou seja, indo direto ao assunto, "resta-me os livros e a memória."

Pérez-Reverte, um dos escritores espanhóis de maior sucesso em Portugal, acredita que os livros não irão acabar porque "há uma multidão que precisa de se refugiar na leitura e lhes dará uma extensa vida." Quando a conversa chegar a Homens Bons, ficará menos irritado, mas esse momento só acontecerá após mais umas diatribes.

Escolhe o título Homens Bons mas também podia ser Homens Maus...

Porque em momentos como o atual em que tudo é caos, informação e Internet; onde a cultura está desprezada e os sistemas educativos de Portugal e de Espanha estão feitos para igualar os jovens na mediocridade, os homens bons fazem falta. Que são, por exemplo, os professores que sabem que de 20 alunos 18 serão maus mas dois tem futuro e ajuda-os.

É a favor de uma cultura elitista?

A cultura popular não existe, é um engano e fruto de uma falsa moda que a está a destruir. Mesmo que considere que a cultura deve estar ao alcance de todos e ninguém possa ser afastado por nascimento.

Mas...

...Não podemos colocar Velásquez numa exposição de rua para que seja acessível aos filhos da mãe dos sete mil turistas que nada ligam ao pintor. Quem quiser ver vá ao museu! Não se deve igualar o jovem que poupa dinheiro para ir ao Louvre ver a Vénus de Milo e apanha à frente mil estúpidos a quem a estátua não interessa, apenas lá vão porque está no circuito turístico.

Passa-se o mesmo na literatura?

É um panorama desolador também, daí que este livro reivindique a cultura para elites pois sem elas estamos tão perdidos como a Europa neste momento. Vivemos nas mãos de governantes medíocres.

Refere-se à política em Espanha?

Já não me importo com essa merda. Tenho 65 anos e uma biblioteca com 30 mil volumes onde me refugiar. Sinto-me como um romano que vê os bárbaros a invadir a cidade, a queimar os templos, a violar as mulheres e a matar os filhos. Por isso, prefiro a companhia de um livro de Lucrécio ou de Catulo e de um bom copo de vinho em vez de preocupar-me com estes imbecis dos bárbaros que regressam periodicamente à política. Por isso não me interessa a situação política em Espanha, tanto me faz pois continuarei com a minha vida.

Não o incomoda viver assim?

Tudo isto já aconteceu e a História mostra-o, só que se esqueceram as suas lições. As crianças não aprendem História e os políticos apagaram o seu estudo da Educação. Estamos a criar gerações de jovens e adultos indefesos e sem memória.

Critica o esquecimento em torno de Cervantes. É o que se passa?

Se Cervantes fosse inglês seria um ícone mundial, como é espanhol o que se faz é envergonhá-lo. É uma atitude muito ibérica, que se vê em dois grandes romances: La Regenta, de Leopoldo Alas, Clarín, ou O Primo Basílio, de Eça de Queiroz. Se fossem de um francês ou de um inglês estariam ao nível de Anna Karenina ou Madame Bovary.

É uma mediocridade ibérica?

Sim, porque nos afastamos cada vez mais da inteligência.

Essa é uma das teses deste romance. Estranhou que a Academia Real quisesse ter uma coleção da Encyclopédie?

Estou na Academia Real porque a respeito muito por ser uma instituição muito nobre e com 300 anos de um trabalho magnífico. A Academia queria a Encyclopédie por querer "iluminar" o conhecimento numa época em que ainda não tinha havido a revolução russa, a guilhotina, Robespierre, Trotsky ou Hitler. A palavra revolução era boa e significava esperança num tempo em que havia a inocência pré-revolucionária. Quando o homem ilustrado era virgem e não havia Marat, Robespierre ou Estaline, quando vai tudo ao fundo.

O personagem Pedro Zárate é um bom exemplo de pré- revolucionário. Identifica-se com ele?

Sim, estou mais próximo dele porque sou cerebral e a guerra deu-me uma visão científica do mundo. Uma visão não moral mas técnica e natural do que é a guerra, obrigando-me a ver o mundo de forma fria. Dei isso ao personagem.

Ter feito cobertura de guerras retiraram-lhe a esperança nos homens bons?

Vi o ser humano na sua totalidade e concluí que não é bom. É um filho da mãe por natureza, a quem a sociedade, a cultura e a religião dá uma capa de civilização. Na guerra, esse verniz estala e vem o predador.

Na guerra dos balcãs viu alguns homens bons?

Poucos. Foi uma guerra onde não consegui ter simpatia por nenhuma das fações - as mulheres eram tristes e os homens violentos. A minha visão do ser humano não é amável, mesmo que neste romance não tenha querido dar esse lado.

Daí que escolha dois académicos?

Queria dizer que os homens bons reconhecem-se pela cultura, conhecimento, memória e lucidez. É terrível quando vejo Portugal e Espanha, e o Ocidente, a deitar para o lixo esse património.

Na pág. 98 faz a seguinte afirmação: "Faltou uma guilhotina" Não é uma expressão muito radical?

Digo guilhotina no sentido simbólico porque, apesar de todo o seu horror, mudou o mundo. Ou seja, a guilhotina limpa o mundo dos bispos, dos reis, dos nobres e dos parasitas sociais. Sem ela, essa gente vai-se transformando e converte-se em "democratas" como agora vemos à nossa volta, mesmo que sejam os mesmos de antigamente. Para mim, em Espanha e Portugal fez falta uma revolução que terminasse em definitivo com os privilégios de classe, que nos libertasse a todos por igual.

Pode-se dizer que faltou uma guilhotina na península ibérica?

Sem dúvida, a nossa história seria diferente e viveríamos em países muito melhores se se tivesse limpado a paisagem. Faltou a guilhotina em Portugal e Espanha, seriam países bem diferentes. Claro que agora não seria a guilhotina, era ridículo e próprio do século XVIII.

A guerra civil espanhola não foi uma espécie de guilhotina?

Não, foi apenas uma guerra civil espanhola; um ajuste de contas entre vizinhos que se odiavam e não tanto uma guerra ideológica. Uns queriam exterminar os outros e não havia grandes diferenças entre falangistas e comunistas. Se tivesse sido ideológica, teria servido para alguma coisa.

E a Revolução de Abril de 1974 também não foi uma guilhotina?

Não, os capitães de Abril fizeram um momento maravilhoso e de esperança para todos. Mas deu em quê esse Abril em Portugal? Nada, não houve um purga, estão todos aí e nos cargos em democracia.

Não perdoa a Igreja neste livro!

A Igreja e o poder terminaram com qualquer influência benéfica do Iluminismo. Houve cientistas espanhóis que tiveram de alterar as conclusões porque contrariavam os dogmas, por isso ficámos para trás. Daí o meu rancor histórico para com a Igreja católica, que nos deixa fora da Europa muito tempo.

Mesmo com este novo papa?

Francisco é folclore. Simpático, agradável e demagogo. O grande momento de mudança dá-se com o Concílio Vaticano II e com os papas João XXIII e Paulo VI, que eram os homens bons, mas Wojtyla (João Paulo II) e Ratzinger (Bento XVI) cortaram o processo de mudança.

O que disseram os seus colegas da Academia Real ao ver o seu livro?

Gostaram e divertiram-se muito, tendo aceitado com elegância.

Mesmo que retratasse alguns?

Os que aparecem no livro, divertiram-se. Os outros, menos.

Entre as personagens coloca D"Alembert, Benjamin Franklin ou Choderlos de Laclos. Como reconstruiu essas vozes?

Escrever um romance é um pretexto maravilhoso para ler livros que nunca leria. Li tudo desse tempo, fui a Paris fazer reconstituições e estive nos lugares do livro. Essa foi a parte divertida. Aliás, escrever um romance tem duas partes: a divertida, que é a documentação; e a difícil, que é a da escrita. Escrever desagrada-me bastante, gosto é de imaginar e de investigar. Foram dois anos de felicidade criativa.

E os diálogos não soam falsos...

Muitas são frases deles. Não sou um filósofo nem um pensador do século XVIII.

Nota-se que gosta muito da Madame Dancenis...

Sim, nela resumo todas as mulheres do grand monde francês, as ultra elegantes e ativas. Além de que foi um prazer fazer a cena final entre ela e o almirante. É uma grande parte e deixou-me orgulhoso.

As leitoras mulheres não acharão o romance um pouco machista?

Não, era assim à época e as minhas leitoras sabem bem o que penso.

Como é que lhe surge a ideia de cruzar o narrador atual com a ação no passado?

Estava a escrever normalmente e dei-me conta de que o romance tinha um ritmo muito lento e que o podia tornar pesado. Já ia a meio quando decidi introduzir uma falsa pesquisa do narrador. O que também é ficção, porque não passa de um recurso que inventei quando vi que o romance não funcionava como eu queria.

Como filtrou a grande quantidade de informação sobre esta época?

Fui jornalista durante 20 anos e aprendi a obter e selecionar a informação.

Além de pôr a gravata às quintas-feiras, qual é o seu trabalho na Academia Real?

Temos o Dicionário de Ortografia e ocupamo-nos com a introdução de palavras novas. Eu ocupo-me das palavras ligadas ao mar.

A língua espanhola é diferente nos vários países em que publica?

Quando publico um romance em português há duas versões: portuguesa e brasileira. Quando publico em espanhol, é igual em Espanha ou na Colômbia. Está tudo dito.

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