Como ficar Jacques-Yves Cousteau segundo Lambert Wilson

Estreia hoje "A Odisseia", de Jérôme Salle, a odisseia do estrelato de Cousteau. Lambert Wilson explica ao DN como foi dar carne e osso a um dos heróis do século XX.

Vamos mergulhar ao fundo do oceano e recordar Jacques Cousteau. A proposta é de Jérôme Salle, autor de A Odisseia, biopic mais ou menos convencional de um dos símbolos de França. Lambert Wilson é o ator escolhido para dar vida ao mito. Uma interpretação que o obriga a doses descomunais de látex na cara para conseguir ser o Cousteau jovem e idoso. Em Paris, num hotel de luxos asiáticos, começou por nos dizer que as cenas de mergulho foram uma espécie de libertação pessoal: "Sempre fui alguém que teve um grande prazer a nadar, seja no fundo do oceano ou numa piscina. Mas a partir do momento em que tive aulas de mergulho ganhei uma liberdade enorme. Fiquei um homem feliz. Curiosamente, neste filme o Cousteau não mergulha muito, é mais o seu filho. Mesmo assim, as poucas cenas em que mergulho deram-me um imenso prazer. Mergulhar tornou-se uma obsessão e amo estar com mergulhadores profissionais. São pessoas que são forçadas a absorver a natureza!"

A Odisseia é o desfile das conquistas do explorador e do cineasta que se tornou célebre no mundo inteiro devido à difusão dos seus programas na televisão americana, mas é ao mesmo tempo um estudo sobre a família. Mostra o Cousteau pai, o Cousteau homem de negócios e o Cousteau marido carinhoso mas mulherengo. Esse seu lado de adúltero pode surpreender quem só conhecia a faceta do simpático aventureiro ecologista de barrete vermelho.

Segundo Lambert Wilson, a família Cousteau amou o filme: "Ficaram muito tocados com esta nossa história. De repente, as netas e os netos estão a ver os seus pais e avós a ganhar carne. Na minha opinião, deve ser uma coisa que é capaz de dar a volta à cabeça, sobretudo os herdeiros de Philippe, o filho de Jacques, sem esquecer a sua viúva, que nos visitou na rodagem e tudo. Para os filhos de Philippe foi incrível: nós trouxemos de volta o pai, com todo o seu carisma! Foi muito comovente ver a reação deles."

Realizado por Jérôme Salle, cineasta mais especializado no cinema de ação e no thriller, A Odisseia, tenta também assumir uma certa veia de cinema de aventura. A dada altura, recorda um dos grandes sucessos dos anos 1980 do cinema francês, Vertigem Azul, de Luc Besson. Mas o filme tem mais terra do que vida aquática. Tem muito de Cousteau a tentar sobreviver na sua utopia como homem livre perante a natureza num barco chamado Calipso. Um Cousteau que juntamente com o filho foi capaz de chamar a atenção de todo o mundo sobre as questões ambientais relacionadas com os oceanos. Temos o Cousteau trapaceiro (era capaz de todas as concessões para ser financiado), mas também temos o Cousteau verdadeiramente amante da natureza e das espécies.

Wilson é particularmente bom a dar uma dimensão humana ao homem, mesmo quando o filme faz os desvios da norma nesta coisa dos biopics. "A história dele usar o barrete vermelho tem que ver com o seguinte: Jacques-Ives era sobretudo um homem da imagem. Para ele, havia aquilo que as coisas eram e havia aquilo que as coisas ficavam depois de serem filmadas... Tinha também um talento estético muito telegénico, por isso preocupava-se com o design da farda da sua tripulação", revela o ator.

Curiosamente, Lambert Wilson não é conhecido por ser um ator de composição. Os seus maiores momentos no cinema são em delírios fantasiosos de Alain Resnais, como É sempre a Mesma Cantiga, ou no icónico Encontro, de André Téchiné. Mas aqui o seu Cousteau tem a pose certa. Lambert dá ao herói francês uma compostura surpreendentemente elegante. Uma compostura que é própria do ator (chegou a ser convidado para o solene dever de mestre-de-cerimónias do Festival de Cannes...). Para abalar essa compostura, perguntamos-lhe o que poderia acontecer se alguém decidisse filmar um biopic da sua vida. A resposta chegou entre reticências: "Os meus primeiros anos não dariam um filme interessante, apesar de ter tido os meus momentos intensos. Agora, este meu último período, talvez. Sabe, os atores não dão histórias interessantes... as nossas vidas não são inspiradoras a nível universal, a não ser que tenhamos assim uma espécie de drama secreto. Claro que se eu ficar um pouco louco as coisas possam ficar mais estimulantes. A verdade é que não tenho nada para dizer que seja de valor universal."

No fim do encontro, antes de perguntar como está o seu amigo Rogério Samora, deixa-nos uma mensagem à Cousteau: "A ecologia não depende dos governos ou das organizações. É algo cujos valores têm de ser partilhados por todos. Quando estamos a lavar o cabelo será que já nos interrogámos o que acontece à espuma do champô? Será que sabemos para onde vai a água cheia de detergentes após termos lavado a louça? Essas são as perguntas que eu faço sempre aos jovens. É com essas perguntas que começa a nossa consciencialização! Se conseguirmos que cada pessoa comece a reagir individualmente então estamos a dar um grande passo para um mundo melhor..."

Só um ator eco-amigo poderia ser digno de Jacques-Ives Cousteau...

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