'Guia Para Um Final Feliz': Histórias de um cinema bipolar

'Guia Para Um Final Feliz' é uma adaptação ao cinema, por David O. Russel, do romance com o mesmo título do estreante Mathew Quick.

Título: 'Guia Para Um Final Feliz'

Realização: David O. Russell

Com: Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Robert de Niro

Dizer que, com Guia para Um Final Feliz, David O. Russell fez um filme "bipolar", de algum modo cúmplice das atribulações do seu protagonista, corre o risco de ser mal interpretado. É verdade que não devemos confundir os dramas conceptuais dos filmes com os dramas que possam afligir as suas personagens. O certo é que Guia para Um Final Feliz ilustra, com invulgar inteligência, a encruzilhada de um cinema que não desiste de contrariar as facilidades da nova vaga tecnológico-infantil ("super-heróis", "efeitos especiais", etc.).

É um cinema de personagens humanas e também, por isso mesmo, de obstinado respeito pelos atores. É, acima de tudo, um cinema que não esqueceu que, mesmo colocando em cena um frágil herói afetado por um distúrbio bipolar, isso não exclui as delícias agridoces do romantismo. Aliás, isso tem um nome respeitável: Hollywood! Em boa verdade, Hollywood tornou-se esse conceito "bipolar" de expressão em que as rotinas do marketing dos blockbusters coexistem com todos aqueles (argumentistas, realizadores, produtores) que não desistem de mostrar que a energia vital do cinema americano, apesar do vanguardismo da sua tecnologia, reside na arte muito antiga de contar histórias.

Nesta perspetiva, Russell é também uma contradição viva: um enérgico "não alinhado" que, sabiamente, vai trabalhando no interior do "sistema". Em Guia para Um Final Feliz, ele faz com a doença mental o mesmo exercício a que sujeitou a Guerra do Golfo em Três Reis (1999): mostrar-nos que, do ponto de vista narrativo, o negrume da tragédia coexiste com a luminosidade da comédia. Isto sem esquecer que, para além dos brilhantes Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, o seu filme nos devolve um velho senhor ultimamente perdido em papéis banais. O seu nome: Robert De Niro.

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