Dias da Dança tem raízes no Norte e o coração no mundo

O Festival DDD - Dias da Dança desenha uma nova geografia artística nos palcos e jardins do Porto, Gaia e Matosinhos. Destacamos o que não deve perder no primeiro fim de semana.

Onze dias, 27 espetáculos, um mar de possibilidades. O primeiro Festival DDD - Dias da Dança desenha um mapa artístico fluído nas três cidades aliadas na Frente Atlântica - Porto, Gaia e Matosinhos -, dando a ver, a debater e a fruir a dança contemporânea que se faz local, nacional e internacionalmente. "Esta primeira edição é na verdade o ano zero de um festival que queremos que se repita por muitos e bons anos", começa por explicar Tiago Guedes, diretor artístico do DDD e do Teatro Municipal do Porto (TMP).

"É a concretização de duas vontades fortes, a de dar um panorama eclético da dança contemporânea a um público ávido que tem acolhido com entusiasmo a programação do TMP e, em paralelo, dar uma grande visibilidade aos artistas que têm trabalhado de forma muito subterrânea a nível local. Aqui mostram as suas criações para um público diversificado que atravessa Porto, Gaia e Matosinhos e incluí uma forte presença de programadores internacionais, convidados a virem descobrir esse novo contingente."

As boas intenções concretizam-se num leque fortíssimo de trabalhos de criadores nacionais, que se misturam nas referências e nas gerações. À presença fundadora de Né Barros, coreógrafa responsável pela invenção (entre outras) do Balleteatro e que se apresenta em várias frentes do festival - juntam-se a de Vera Mantero a solo, com Os Serrenhos do Caldeirão, Exercícios em Antropologia Ficcional e a de João Fiadeiro com a sua mais recente criação O que fazer daqui para trás. Mostra-se o trabalho de Miguel Pereira que criou Repertório para Cadeiras, Figurantes e Figurinos a partir de um convite do Ballet Contemporâneo do Norte (BCN) para celebrar os 20 anos da Companhia. Um trabalho em que reflete sobre "a urgência de olhar para o passado quando o futuro é incerto e não se deixa vislumbrar, e da importância desse olhar retrospetivo no nosso presente" (palavras do coreógrafo). E ainda, em dose dupla, as mais recentes criações de Marlene Monteiro Freitas, performer e criadora com um pé no mundo e outro em Portugal.

Do mundo mas com base assumidamente nortenha estreia FM (Featuring Mortuum) de Cristina Planas Leitão, uma das iniciadoras da crucial mostra DESnorte, enquanto Mara Andrade, outra criadora a seguir com atenção, se desdobra nas performances O Meu Corpo também Dança. São apostas fortes, a que se juntam a descoberta de novíssimos projetos: a primeira obra de Bruno Senune ou as criações de Dinis Machado, Joana Castro & Flávio Rodrigues, Gonçalo C. Ferreira ou André Mendes.

Dançar no palco e na rua

A par do panorama aquém-fronteiras há propostas internacionais com a força de Raimund Hoghe, coreógrafo com presença vincada no nosso país, performer, parceiro e cúmplice de Pina Bausch cuja recente criação Songs for Takashi encerra a programação, ou a novidade de Aimar Pérez Galí que a inaugura com a conferência-dança Sudando el Discurso: Una Crítica Encuerpada. Entre ambos, respetivamente no primeiro e no segundo fim de semana do festival, apresentam-se os coreógrafos Ambra Senatore (Itália) e Eldad Ben-Sasson (Israel).

Fora dos palcos (DDD in) há o espaço público do Porto, Matosinhos e Gaia para descobrir e desfrutar. O Festival Corpo + Cidade, criado em 2013 pelo Balleteatro para reinventar a experiência da cidade, integra agora o festival (DDD out), cruzando a dança contemporânea, a dança urbana e a performance em praças, jardins e bibliotecas. O DDD não esquece também a multiplicidade de escolas de dança da região e a importância das masterclasses e encontros com criadores. As carismáticas Quintas de Leitura inauguram a vocação reflexiva e lúdica do festival com Deixar a Dança ser naturalmente Carne, uma conversa entre os escritores e pensadores Gonçalo M. Tavares e José Gil, com Cláudia Galhós na moderação, e performances de Sónia Baptista e Joana von Mayer Trindade, canções de Tânia Carvalho e leituras de Clara Andermatt e Mariana Magalhães, sobre imagens de José Caldeira.

A não perder:

A nossa história da dança
Passa por Os Serrenhos do Caldeirão, espécie de súmula do pensamento e ação coreográfica de Vera Mantero (em Serralves) e por Repertório para Cadeiras, Figurantes e Figurinos que Miguel Pereira que criou com o BCN, encontrando "pontos de ligação e de tensão entre a minha história, a história da Companhia e a história da dança" (no Dia Mundial da Dança).

O corpo é um manifesto
Em Sudando el Discurso: Una Crítica Encuerpada, a conferência dançada com que Aimar Pérez Galí cruza na pele história pessoal e história da dança mundial. É uma das grandes surpresas DDD, juntamente com o trabalho sobre grupo, sociedade e comunidade na coreografia Aringa Rossa, de Ambra Senatore.

Espaço para estreias

Primeira vez na criação coreográfica de Bruno Senune, bailarino excelentíssimo de trabalhos de Tânia Carvalho e Né Barros, por exemplo, que em Kid as King parte da sua prática e a mistura com ficção. A não perder, tal como Paradigma, de Dinis Machado, "um reclamar ritualista de diferença e cidadania".

Do Porto, com amor
são as criações de Né Barros e do Balleteatro - Million e Dança#3 -, a sorver em vários palcos, tal como FM (Featuring Mortuum) de Cristina Planas Leitão, peça "sobre a performance em si, sobre a grande ilusão, uma narrativa composta de vários "fins", desmistificando e desconstruindo a morte em todos os seus elementos, do mais físico ao mais teatral".

DDD out
É dança e performance a reinventarem bibliotecas, estações de metro, praças e jardins. O Festival Corpo + Cidade migrou para o DDD, celebrando o espaço público. Há criações de Né Barros, Catarina Félix, Assa Colective, Ana Rita Teodoro, Charlotte Spencer ou Gilles Verrièpe para experimentar de novo os lugares do Porto, Matosinhos e Gaia.

Consulte toda a programação aqui.

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