A odisseia de Robert Redford no alto-mar

O novo filme do norte-americano J. C. Chandor tem um único ator. "All Is Lost" narra uma espantosa história de sobrevivência num barco. Esteve no festival e passou fora da competição.

Face ao novo filme de Nicolas Winding Refn, Only God Forgives, com Ryan Gosling e Kristin Scott Thomas, houve quem levantasse uma questão inevitavelmente pertinente: num festival em que a oferta é tão variada e estimulante, que sentido faz mostrar um thriller de grande ostentação formalista, mas também de enorme convencionalismo temático, no espaço nobre da competição de Cannes? Podemos resumir isto de outro modo: Only God Forgives foi, até agora, o filme mais apupado.

Também sem grande surpresa passou Grigris, representante do Tchad, com realização de Mahamat-Saleh Haroun. O filme vale, sobretudo, como testemunho de uma complexa situação social e política, aqui simbolicamente condensada na personagem central: um jovem que, apesar de ter uma perna paralisada, desenvolveu peculiares dotes de dançarino; a sua existência é subitamente abalada pelo facto de se envolver com um grupo de traficantes de gasolina...

A provar que alguns filmes mais ou menos "secundarizados" poderiam estar na corrida para a Palma de Ouro, foi um título extracompetição a destacar-se na programação de quarta-feira. Chama-se All Is Lost e trata-se da nova realização de J. C. Chandor, cineasta que se estreou há apenas dois anos com Margin Call- O Dia Antes do Fim, um filme sobre a crise económica de 2008. O mínimo que se pode dizer de All Is Lost (à letra: "Está Tudo Perdido") é que não é todos os dias que deparamos com um filme cujo elenco tem apenas... um nome! É ele Robert Redford (76 anos), por certo num dos desafios mais radicais de toda a sua longa e brilhante carreira.

Redford interpreta uma personagem de que nada sabemos, a não ser aquilo que deduzimos da cena de abertura: anda sozinho, algures no alto-mar, e o seu barco foi abalroado por um contentor à deriva. A partir daí, entramos numa espantosa odisseia de sobrevivência que Chandor encena também como uma tragédia da mais pura solidão. All Is Lost resulta de uma complexa e sofisticada produção, já que, como se pode imaginar, não é simples encenar uma experiência deste género tendo como cenário único a grandeza do oceano.

Em todo o caso, não se pode dizer que seja um filme de ostentação técnica. Bem pelo contrário: Chandor concentra-se na representação de Redford, emprestando ao seu filme uma subtil e contagiante dimensão humana (quase irónica, já que as palavras ditas pela personagem se contam pelos dedos de uma mão). Rezam as crónicas que o projeto teve a sua origem no encontro de Chandor e Redford no Festival de Sundance (criado por Redford), precisamente em 2011, quando O Dia Antes do Fim aí foi apresentado. Num tempo de tantas aventuras de "super-heróis" e efeitos especiais, All Is Lost distingue-se pelo seu gosto muito clássico da aventura.

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