Elogio dos italianos

O cinema italiano está fora da competição no festival de Cannes. Mas há um filme na Quinzena que dá nas vistas...

Este ano, a ausência do cinema italiano na competição para a Palma de Ouro de Cannes não pôde deixar de suscitar alguma perplexidade. Não só porque se trata de uma das cinematografias mais ricas e diversificadas da Europa, mas também porque são muito antigos os laços de produção entre Itália e França.

De alguma maneira, tal perplexidade foi reforçada pela descoberta do novo filme do italiano Marco Bellocchio, Fai Bei Sogni, na abertura da Quinzena dos Realizadores. Não se trata, entenda-se, de desvalorizar o facto de a Quinzena ter assumido tal escolha. Em qualquer caso, a pergunta fica: um tão elaborado objeto de cinema não teria lugar na competição oficial? Inspirado num "best-seller" de Massimo Gramellini (no mercado português: Tem Bons Sonhos, ed. Bertrand, 2013), esta é a historia de um adulto que, durante décadas, vive assombrado pelo enigma construído em torno da morte da sua mãe. Bellocchio interessa-se, como sempre, pela intensidade dos laços afetivos no interior do espaço familiar, neste caso enraizados no amor total que descobrimos nas belíssimas cenas do passado, entre mãe e filho.

Fai Bei Sogni retoma, afinal, linhas temáticas e obsessões simbólicas que vem desde os primeiros tempos do trabalho de Bellocchio, nomeadamente em títulos como I Pugni in Tasca (1965) e Em Nome do Pai (1971). A continuada energia do seu universo permite-nos perceber que o cinema italiano soube preservar uma dimensão humana que resiste a decompor-se em qualquer psicologia determinista. Em última instância, as propostas de alguns cineastas mais jovens como Daniele Luchetti ou Piero Messina (este revelado na recente edição da Festa do Cinema Italiano) decorrem também de uma herança estética e ética desenhada por autores como Bellocchio.

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