Denzel Washington e Viola Davis, aqui estão os atores do ano

O peso da palavra num filme para atores. "Vedações", de Denzel Washington, é o último dos nomeados aos Óscares a chegar às salas de cinema nacionais.

O valor da palavra no cinema americano mais clássico pode estar moribundo mas não está morto. O sucesso de prestígio deste Fences, de Denzel Washington, vem prová-lo. Adaptado da peça de August Wilson (que na Broadway foi representada pelo mesmo elenco do filme), esta é a história da vida de um casal de afro-americanos na América dos anos 50.

Ele é Troy Maxton, um ex-presidiário que se reinventou como homem honesto numa América racista, ela é a doce Rose, uma mulher que se apaixonou por este homem do lixo e dedicou 18 anos da sua vida a cuidar dele e da casa. Pelo meio, há um filho de Troy de uma outra relação e um jovem filho do casal que sofre na pele todos os traumas de injustiças do pai. Por fim, Troy e Rose vivem sempre com a sombra do irmão de Troy, um veterano da guerra que regressou com um grave problema mental.

A vida de ambos sofre um grande choque quando Troy anuncia que tem uma amante e que esta está grávida. Os sonhos e pesadelos de uma família de classe baixa numa América em transformação e onde se sente o ódio do homem negro. Tudo isto é encenado com uma poesia de dor escrita com um sopro clássico próprio da respiração teatral.

De referir que foi o próprio August Wilson o autor do argumento adaptado (entretanto faleceu e não chegou a ver o projeto pronto), com a ajuda do prestigiado dramaturgo e argumentista Tony Kuschner, que preferiu não colocar o seu nome como argumentista mas apenas como produtor. E a grande força deste drama são precisamente as palavras.

Palavras de uma eloquência tremenda, diálogos que nos sufocam numa carga trágica e humana cerrada. Wilson convoca pontas de relatos de traumas familiares, percursos errantes iguais a muitos negros discriminados numa América intolerante e racista, aliás o tema de muitas das peças deste autor.

Washington não se limita a filmar teatro. Cada cena é pensada como um quadro vivo de cinema. Uma câmara que vive e respira muito perto das personagens, respeitando sempre um posicionamento coreográfico. Mas é claro que a sua primazia é servir os atores. A sua interpretação é de uma força física muito rara no atual cinema americano. Denzel representa com o peso do seu corpo e isso não é aludir ao facto de ter ganho peso para o papel. Refiro-me a um peso presencial.

E o que faz com Viola Davis é ficar perto dela, dar-lhe todo o espaço. Davis é neste momento uma das grandes atrizes americanas e o que ela gera aqui é da ordem do milagre. A Paramount chegou a ponderar propô-la nos Óscares para atriz principal, mas depois achou mais seguro fazê-lo na categoria das atrizes secundárias - foi um erro, deveria estar como atriz, ponto final. Ela e Denzel são os protagonistas e, com a toda certeza, também ganharia se viessem todas as Isabelles Hupperts ou Emmas Stones! Washington e Davis são as grandes interpretações desta temporada de prémios. Além deles, Vedações está nomeado para melhor argumento adaptado e melhor filme.

O filme tem a exaltação do grande teatro americano clássico e uma fúria de cinema muito própria. E mostra que como realizador Denzel evoluiu muito desde dos tempos de Antwone Fisher, de 2002... (o filme a seguir, Debate pela Liberdade, não chegou aos cinemas portugueses, foi logo para vídeo).

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