David Bowie, figura bizarra e sedutora também no cinema

Descobrir um compositor de canções que foi também um ator invulgar. É esta a proposta da Cinemateca Portuguesa que a partir de hoje apresenta um ciclo de culto.

Quando evocamos David Bowie como figura cinematográfica, vêm à memória duas ou três referências emblemáticas, a começar pelo drama de guerra Feliz Natal, Mr. Lawrence (1982), de Nagisa Oshima, em que contracenava com Ryuichi Sakamoto, passando pelo mundo fantástico de Labirinto (1986), dirigido pelo mago dos Marretas, Jim Henson. O certo é que podemos definir um retrato cinematográfico de Bowie muito mais amplo que, embora cruzado com a música, sublinhe as suas singularidades como ator. É essa, justamente, a proposta da Cinemateca através de um ciclo que começa hoje e vai pontuar todo o mês de julho.

O evento apresenta-se com um título de saboroso simbolismo: Absolute Bowie. Em termos históricos, trata-se de evocar o filme que serve de abertura ao ciclo, Absolute Beginners/Absolutamente Principiantes (1986), retrato da cena musical de Londres, em finais da década de 50, com Bowie a interpretar um cantor fictício (Vendice Partners) que, por assim a dizer, faz a ponte entre uma sensibilidade rock"n"roll, algo jazzística, e a eclosão dos Beatles e Rolling Stones. A realização pertence a Julien Temple, inglês que se distinguira como autor de um filme sobre os Sex Pistols (The Great Rock"n"Roll Swindle, 1979), tendo dirigido em 1984 o teledisco de uma canção de Bowie, Blue Jean (que, aliás, começou por ser uma curta-metragem de 20 minutos intitulada Jazzin' for Blue Jean). A nostalgia festiva de Absolute Beginners não teve grande impacto junto da maior parte da crítica e, no plano comercial, redundou num apoteótico falhanço - ironicamente, com a passagem dos anos, ascendeu à condição de objecto de culto.

A afirmação cinematográfica de Bowie dera-se uns anos antes, em 1976, através de O Homem que Veio do Espaço (dias 15 e 26 na Cinemateca), aventura de um "alien" no planeta Terra dirigida por Nicolas Roeg. Escusado será sublinhar que o extraterrestre interpretado por Bowie foi visto como uma derivação iconográfica das personagens inventadas pelo próprio, com destaque para o bizarro e sedutor Ziggy Stardust, "alter ego" do álbum The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (1972).

A memória da curta existência de Ziggy veio a tornar-se indissociável do cinema. O derradeiro concerto em que Bowie se apresentou como tal (a 3 de julho de 1973, no Hammersmith Odeon, em Londres) ficou registado num filme há muito celebrado como um clássico do género: Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (dias 12 e 27), realizado pelo documentarista americano D. A. Pennebaker, um notável especialista neste registo (é dele o célebre Dont Look Back, sobre a histórica digressão britânica de Bob Dylan, em 1965).

Para além de Feliz Natal, Mr. Lawrence e Labirinto, a interpretação mais conhecida de Bowie será, muito provavelmente, a de John Blaylock, em Fome de Viver (1983). Casado com Miriam (Catherine Deneuve) desde o séc. XVIII, Blaylock é um vampiro que vive uma existência discreta na Nova Iorque contemporânea, escolhendo metodicamente as suas vítimas de modo a preservar a juventude eterna. A realização é de Tony Scott, estreante na longa-metragem que, três anos mais tarde, assinaria Top Gun, com Tom Cruise - o estilo de Scott, em grande parte devedor de uma estética publicitária, gerou um novo visual para o clássico filme de vampiros, também ele consagrado como referência de culto.

Será possível ver ainda algumas participações de Bowie que, apesar de breves, adquiriram uma dimensão quase lendária: é o caso de Twin Peaks: Os Últimos Sete Dias de Laura Palmer (1983), de David Lynch; A Última Tentação de Cristo (1988), em que Martin Scorsese lhe entregou a personagem de Pôncio Pilatos (dias 11 e 29); e Basquiat (1996), de Julian Schnabel, um retrato do pintor Jean-Michel Basquiat, com Bowie a compor Andy Warhol num exercício de impressionante "coincidência" com a imagem (e a voz) da personagem real (dia 18).

O ciclo inclui ainda alguns títulos em que ele não participa como actor, marcando presença através da sua criação musical - é o caso de Má Raça (1986), de Leos Carax, em que as atribulações do par Juliette Binoche/Denis Lavant são pontuadas pela canção Modern Love, do álbum de 1983, Let's Dance (dias 13 e 16).

O exemplo mais célebre será o de Putting Out Fire, do filme Cat People/A Felina (1982), de Paul Schrader (dias 15 e 26). Composta em colaboração com o produtor Giorgio Moroder, a canção teria uma insólita e fascinante utilização em Sacanas sem Lei (2009), de Quentin Tarantino (dias 27 e 30). Passava-se da fábula animalesca de Schrader (inspirada no filme homónimo de Jacques Tourneur, produzido em 1942) para a delirante revisão das leis do épico sobre a Segunda Guerra Mundial. Na altura, Tarantino declarou que sempre achara que a utilização de Putting Out Fire no genérico final de Cat People era um desperdício, já que a canção merecia toda uma sequência construída em torno da sua vertiginosa sonoridade - foi o que ele fez e só podemos concordar com tal apropriação.

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