Erro de casting e bandas de anúncios de telemóveis são receita vencedora

Preconceitos derrotados: Salvador Sobral, Peter Bjorn and John e The Dandy Warhols encheram Vilar de Mouros de boas vibrações. Na segunda noite, apresentou propostas variadas, portuguesas e estrangeiras

Não tinha um cabeça de cartaz com peso para atrair multidões, mas bem vistas as coisas a segunda noite de Vilar de Mouros revelou-se mais variada e tão ou mais estimulante do que a primeira. A multidão não compareceu, mas quem foi não deu o tempo por mal empregado.

Salvador Sobral é um caso. Com a música, sem dúvida, e com ele próprio. Assistir a um concerto do jovem que saltou para a fama de forma inesperada é ter a oportunidade de ver talento condimentado pela imprevisibilidade do seu humor. Um humor que ora funciona (a meio de Amar pelos Dois fingiu que se despedia com um "Obrigado, até à próxima"), ora deixa o espectador atarantado com tiradas autodepreciativas ("Acho que fui um erro de casting"), ou ainda quando agradece com voz esganiçada. Salvador Sobral parece não se levar demasiado a sério - e isso não é necessariamente mau, é desconcertante. O cantor construiu o concerto com temas de Excuse Me, o disco que lançou em seu nome no ano passado, mas também com canções de outros autores e ritmos, como Veinte Años ou Loucura, do flamenco à MPB (ou, como anunciou, uma "brasileirada"), um tema de Júlio Resende a partir de um poema de Fernando Pessoa, Presságio e a inevitável canção escrita pela irmã, Luísa.

Rodeado de três instrumentistas à prova de bala (Júlio Resende ao piano, André Rosinha no contrabaixo e Joel Silva na bateria, todos oriundos do jazz), afastava-se para um canto ou sentava-se quando era altura do trio brilhar. Com uma gargalhada iniciou e com outra deu por encerrado o espetáculo; pelo meio demonstrou as suas capacidades vocais e presença em palco, não só a cantar, mas a imitar instrumentos de sopro ou a tocar percussão no piano. Terminado Amar pelos Dois (que pedira para "cantar a uma voz, como na igreja"), Salvador Sobral voltou a contornar as convenções dos encores, ao dizer que já só tinham três minutos em palco. "Rápido, rápido", e atacaram Something Real, após o qual saíram sob ovação.

Houve mais portugueses em palco: as irmãs Catarina e Margarida Falcão, que respondem pelo nome artístico de Golden Slumbers, e os Capitão Fausto. Ao duo folk coube a tarefa de aquecer o ambiente e de dar a conhecer as suas canções harmoniosas ao grande público, mas fica para outra ocasião, dado o número de espectadores. O mesmo tinha acontecido aos Capitão Fausto na passagem anterior por Vilar de Mouros. Desta vez foram promovidos para o penúltimo espetáculo da noite. Começaram ainda antes de entrarem em palco, com uma versão de Teresa em versão entre a banda sonora de videojogo e a música de feira. Tomás Wallenstein debateu-se com a mesa de som, em especial nas primeiras canções, ao pedir que subissem o volume do microfone, distraindo-se e distraindo os outros. De forma não tão radical quanto em Teresa, o grupo reinventou ou refrescou boa parte dos temas, com resultados interessantes, de Corazón a Morro na praia. No entanto, faltou qualquer coisa ao grupo. O baixista Domingos Coimbra, no fim de Amanhã tou melhor, disse para o público guardar energias para os Dandy Warhols -e o conselho parece ter sido para o próprio grupo. Wallenstein pode estar a adorar o momento, mas dá ares de que está a fazer um frete e os outros elementos parecem sobretudo preocupados em não falhar.

Quem tenha visto antes o trio sueco Peter Bjorn and John e depois os norte-americanos Dandy Warhols compreende o quão eletrizante pode ser um concerto. Young folks e Bohemian like you foram sucessos dos dois grupos, usados em campanhas publicitárias por uma marca de telecomunicações. Para o bem e para o mal ficaram conhecidos, mas também passaram a ter esse estigma. Pois bem, estes grupos nascidos nos anos 90 deram uma lição de como fazer um concerto. Aos suecos só faltou partirem as guitarras em palco, tal a energia que despenderam. Já o quarteto de Portland, graças aos teclados de Zia McCabe, às vozes dela e do baterista DeBoer, e ainda a um microfone duplo que o vocalista Courtney Taylor-Taylor usa (com e sem efeito), apresenta mais camadas sonoras e aventura-se em mais territórios que o indie pop-rock de Peter Bjorn and John. Não por acaso foram escolhidos por David Bowie, há uns anos, para fazer as primeiras partes de uma digressão. E também não foi coincidência: Zia e Courtney vestiram t-shirts em homenagem ao camaleão do rock.

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