Eles fazem política com a voz e a guitarra, ou com a ausência delas

Bruce Springsteen, Bryan Adams e Ringo Starr cancelaram os seus concertos em estados americanos devido às suas leis que discriminam LGBT

Quando "The Boss" fala, pelo menos os seus fãs e a imprensa ouvem. E Bruce Springsteen falou, no dia 8, para cancelar o concerto que, com a E Street Band, daria dali a dois dias em Greensboro, no estado americano da Carolina do Norte. Numa mensagem dirigida aos fãs, que publicou na sua página de Facebook e no seu site, Springsteen explicava que "há coisas mais importantes do que um concerto de rock, e a luta contra o preconceito e a intolerância é uma delas".

A voz de Thunder Road referia-se à controversa lei daquele estado que obriga os transexuais a usarem casas de banho correspondentes ao seu sexo de origem. Vulgarmente designada como "lei da casa de banho", a House Bill 2 (HB2), que entrou em vigor no primeiro dia deste mês, "ataca os direitos dos cidadãos LGBT [lésbicas, gays, bissexuais e transexuais] a recorrer aos tribunais quando os seus direitos humanos são violados no local de trabalho", explica ainda Springsteen. O músico referia-se às limitações que a lei impõe aos órgãos municipais no que diz respeito ao combate à discriminação da população LGBT.

Ao protesto juntou-se, dias depois, o ex-baterista dos Beatles. Também Ringo Starr cancelou o seu concerto previsto para 18 de junho naquele estado onde, atualmente, as casas de banho e balneários das instituições públicas devem ter sinalização que indique cada utilizador deve entrar naquela que corresponde ao seu sexo biológico. "Lamento desiludir os meus fãs daquela zona, mas temos de tomar posição contra este ódio. Espalhem paz e amor", escrevia Starr, na última quarta-feira, ao boicotar a lei que já foi criticada pelo Presidente Barack Obama e pelos candidatos democratas ao cargo, Bernie Sanders e Hillary Clinton.

A consciência de Bryan Adams

Dois dias antes de Ringo Starr, Bryan Adams recorre à mesma arma de protesto, mas usa-a num outro estado. O cantor canadiano cancelava o seu concerto de quinta-feira em Biloxi, no Mississippi. A razão? A lei, aprovada a dia 5 deste mês e que entrará em vigor a 1 de julho, que permite a grupos religiosos e empresas privadas que recusem a atender casais homossexuais se tal significar irem contra "crenças ou convicções morais".

"Não posso, em consciência, atuar num estado onde estão a ser negados direitos civis a algumas pessoas devido à sua orientação sexual", escreveu Bryan Adams nas redes sociais. A lei a que o músico se refere não permite que a prestação de serviços seja negada a membros da comunidade LGBT em empresas públicas, embora dê aos trabalhadores a opção de poderem escolher atender os membros do casal LGBT individualmente.

Assim, às canções de Adams substituíram-se frases escritas, como estas: "Esperançosamente, o Mississippi vai corrigir-se e eu posso voltar e atuar para os meus muitos fãs. Estou ansioso por esse dia."

Quando o protesto se faz no palco

Esta não foi, todavia, a reação de todos os músicos com concertos agendados para aqueles dois estados americanos. Laura Jane Grace, vocalista da banda de punk rock Against Me!, e transexual assumida, já confirmou que a banda atuará a 15 de maio, em Durham, Carolina do Norte, como previsto. "Vou criar um acontecimento em torno do concerto como forma de protesto para dizer que, apesar de qualquer lei estúpida que promulguem, os transexuais não vão ter medo", disse ao site BuzzFeed.

Também Cindy Lauper já afirmou que vai manter o seu concerto de 4 de junho naquele estado. "Acho que as pessoas precisam de nós lá", afirmou, citada pelo Washington Post. Tal como ela, a banda Mumford & Sons manteve agendado o concerto de quinta-feira em Charlotte, garantindo que irá doar todos os lucros a organizações LGBT da Carolina do Norte.

As tomadas de posição de músicos perante decisões ou conjunturas políticas são notícia, mas não são novidade. Não precisamos sequer de pensar em Verdi, na sua ópera Nabucco (1842) com o coro de escravos hebreus, a evocar nos italianos uma liberação do domínio austríaco e francês. Não é preciso voltar tanto atrás para pensar em quanto pode um músico. Basta pensarmos na pressão exercida no ano passado sobre Caetano Veloso e Gilberto Gil para que não levassem a Telavive a digressão Dois Amigos, Um Século de Música; para que boicotassem Israel, pela ocupação de territórios e violência sobre palestinianos.

O pedido foi liderado pelo ex-Pink Floyd Roger Waters - que faz parte do movimento Boicote, Desinvestimento e Sanções e, a par de Brian Eno, tem sido um dos nomes grandes da música a incitar ao boicote a Israel -, e das quase 13 mil assinaturas reunidas numa petição. "Decidimos não cancelar, porque preferimos conversar, dialogar", afirmou então Caetano Veloso.

Em 1985, artistas como Bob Dylan, os U2 ou Keith Richards condenaram o regime de apartheid na África do Sul e recusaram-se a tocar naquele país enquanto aquele vigorasse. Assim foi.

O poder uma canção

Parte da história da música fez-se com canções que estiveram nas mudanças da História. Veja-se We Shall Overcome, de Peter Seeger, que Joan Baez cantou em 1963 perante 300 mil pessoas no Lincoln Memorial, em Washington, numa marcha pelos direitos civis.

Foi cantada por muitos na marcha de Selma a Montgomery, trilhada em 1965 pelos americanos que exigiam a igualdade de direitos civis da população negra e que nessa marcha foram atacados por aquele que seria lembrado como o Bloody Sunday. Martin Luther King lançou um "We shall overcome" naquele que seria o seu último discurso, em Memphis, 1968.

A propósito, Joan Baez, no seu último concerto em Portugal, em março de 2015, cantou Grândola Vila Morena, de Zeca Afonso.

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