'Psico': O chuveiro, a narrativa e o espectador

Depois da recente reposição de 'A Mulher Que Viveu Duas Vezes' está de volta aos ecrãs portugueses o clássico 'Psico', de Alfred Hitchcock

Título: 'Psico'

Realização: Alfred Hitchcock

Com: Anthony Perkins, Janet Leigh, Vera Miles, John Gavin

Distribuidora: Midas Filmes

Classificação: 5 / 5

Memórias de 1960: em Itália, com La Dolce Vita, Federico Fellini misturava exuberância e desencanto para mostrar como a "sociedade de consumo" estava minada de ilusões; em Inglaterra, através de Peeping Tom, Michael Powell encenava um cineasta assombrado, mostrando que a transparência do cinema coexiste, afinal, com um labirinto de coisas indizíveis; enfim, nos EUA, Alfred Hitchcock escolhia uma heroína, interpretada por Janet Leigh, e ao fim de poucas dezenas de minutos, fazia-a desaparecer numa cena de um chuveiro não muito acolhedor...

Psico é o filme dessa orfandade narrativa: uma história cuja personagem central, ao ser violentamente sacudida da evolução dos acontecimentos, abre para zonas de ambiguidade onde são transfigurados os conceitos clássicos de narrativa, identificação e percepção moral. A noção corrente de "mestre do suspense" revela-se insuficiente para dar conta do génio "hitchcockiano". Claro que ele soube, como poucos (Fritz Lang será outro exemplo modelar), jogar com as discrepâncias entre o saber de personagens e espectador, a ponto de organizar os seus grandes filmes (Difamação, Janela Indiscreta, O Falso Culpado, etc.) como processos de discussão da visão do próprio espectador e do seu lugar na dinâmica moral do mundo representado.

Em todo o caso, importa devolver Hitchcock às convulsões da história e sublinhar que, com as ousadias de Psico, incluindo a integração das referências psicanalíticas na abordagem da relação de Norman Bates (Anthony Perkins) com a mãe, ele se perfilava como um dos mais experimentais autores da produção americana na viragem da década de 50 para os atribulados sixties. Em 1959, John Cassavetes, lançava Shadows, admirável bandeira do cinema independente; pela mesma altura, Hitchcock declarava-se independente em relação aos grandes estúdios e arriscava em Psico. Só é possível compreender a energia da produção americana, sublinhado a contemporaneidade de Cassavetes e Hitchcock.

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