Disney e Spielberg, uma aliança... natural

O Festival de Cannes recebeu ontem O Amigo Gigante (em Portugal estreia-se em junho)

Aplausos, muitos aplausos mal começaram os créditos finais de O Amigo Gigante, de Steven Spielberg, ontem na sessão fora de competição para a imprensa. A fantasia baseada no livro de Roal Dahl parece ter encantado a imprensa internacional em Cannes mas é impossível não disfarçar a sensação de que é um filme aquém. Aquém daquilo que Spielberg já fez no universo de filmes mais infantis (Hook tinha, por exemplo, outra robustez de espetáculo, bem como As Aventuras de Tintin - O Segredo de Licorne) e aquém de um sinal de possível grande sucesso comercial.

Este Disney The BFG parece ser um blockbuster contracorrente nos dias de hoje, mesmo apesar de todo o seu arcaboiço digital. Fica à vista uma certa pele "antiquada" que pode ser fatal nos campeonatos das bilheteiras.

A história leva-nos até à Londres dos anos 1980, onde Sophie, uma menina órfã, conhece BFG num orfanato, um simpático gigante do País Gigante. De repente, é levada até esse distante mundo onde BFG é precisamente o único gigante que não devora humanos. É lá que Sophie se torna amiga do gigante e acompanha-o na sua atividade: caçar sonhos numa espécie de terra dos sonhos, mas cedo os outros gigantes percebem a sua presença e a sua segurança fica ameaçada. No epílogo, Sophie e BFG descem a Londres para pedirem ajuda à rainha de Inglaterra, que entretanto pede ajuda ao presidente americano Ronald Reagan.

Rodado com a técnica de performance capture, um efeito visual de animação que permite captar o movimento dos atores, e uma série de efeitos visuais de nova geração, o filme não deixa de ter um ar de outros tempos. De alguma forma, o storytelling de Spielberg e da sua falecida argumentista Melissa Mathison evocam um cinema "purista" que a própria Amblin inventou. Podemos mesmo falar numa simplicidade que nem os efeitos visuais conseguem anular. Efeitos sempre a trabalhar em função da história (só não parecem tão credíveis nas sequências de Londres).

O Amigo Gigante é pródigo num cerimonial afetivo com as personagens. Torna-se impossível não aderir à sofisticada "simpatia" deste gigante e à sua relação com a menina Sophie. Um jogo de cumplicidades que remete para os terrenos de uma das obras-primas de Spielberg: E.T., hélas! Uma relação que se sedimenta através da importância da palavra - o gobblefunk do gigante é um inglês tosco que torna mais humanos os diálogos entre ambos. Um filme sobre a linguagem, portanto.
Se Spielberg celebra aqui os prazeres de um classicismo que é só dele, há também que notar um certo efeito de repetição. A música de John Williams sinaliza tudo um pouco demais e só a espaços é que o timing da magia de Spielberg faz das suas. No começo, chega mesmo a denunciar um ritmo pesadão.

Mark Rylance "captado"

Se é verdade que a menina que interpreta Sophie não tem um rosto memorável para cinema, as expressões captadas digitalmente do oscarizado Mark Rylance (foi graças a Spielberg que venceu neste ano o Óscar de melhor ator secundário e o BAFTA em A Ponte de Espiões) são algo muito perto da genialidade suprema.

Embora esta seja a primeira associação de Spielberg com a Disney, em Portugal o filme não se estreia através do estúdio do Rato Mickey - só há pouco tempo o título ganhou a palavra Disney nos EUA -, vem através de uma produtora independente que já tinha feito acordo com a Amblin em certos territórios. Mas está escarrapachado o amor do realizador pelo espírito Disney neste tom. Afinal, há muito que isto deveria ter acontecido...

Mais Notícias

Outras Notícias GMG