E se o concerto de Bob Dylan fosse 'à la carte'?

O importante, mesmo, é vê-lo de perto, provavelmente para a despedida, cante ele o que cantar. Mas se cada um pudesse decidir o alinhamento desta escala lisboeta, talvez não houvesse duas escolhas iguais. O que é mais uma prova de grandeza.

Em outubro de 1992, com a ajuda de um prolongado verão andaluz, o homem era um intruso desejado no festival Guitar Legends, em Sevilha, onde se apresentavam alguns dos grandes heróis das seis cordas elétricas que simbolizam a idade do rock. No dia da sua apresentação, os que dispunham do privilégio de entrar mais cedo no recinto dos concertos para assistir aos ensaios tiveram direito a um espetáculo extra: durante umas boas quatro horas, Robert Allen Zimmerman, popularizado como Bob Dylan, manteve-se imóvel e de olhos fechados, deitado sobre uma imensa e desconfortável flight case (aquelas caixas metálicas que servem para o transporte do material indispensável aos shows). Nem as afinações dos seus pares o fizeram mexer um músculo ou entreabrir os olhos. Nada. Estivesse apenas abraçado por Morfeu ou a seguir um qualquer itinerário de uma valente viagem psicotrópica, Dylan parecia um cadáver exposto, que ninguém queria incomodar. Quando chegou a sua vez de testar o que faria mais tarde, "a doer", subiu ao palco, bastaram-lhe meia dúzia de acordes de guitarra e três ou quatro versos para avaliar a voz. Em cinco minutos, considerou-se despachado e satisfeito. À noite, assinou um show que "roubou a cena" a todos os virtuosos - como se tivesse subitamente regressado à vida plena.

Passou mais de um quarto de século - o polémico quinquagenário transformou-se num polémico septuagenário (Dylan tem agora 76 anos e, quando terminar a série de 26 concertos que agora o traz à Europa, começando em Lisboa, na próxima quinta-feira, e terminando a 27 de abril em Verona, Itália, percorridos sete países em 36 dias, estará perto da capicua).

Ultrapassou a sua fase criativa mais desinteressante - a segunda metade da década de 1980 e uma parte da seguinte - e pareceu rejuvenescer, ou amadurecer saudavelmente, com a chegada do novo século, durante o qual já publicou pelo menos três discos à altura de integrar uma qualquer antologia dos seus grandes momentos: Love and Theft (2001), Modern Times (2006) e Tempest (2012). Pelo caminho, ganhou um Óscar, contribuindo para o filme Prodígios, de Curtis Hanson, com a canção que provavelmente abrirá a sessão lisboeta, Things Have Changed; e, com a celeuma própria das surpresas, viu ser-lhe atribuído o Nobel da Literatura.

Nos anos mais chegados, "preguiçou" se pensarmos em novas canções, mas não deixou de "picar o ponto" com três álbuns de versões - Shadows in the Night, Fallen Angels e Triplicate (CD triplo, nada menos). Mesmo com estes compassos de espera, é um dos poucos criadores de canções que podem sempre mudar radicalmente a sua lista de canções de uma noite de palco para a seguinte, sem se repetir e sem perder a chama - algo que só tem paralelo em criadores como Chico Buarque, Joni Mitchell, Tom Waits e poucos mais, agora que Leonard Cohen já passou para o departamento da saudade.

As viagens no tempo

Tal não impede que cada potencial espectador de um concerto de Bob Dylan elabore uma lista ideal para o encontro com este criador ilimitado. Cabe aqui um pré-aviso: por razões práticas e porque o património de Dylan não tem fim à vista, muitos dispensariam as versões em que o cantor parece ter-se refugiado nos últimos tempos.

Mas Dylan não abre mão de umas incursões pelo domínio alheio: na digressão norte-americana que terminou em novembro, do total de 20 canções, cinco vinham "de fora". A saber: Why Try to Change Me Now, Melancholy Mood, Once upon a Time, Full Moon and Empty Arms e até Autumn Leaves, sendo duas destas pontualmente substituídas por That Old Black Magic e/ou Stormy Weather. Estão todas nos citados discos em que Dylan interpreta e adapta, mas não escreve.

Ultrapassado este "diferendo", estaríamos perante um (aparente) dilema: o abraço a uma fase - e são tantas... - no percurso deste criador múltiplo que, recorde-se, estreou a sua discografia oficial em 1962. Haverá certamente uma legião de apostadores que, se pudesse, marcaria encontro com o baladeiro e cantor de intervenção que ajudou a criar as cores culturais do bairro de Greenwich Village, Nova Iorque, assumindo temporariamente a herança de Woody Guthrie e abrindo terreno à folk music.

Nessa perspetiva, teríamos direito a Blowin" in the Wind e It Ain"t Me Babe (quase certas em Lisboa) e a Don"t Think Twice it"s Alright (uma possibilidade também) mas seguiríamos também por A Hard"s Rain a-Gonna Fall, Masters of War, With God on Our Side e The Times They Are a-Changin", todas de uma fase com contornos políticos sociais, quando o universo de Dylan ainda não era uma bolha mas o terreno de todos nós, os cidadãos comuns.

Outros prefeririam o corajoso desbravador que quis juntar o melhor de dois mundos, quando enveredou pela eletrificação rock de um domínio ainda próximo da folk, aquele que foi vergonhosamente vaiado pelos puristas no festival de Newport, em 1965, agastados com a carga decibélica presente em palco. E, no entanto, que canções! Highway 61 Revisited, Desolation Row, Ballad of a Thin Man (todas prováveis por cá), mas também Positively 4th Street, Just like a Woman, Most likely You"ll Go Your Way (and I"ll Go Mine) e, sobretudo, Like a Rolling Stone, porventura o mais perfeito dos manifestos do autor e o único momento que, em falta, deveria impedir qualquer hipótese de perdão.

Mesmo em períodos mais erráticos, como aquele que vai de John Wesley Harding (1967) a Dylan (1973), as canções de primeira linha continuaram a ser semeadas - veja-se os casos de All along the Watchtower, Girl from the North Country, Lay Lady Lay ou If Not for You.

No renascimento de Dylan, quando surgiu acompanhado pelos mestres de The Band (com natural destaque para o maestro Robbie Robertson), dá-se o milagre da multiplicação dos pães, se olharmos os grandes temas como alimento: On a Night like this, Forever Young, Simple Twist of Fate, Shelter from the Storm, This Wheel"s on Fire. No entanto, deste momento dourado, um dos mais consistentes no embrulho instrumental em toda a carreira de Dylan, Lisboa deverá contentar-se com Tangled up in Blue.

Há mais dois discos indispensáveis nessa década de 1970, Desire (1976) e Slow Train Coming (1979). Seria um enorme prazer reencontrar Hurricane, Mozambique, One More Cup of Coffee, Oh Sister, Gotta Serve Somebody ou Precious Angel. Mas, se andar perto daquilo que quis mostrar aos seus compatriotas no ano passado, Bob Dylan deixará cair, também aqui, um enorme véu de silêncio.

Contas em dia

Sendo compreensível que Dylan renove o seu reportório de palco, acabará por se tornar inevitável a sensação de que vamos ouvir sempre menos do que desejaríamos. Mas aceita-se que, com todos os anos de estrada (Dylan gosta de dizer que não interrompe verdadeiramente as digressões desde 1988, já lá vão trinta anos), ele acabe por dar primazia a alguma da sua produção cronologicamente mais próxima.

Mantendo por base o set list da ronda norte-americana, são esperadas escalas mais substantivas num disco como Time out of Mind (1997), com Tryin" to Get to Heaven, Love Sick e eventualmente Make You Feel My Love, espécie de preâmbulos ao Dylan mais filosófico, às vezes (poucas) mais místico e nem por isso menos apaixonado ou menos sarcástico. Love and Theft também terá direito a dose dupla, com Summer Days e Honest with Me, pontos de honra da produção contemporânea do autor.

Pena é que possa registar-se um tão forte desequilíbrio entre Modern Times, de que se ouvirá quase inevitavelmente a joia que é Thunder in the Mountain, e Tempest, de que deverão marcar presença Pay in Blood, Soon after Midnight e Early Roman Kings, não estando totalmente descartadas Duquesne Whistle e Long and Wasted Years, que também passaram - mas não de forma constante - pelos shows nos Estados Unidos.

Resta desejar que o protagonista esteja em noite "sim". Para quem já o viu em palco meia dúzia de vezes, o desfecho anda ela-por-ela, parecendo depender de um alinhamento cósmico inexplicável ou de outros fatores externos.

Não se espere, em caso algum, um comunicador: aquilo que Bob Dylan tem para dizer já vem escrito nas canções, não é um performer, mas um poeta. Em qualquer caso, se tiverem oportunidade de testemunhar uma sesta prolongada deste homem sem par, deixem-no descansar. Pode estar aí a chave de uma recompensa para todos.

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