Coachella. As saudades que tínhamos de Guns N' Roses

Duas horas e 28 minutos de concerto marcaram a reunião dos membros originais no Coachella, com Axl Rose imóvel e uma bateria de grandes êxitos

Axl Rose, Slash e Duff McKagan juntos em concerto, no enorme palco principal do Coachella, parecia uma alucinação provocada pelo calor abrasador que esteve durante o dia no deserto da Califórnia. E de certa forma, foi: Axl passou a maior parte do concerto sentado, com a perna esquerda engessada, depois de ter partido um osso do pé na aparição surpresa que a banda fez no Trobadour, em Los Angeles, há duas semanas.

O vocalista de 54 anos pouco ou nada se conseguia mexer, o que tornava dura a perspetiva de duas horas e meia de concerto de rock. Mas, de alguma forma, Axl puxou dos galões e conseguiu. "Sinto-me mal por estar aqui de rabo sentado", admitiu o líder da banda agora na formação original (sem Izzy Stradlin nem Steven Adler, claro). "Queria agradecer ao Dave Grohl por este trono incrível", disse, referindo-se à cadeira onde surgiu com apenas oito minutos de atraso (que diferença fazem umas décadas) e que foi usada pelo vocalista dos Foo Fighters quando este deu cabo da perna em 2015.

Foi assim que o líder dos Guns surgiu em palco, qual Lannister no Trono de Ferro, a rasgar com It"s So Easy, do seminal Appetite For Destruction. Welcome to the Jungle foi o primeiro hit que pôs toda a gente dançar. "Sabem onde estão? Estão na selva, Coachella!", gritou Axl no seu tom inconfundível. Sweet Child of Mine e You Could Be Mine tiveram a receção que era devida, e pelo meio houve interpretações arrepiantes de Estranged, Coma e Civil War.

O trono não o impediu de fazer várias mudanças de roupa, aproveitando solos magistrais de Slash e a voz de Duff a cantar Attitude do princípio ao fim para pegar em muletas e ir buscar t-shirts, chapéus, casacos com brilhantes e óculos escuros. Slash tocou uma cover de Wish you where here dos Pink Floyd, antes de Axl aparecer de preto, sentado ao piano, para um dos momentos altos da noite: November Rain.

Na tenda VIP circulavam Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger e Courtney Love. O recinto estava próximo de esgotado, com perto de 100 mil pessoas, mas do meio para trás no palco principal, que umas horas antes estava completamente cheio, havia agora muito mais espaço. Porquê? Talvez as palavras de Felix Safran De Laet/Lost Frequencies, que deu uma entrevista ao DN, expliquem o sucedido. "Quero mesmo é ver a performance de Flume. Sou muito novo para gostar de Guns "N Roses", disse o DJ belga, de 22 anos.

Os milhares de festivaleiros que invadiram o palco principal ao final da tarde para Disclosure - performance em que a neo-zelandesa Lorde fez uma aparição - e Ice Cube tinham pouca ou nenhuma memória da era dourada dos Guns N" Roses. Muitos não eram sequer nascidos quando os Guns lançaram o último álbum dos anos noventa, The Spaghetti Incident?.

Mas o mesmo é válido para os N.W.A e Ice Cube. Quem estava ali à espera de Guns - o merchandising da banda esgotou logo no início do dia - viu o recinto ir abaixo com Natural Born Killaz e Check Yo Self. Ainda houve tempo para Common e Snoop Dog darem um ar da sua graça. Uma audiência jovem, como a caracteriza o Coachella, identifica-se mais com Ice Cube e lendas do rap que com uma banda que passou dez anos a produzir um álbum.

À hora que Axl e companhia dispararam os tiros de partida, já tinha havido uma debandada. O público agora era mais velho e menos diverso, o que não perturbou Rose, que foi comunicando de forma quase simpática - houve um "motherfuckers" aqui e ali.

A noite nas filas da frente era de euforia, que começara horas antes quando Axl Rose foi anunciado como vocalista de tour dos AC/DC. O convidado especial da noite só podia ser Angus Young, para um dueto duplo: Whole Lotta Rosie e Riff Raff. "Uma vez que não consigo andar aqui a correr, vamos trazer um amigo para injetar um pouco de vida nisto", disse Axl ao anunciar o lendário guitarrista.
Live and Let Die e Knocking On Heaven"s Door puseram toda a gente a cantar com e Nightrain foi música de saltos e punhos fechados no ar. O vocalista imóvel despediu-se com pouca convicção, porque ainda faltava tocar Paradise City. O encore não demorou a chegar, começando com Patience, acompanhada ao piano. Seguiu-se The Seeker, e depois um agradecimento sentido do prima donna reformado. "Foi uma noite encantadora, obrigado por terem vindo", ouviu-se de Axl. "Como eles estão diferentes", disse-me um festivaleiro, "Da última vez que os vi, apareceram duas horas atrasados e o Axl não cantou nada, fartou-se de chamar nomes às pessoas."

No final, houve fogo de artifício e um agradecimento de todos os músicos, como numa peça de teatro. Axl pegou nas muletas e tentou sair do palco em pé-coxinho. Acabou por se estatelar no chão, mas muita gente não se apercebeu; estavam a olhar para Slash e McKagan, que atiravam palhetas e se despediam dos fãs. Foi um grande concerto, mesmo com o choque de gerações neste dia primordial do Coachella. No próximo fim de semana há mais Guns, e certamente mais Rose.

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