Documentários e concertos cúmplices na Gulbenkian

A partir de amanhã, o Jazz em Agosto volta a incluir o cinema, com três documentários e dois concertos que integram filmes

Cumprindo a tradição, a 33.ª edição do Jazz em Agosto (Fundação Gulbenkian, dias 4 a 14) volta a ter um setor específico dedicado ao cinema. É o resultado de uma estratégia de diversificação que Rui Neves, diretor artístico do evento, equaciona a partir das novas formas de produção de documentários e do papel das televisões: "Assiste-se mesmo a uma proliferação, até porque se tornaram comuns métodos de crowdfunding e um interesse público redobrado. O papel das televisões não deixa de ser importante porque os encomendam, assumindo os seus custos. Considero que em Portugal foi importante o documentário A Tensão Jazz, apresentado na RTP2 em 2011, sobre o jazz feito no nosso país, realizado por Paulo Seabra com o guião histórico da minha autoria."

Três filmes da RogueArt, editora convidada desta edição, serão projetados na Sala Polivalente (sucessivamente nos dias 10, 11 e 12, sempre às 18.30): Off the Road e Chicago Improvisations, ambos de Laurence Petit-Jouvet, e Electric Ascension Live at Guelph Jazz Festival 2012, de John Rogers.

Os dois documentários de Laurence Petit-Jouvet celebram o contrabaixista alemão Peter Kowald (1944-2002): o primeiro, num espírito que evoca o livro On the Road, de Jack Kerouac, segue a sua digressão norte-americana de 2000, pontuada por encontros com outros músicos; o segundo regista uma dupla atuação no Empty Bottle Festival of Jazz & Umprovised Music, também em 2000. Quanto ao filme de John Rogers, o seu foco está na celebração de John Coltrane, através de um concerto realizado num festival canadiano pelo projeto Electric Ascension, integrando o Rova Saxophone Quartet.

São documentários que estabelecem relações com a memória do próprio evento. Rui Neves lembra que "a razão da apresentação destes filmes fundamenta-se na presença de Peter Kowald no Jazz em Agosto 2002, com Fred Anderson e Hamid Drake, e de Electric Ascension na edição de 2006, celebrando Coltrane, nascido em 1926, fazendo sentido voltar a celebrá-lo este ano quando se completam 90 anos do seu nascimento".

Há ainda dois concertos que integrarão materiais cinematográficos. Assim, o guitarrista Marc Ribot terá uma performance a solo (Sala Polivalente, dia 5, 18.30), com projeção de Shadows Choose Their Horrors, filme experimental assinado por Jennifer Reeves, cineasta nova--iorquina nascida no Sri Lanka. Por sua vez, o coletivo Petite Mourtarde (Anfiteatro ao Ar Livre, dia 9, 21.30) convoca imagens de filmes de René Clair, Marcel Duchamp e Man Ray.

Os filmes, como sempre, procuram desenhar linhas de cumplicidade com os concertos. Mas, como sublinha Rui Neves, "não se trata de todo de fazer um ponto da situação global do documentário sobre jazz". Assistimos, afinal, a uma profunda mudança de contexto: "O que felizmente acontece nos últimos anos é publicarem-se mais documentários devido aos desenvolvimentos observados na nova era digital em matéria de novas máquinas, novos processos de pós-produção e, naturalmente, de novos agentes, conquistando novos públicos."

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