"Ter cinco personagens no mesmo filme é um luxo"

Entrevista com Ana Moreira, que interpreta Rosalina de Sousa no filme A Corte do Norte, de João Botelho.

Faz cinco papéis diferentes em A Corte do Norte, de João Botelho. Sempre soube que os ia fazer desde o início, ou foi uma ideia que o realizador teve posteriormente e lhe propôs?

Não, soube logo desde o início que eram cinco personagens para a mesma actriz. Achei muito bom um realizador decidir confiar tantas personagens a uma só pessoa.

Foi um verdadeiro desafio...

Um desafio mas sobretudo um luxo. Uma coisa destas não acontece muitas vezes. É um autêntico luxo, ter cinco personagens para interpretar no mesmo filme.

Não me lembro de uma tal acumulação de papéis no cinema português. Acho que é a primeira vez que tal sucede.

Eu também não. É uma grande responsabilidade, e também porque foi a primeira vez que trabalhei com um guião que parte de uma obra literária. Até aqui tinha feito sempre argumentos originais. Mas por outro lado foi bom, porque tinha uma base, o livro, para ler, estudar e fazer a minha própria interpretação. Depois veio o guião adaptado e encaixei nele a minha leitura das personagens. E como era um filme de época, envolveu guarda-roupa de época, maquilhagens, cabelos, etc. Antes de começar a rodar, gastava uma hora todos os dias só para compor o figurino. Além disso tinha que fazer com que existisse um encaixe entre mim e a personagem que estava a interpretar. Depois, a maneira do João trabalhar com os actores é muito diferente daquilo que eu tinha feito até à data e tive que me adaptar ao universo do realizador.

E como correu essa adaptação?

O João tem uma grande energia e contamina toda a gente. Energia e nervoso, também. E é também um realizador muito técnico, trabalha muito a luz, a imagem, a s marcações. Isso para mim era tudo novidade. e já não me permitia a liberdade que tinha tido. Ou seja, tive que esquecer muito do que tinha aprendido em termos de representação, para aprender coisas novas, outra maneira de representar. E acho que correu bem...

Não ficou estranha a princípio? Não lhe fizeram confusão tantas personagens?

Entre a primeira e a segunda semana de trabalho, sim, mas depois adaptei-me e a coisa correu bem. Foi tudo uma questão de me adapta, veio com o tempo.

Das cinco personagens que faz em A Corte do Norte, quatro são da mesma família. É como se interpretasse uma continuidade familiar, dado que essas mulheres têm traços em comum. Como é que as compôs?

Foi complicado. Elas são diferentes como mulheres, mas ao mesmo tempo é a mesma mulher, e vivem em épocas diferentes, por outro lado. E estas mulheres da mesma família já trazem como que uma carga, como que se existisse o fantasma da avó, da bisavó... A Rosamund, por exemplo, é a mais bem resolvida delas todas, a mais moderna, mais independente... mas ao tempo também a criticam muito por essa rebeldia e independência, tal como aconteceu às mulheres das gerações passadas... Foi através de conversas com o João, de muito da leitura do livro e da descrição de cada personagem que a Agustina faz, que eu as compus. Nós vamos assimilando tudo isto e depois quando chega a altura de fazer as personagens, vamos buscar aquilo de que precisamos para nos transformarmos nelas. E depois o resto é cinema, é imaginação, é truque, é fantasia...

Há ainda o teatro dentro do filme, não é? Teve também que interpretar uma actriz a representar peças em palco.

Sim, é como se houvesse ainda mais duas personagens além destas cinco, a Dama das Camélias e a Judith (risos).

Você e o João acharam que nessas cenas era necessário representar ao jeito da época, como se fazia no século XIX ou isso não se pôs?

O João pediu-me para representar essas cenas de palco de um jeito especial. Esta actriz, a Emília de Sousa, era conhecida porque dava uma entoação estranha às frases, tinha um ritmo diferente do normal na maneira como dizia o texto. E na altura, as actrizes costumavam ser analfabetas. Por isso, estudavam os papéis decorando o texto que lhes ia sendo lido por outra pessoa, o que se calhar também influenciava a maneira como depois o declamavam em palco.

E finalmente, a quinta personagem a que dá corpo é a imperatriz Sissi, que já foi interpretada pela Romy Schneider.

Sim, e ela depois de a ter interpretado ainda nova nos primeiros filmes, aparece mais tarde no Ludwig do Visconti completamente diferente... é uma outra mulher, outra Sissi. E a actriz é a mesma, é notável.

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