Como Prince abriu as portas para a liberdade individual

As causas de morte do músico, que na quinta-feira foi encontrado sem vida no elevador da sua propriedade em Paisley Park, Minneapolis, EUA, ainda estão por apurar

"Im not a woman. I"m not a man. I"m something that you"ll never understand" - Não sou uma mulher. Não sou um homem. Sou algo que nunca compreenderás. Estes são os primeiros versos que Prince canta na icónica canção I Would Die 4 U. Anos antes, o músico já tinha questionado em Controversy "Am I black or white? Am I straight or gay?" - Sou negro ou branco? Sou heterossexual ou gay? Só estas duas canções espelham de forma perentória como Prince desconstruiu normas de raça e de género, destruindo os estereótipos vigentes, adotando uma postura fluida que põe em causa o sistema binário de género. E este é, além da inovação e do arrojo musical que caracterizam a sua obra, um dos mais importantes legados que deixa.

Tal como toda a sua vida, também a morte continua envolta em mistério. O músico foi encontrado sem vida na quinta-feira, no elevador da sua propriedade em Paisley Park, Minneapolis, EUA. Ainda se desconhecem as causas da morte, mas ontem o site TMZ, que deu em primeira mão a notícia da morte de Prince e, anos antes, de Michael Jackson, avançou que o músico terá recebido um tratamento hospitalar por overdose de analgésicos Percocet (que estaria a tomar devido a dores nas ancas) seis dias antes de morrer. Esta informação contraria a versão que os seus representantes deram na altura, quando do seu internamento de emergência no Hospital de Moline, de que o artista tinha sido internado devido a um caso grave de gripe. As suspeitas de que na quinta-feira terá morrido de uma overdose adensam-se, mas, por agora, mantém-se o mistério.

Esse lado enigmático e indefinível foi alimentado pela sua imagem andrógina, abraçando a sua feminilidade e questionando as normas associadas à masculinidade, associando a tudo isto ainda as implicações raciais. O cantor canadiano Frank Ocean, numa sentida homenagem, escreveu inclusivamente: "Ele era um homem negro heterossexual que apareceu pela primeira vez na televisão de biquíni e botas de salto alto até ao joelho. Épico. Ele fez-me sentir confortável com a forma como me identifico sexualmente simplesmente por esta afirmação de liberdade e irreverência a partir de ideias obviamente arcaicas como a conformidade de género."

Tal como essa primeira atuação televisiva, as capas dos álbuns Parade (1986) e Lovesexy (1988) são o exemplo de como Prince questionou as expectativas sociais que se criam em relação à forma como um homem se deve apresentar e, no seu caso em específico, de como um homem negro age em sociedade. Mais: ao mesmo tempo que em palco aparecia de saltos altos, maquilhado e vestido com rendas, cantava sobre relações sexuais com mulheres de forma explícita, o que para muitos era encarado como um paradoxo. Paradoxo esse do qual Prince nunca abdicou para definir a sua identidade.

Uma profecia

Já em 1981, antes ainda de se tornar uma estrela global e um fenómeno de massas que o fez reinar (ao lado de Michael Jackson) o mundo pop durante toda a década de 1980, o crítico do The New York Times Robert Palmer escrevia: "O próprio Prince transcende estereótipos raciais porque, como ele uma vez afirmou, "Eu nunca cresci numa cultura particular." Suspeita-se que à medida que o tempo passa, a música pop americana irá refletir uma orientação birracial semelhante. Se assim for, a síntese negro-branco de Prince não é apenas uma imagem do que poderia ser, é uma profecia."

Prince seguiu claramente os ensinamentos de David Bowie na forma como se libertou das amarras sociais e culturais que enclausuram os indivíduos com normas que regem a raça, o género com que estes se identificam e a sua sexualidade. Bowie, que também morreu no início deste ano, vítima de cancro, e que Prince homenageou no seu último concerto (no dia 14, no Fox Theater, em Atlanta, EUA) ao interpretar o clássico Heroes.

O paralelo com David Bowie é inevitável, mas a influência que Prince teve prende-se, em muito, com as questões raciais, como ontem lembrou Marc Bernardin, editor de cinema do Los Angeles Times, que escreveu na sua conta oficial de Twitter: "O que Bowie representou para miúdos brancos que não se enquadravam [na sociedade], Prince foi para miúdos negros. Foi um farol com rímel que tornou possível que nos destacássemos."

Já a abrangente conceção de género que definia a sua identidade refletiu-se de forma única no seu percurso quando, em 1993, adotou o love symbol como nome, deixando o nome Prince para trás; esse símbolo, impronunciável, inclui elementos de Marte e de Vénus, ou, como lembra Christina Cauterucci, na Slate Magazine, iconografia masculina e feminina, assemelhando-se o símbolo a outros que hoje identificam as comunidades transgénero, genderqueer e intersexo.

A importância destas questões, a par da obra inigualável que criou ao longo de mais de três décadas, faz que Prince tenha tido uma grande influência na vida de milhares de pessoas por todo o mundo, daí que se multipliquem um pouco as homenagens ao músico. Ainda na quinta-feira à noite, o realizador Spike Lee (que em 1992 realizou o teledisco de Money Don"t Matter 2 Night) homenageou o músico com uma festa nas ruas de Brooklyn, Nova Iorque, que juntou quase mil pessoas que cantaram e dançaram ao som dos clássicos de Prince. Hoje o mundo é púrpura, por Prince.

Mais Notícias

Outras Notícias GMG