Convento dos Capuchos abre para obras de restauro

A Parques de Sintra inicia uma campanha de quase 2 anos de obras e 3 milhões de euros no convento mandado construir no século XVI na Serra de Sintra.

Grafitado naquela que seria a sala de refeições dos frades, degradado, com pedras que sofreram com o uso intensivo, roubos evidentes. É assim que está hoje o Convento dos Capuchos, em plena serra de Sintra. Mandado construir no século XVI, começa agora a sua primeira intervenção de fundo, um projeto da Parques de Sintra-Monte de Lua que detém a gestão e manutenção deste equipamento. "Sofreu um período conturbado no século XX e, fruto da delapidação, encontra-se maltratado", explica o seu diretor técnico do património edificado, em jeito de diagnóstico ao estado atual do local.

"É uma arquitetura simples, mas delicada, com muitos detalhes que precisam de atenção", afirma Gonçalo Simões. Repetirá esta ideia durante a visita em que explica os trabalhos que vão decorrer no Convento dos Capuchos até 2018. "Temos de mexer o menos possível, não podemos intervir de forma desenfreada e esta é também uma justificação para termos demorado tanto tempo. De todo o portfólio é dos locais de que dispomos menos informação", diz. "Com a extinção das ordens religiosas [1834] perdeu-se muita informação, assim como com a perda da biblioteca do convento, por isso temos de partir do testemunho da existência."

Os trabalhos passam, por exemplo, pelo local onde a conversa decorre: a entrada do convento, junto à loja e ponto de apoio do monumento, será alvo de uma "renaturalização". O termo é usado também pelo diretor técnico do património natural, o engenheiro florestal Nuno Oliveira.

As mesas e cadeiras, bancos de jardim e caminhos, obra da anterior administração da Parques de Sintra, vão desaparecer. "Procuramos uma solução que tenha mais a ver com o local, mais dedicado à meditação", considera Gonçalo Simões. "Algo mais parecido com a experiência que terá tido um hóspede do convento antes deste arranjo", completa. Os pontos de apoio que ali se encontram já não têm sentido em 2016. "Queremos criar uma distância e deixar que o convento possa respirar." As infraestruturas de apoio ficam à entrada desse caminho que levará o visitante até ao convento, e, por ora, como é obrigatório, os trabalhos começaram com escavações arqueológicas, razão de ser dos retângulos abertos no terreno.

Para esta obra, a Parques de Sintra destinou três milhões de euros, que se repartem por dois anos. O fim do programa de restauro está marcado para março ou abril de 2018. A administração da Parques de Sintra explica que se candidatam aos fundos disponíveis, mas se não conseguir "as obras avançam na mesma". Algumas são quase invisíveis, como trocar o gerador a gasóleo que abastecia o convento de energia e substitui-lo por eletricidade, como aconteceu na semana passada. Outra tem a ver com a área florestal, 70 hectares, onde é preciso controlar a carga combustível e as espécies invasoras, um projeto que candidatam ao programa 2020. Obra inadiável, a avaliar pelas palavras de Nuno Oliveira. "Em 2008, o convento esteve ameaçado por um fogo florestal, que esteve dentro desta cerca." Refere-se à cerca conventual, outras das edificações a preservar e cuja recuperação está nesta campanha de obras. "Estava em risco de derrocada", diz Gonçalo Simões.

Falta informação

As escavações são uma constante. Logo na entrada quando Nuno Oliveira mostra "os canais e canaletes que se descobrem quando se abre um buraco". Estão ainda a estudar o sistema de águas que abastecia o convento, complexo para a época. "É muito vasto para o seu tamanho", nota Gonçalo Simões. Ainda não se sabe onde iam dar ou onde está o sistema de esgotos", precisa o engenheiro.

No alpendre da entrada, Gonçalo Simões retoma um dos principais temas desta campanha: o restauro das coberturas e revestimentos do convento, que chegou a estar fechado nos anos 90.

Sofreu erosão humana forte na segunda metade do século XX, antes disso foi vendido a um particular, o inglês Francis Cook, o mesmo que comprou a quinta de Monserrate na época da extinção das ordens religiosas. Naquele que seria o refeitório dos frades que aqui viveram veem-se ainda as marcas deixadas por quem passou pelo convento. Antes, ali mesmo ao lado, ficava o parque de campismo da serra de Sintra, o mesmo onde Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada situam uma cena histórica de Uma Aventura no Bosque. Era real que o guarda do parque de campismo era a mesma pessoa que abria e fechava o Convento dos Capuchos.

Gonçalo Simões reafirma a intenção de estabilizar os materiais. "Não vamos proceder a nenhum faceamento", afiança. Nem reconstituir como no original, como se fez no início do século XX. "Assumimos as falhas", diz, falando de uma peça deste alpendre a que faltam já inúmeros azulejos. Cimentos e argamassa, isso sim, serão retirados. O mesmo não acontecerá com a cobertura de cortiça. "É um material que se ia regenerando", explica Gonçalo Simões. A campanha de restauro e conservação inclui intervenção no espólio móvel do convento. "São poucas peças", avisa Gonçalo Simões. "Mas também vão ser restauradas."

Refazer os degraus

Quando se chega ao pátio do convento, com a sua fonte octogonal, há manchas castanhas irregulares no terreno. Nuno Oliveira explica que são escavações arqueológicas já fechadas. "Ainda não descobrimos como funciona o sistema de águas", diz, explicando que será necessária uma requalificação do sistema. A fonte onde vão buscar água está a uma distância de cerca de dois quilómetros, na tapada D. Fernando II, e desemboca num fontanário à entrada do convento e numa casa de águas.

É um local escuro, iluminado apenas por fiadas de luzes ténues, o mesmo sistema usado na Quinta da Regaleira. Ao tempo do convento como tal, a iluminação não existia, mas é imprescindível a quem visita o monumento em 2016. "Há uma discussão [em curso]. "Temos de ter particular atenção com a leitura do público. As posições mais extremistas dizem que o convento devia ficar sem iluminação, mas isso pode levar a um problema de segurança." Como os estudos ainda não estão concluídos, as escavações vão continuar, enquanto decorrerem as obras, o que também não é novidade. "Mantemos o convento aberto para obras", dizem Manuel Baptista, Gonçalo Simões e Nuno Oliveira quase em simultâneo.

Neste caso, haverá também um período de "decisões em aberto", à espera do relatório dos arqueólogos. O sistema de regas, como outras partes do convento, foi sendo atualizado com os tempos. "O convento tem uma característica muito particular. Para a época tem uma grande infraestrutura de águas", nota Gonçalo Simões, explicando que o local deverá ter sido usado com "função hospitalar".

O sistema de águas deveria chegar à horta e a um conjunto de casas, distanciadas do edifício central, que serviriam de hospedaria. Estas casas, agora em ruínas, ficam foram do plano de restauro, uma vez que não existe informação suficiente sobre elas, nota Gonçalo Simões.

Nuno Oliveira mostra os caminhos de pedras que servem os vários locais do convento. Em quase todos haverá intervenção. As pedras que foram sofrendo a erosão do tempo vão ser reconfiguradas. Há até um caminho que vai desaparecer. "Este, que estamos a fazer, vai ser renaturalizado", afirma o diretor técnico da Parques de Sintra passando pelo deambulatório, zona do convento também alvo de trabalhos arqueológicos que já permitem dizer que terá sido um deambulatório para uma via-sacra que levava às capelas do convento e um local para o jogo da pela, segundo Gonçalo.

O mesmo desafio de fazer um equilíbrio entre as fases de ocupação do convento se põe a Nuno Oliveira quando se fala da flora envolvente. Quando a propriedade foi vendida a Sir Francis Cook no século XIX, o milionário e colecionador de arte levou para o local espécies exóticas como a sequoia que cresceu junto à cerca conventual e a uma rara porta de pedra "que parece do Astérix", segundo Gonçalo Simões. O caminho que leva até lá é um dos que serão melhorados.

Quando a campanha de obras terminar, o Convento dos Capuchos terá um centro de interpretação no que era até agora conhecido como o celeiro, novas infraestruturas para receber os visitante à entrada, hortas arranjadas, caminhos transitáveis e uma antiga casa de apoio construída já no século XX, destinada ao serviço educativo. E, fora do convento, a antiga casa do parque de campismo está a ser convertida em ponto de apoio a ciclistas, outro grupo frequente na serra de Sintra.

"Queremos crescer em número de visitantes", afirma Manuel Baptista sobre os objetivos desta intervenção. Em 2015, registou 32 955 visitantes (e 15 mil no primeiro semestre de 2016), um número que o presidente da Parques de Sintra acredita poder aumentar. Uma das ferramentas para o conseguir, diz, é "um transporte público [autocarro] desde o comboio até aqui".

Os planos de crescimento vão para além dos Capuchos. Em Monserrate e no Palácio de Queluz, "o objetivo é idêntico". Este último monumento tem estado sob intervenção, começando na pintura das suas fachadas, e já está marcada para janeiro a inauguração do seu jardim botânico.

As obras são financiadas pelas receitas totais da Parques de Sintra, isto é, 22 milhões em 2015, 70% das quais oriundas da bilheteira, as restantes dividem-se pelas cafetarias e lojas e pelo aluguer de espaços. O orçamento pode crescer com o resultado de 2016, já que, segundo Manuel Baptista, o número de visitantes cresceu.

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