Christian Bale: "Tenho vergonha de ser ator"

Christian Bale, ator a interpretar um argumentista à deriva em Cavaleiro de Copas, de Terrence Malick. O DN entrevistou-o em Berlim

Trabalhar sem argumento num filme de Terrence Malick é uma experiência libertadora?

Foi muito libertador, até poderia adormecer. Foi maravilhoso! Tudo pode resultar. O Terry não é alguém que faça exigências. Ele prefere ver o que acontece, aceita o que um ator lhe dá. Uma vezes aceitava que estivesse em silêncio, noutras incentiva que eu falasse. Numa das manhãs estávamos a rodar e eu estava de rastos - tinha tido uma noite má. Ele disse logo: "usa isso". Não há nada aquela coisa de ele ter uma visão e nós termos de chegar até lá...É um cineasta do "deixa ver o que acontece", do descobrir o que a cena traz. Nunca, mas nunca nos diz "isto não era aquilo que estava à espera, podes antes tentar isto?" Ironicamente, a minha personagem é um homem de palavras mas que perde todo o uso das mesmas. É alguém que deixa de aprender consigo próprio. Só aprende com os outros, a observar e a ouvir.

Apesar de ele ser um argumentista, acha que poderia também ser um ator de Hollywood?

O que é importante é que tudo se passa em Hollywood. Resulta bem ser um argumentista precisamente porque é alguém que perdeu o uso das palavras. Sendo um argumentista podemos também retirar a vaidade óbvia e o glamour associado. As pessoas conhecem um pouco menos os argumentistas. Mas os excessos estão ali mesmo à frente bem disponíveis! Quem está sujeito ao sucesso tem essa atração pelo excesso. Isso não se passa apenas em Hollywood, dá para todo o lado. Hollywood é apenas um aquário de peixes dourados mais visível... Do lado de fora parece mesmo aquele lugar dos excessos e da vida glamourosa. Este filme é sobre aquela sensação de que continuamos a ser os mesmos depois do sucesso em vez de mudarmos. Isso deixa este homem vazio. Um homem que já experimentou tudo... Ele fica sem saber o que quer procurar, apenas sabe que quer algo de diferente. Possivelmente, tem a noção de que perdeu algo da sua infância e de que precisa de voltar a ter um conhecimento da vida igual ao que tinha quando era mais novo.

Já alguma vez esteve nessa posição?

Caramba, já passei por tanta coisa! Todos os que fizemos este filme já estivemos em algumas daquelas situações e houve que fazer uma opção: ou atirarmo-nos de cabeça ou cavar dali para fora! O que o filme mostra não é muito exagerado. Eu próprio estou constantemente em dúvida se quero fazer isto ou se quero fazer aquilo...Ou gosto das coisas ou detesto-as de morte...

Confirma que ia para o plateau com muito pouco material escrito de argumento?

Sim, a Natalie Portman ainda tinha umas coisas escritas... Aliás, todos os outros atores tinham muito mais do que eu. Isso era intencional, nunca fazia a mínima ideia do que iria acontecer nas filmagens. O Terry não me telefonou e disse-me: Bale, tenho aqui um papel para ti - ele não é assim. Falámos durante muitos anos e ele foi-me contando algumas ideias e discutimos sobre uma personagem que nos interessava. Mas na altura das filmagens não havia mesmo páginas escritas de argumento. Chegava ao plateau e ele dizia-me: safa-te e vê o que acontece! Enquanto isso, todos os outros tinham alguma parte do guião. O que também acontecia é que não sabíamos onde íamos filmar. Acordávamos, punham-nos num carro e depois acordávamos no deserto. Se ele achava que aquilo ficava bem, toca filmar ali! Ou, por exemplo, se estávamos na rua e o Terry descobrisse alguém interessante, pedia-me para interagir com essa pessoa. Às vezes, nas nossas conversas, ele percebia que eu lido melhor com não atores. Em muitos dos casos acontecia também que estava a contracenar com não atores mas que, afinal, eram atores a fingir que eram não atores. O que é incrível é que nem conhecia a Teresa Palmer, pensava mesmo que ela era uma stripper. Uma semana depois encontro um cartaz de um filme dela na rua. Claro, ela achou que eu era maluco... Disse-me: "sei da tua reputação!" e fartou-se de inventar histórias. Enfim, na maioria das vezes estive muito confuso nesta rodagem.

Esta é uma personagem rodeada de mulheres. Pessoalmente, sente que ficou a conhecer melhor a condição feminina?

Desde a morte do meu pai que a minha vida ficou inundada de mulheres. As minhas irmãs, a minha mãe... Esta minha personagem é sobretudo afetada pelo pai e a memória dos seus irmãos. Digamos que é alguém que é confrontado com a importância da memória e dos seus truques. Ele debate-se com recordações de pessoas que lhe foram importantes mas que se está a esquecer, isto é, a memória como algo que afeta a realidade. Toda esta viagem íntima é uma forma dele se tentar lembrar de quem é na realidade.

Ou seja, de alguma forma, a criação da personagem é também sua? Não é apenas de Terrence Malick...

Sim, foi esse o nosso trabalho durante alguns anos. Na verdade, teria sido mais complicado se houvesse um guião, seria antes uma tarefa. Talvez por isso filmámos muito material sem diálogo. Claro que também filmámos muitas cenas em que falava muito, mas estava ciente de que o Terry nunca iria usar isso. Deixou que isso acontecesse para que eu depois não ficasse chateado e fizesse tudo o que me pedia. Creio que nem foi um desafio, foi algo genuíno. O que o deixava feliz era o que estava mais próximo do real. De alguma forma, mergulhei na personagem: olhava realmente para o meu pai, para o meu irmão, para uma mulher com quem tive um caso e, aí, sim, as coisas começaram a acontecer. E era isso que ele estava à procura.

Toda a sua vida teve de lidar com jornalistas. Este tipo de entrevistas promocionais traz-lhe algo?

Gosto, a sério, da experiência. Veja bem, de repente, estou aqui a dar entrevistas em Berlim - surreal! Quando falo com a imprensa ouço comentários e questões que me deixam a pensar. Seja como for, não sou daqueles atores muito comprometido com aquilo que faço. Às vezes, tenho momentos em que penso que estou na pior das indústrias. Noutras, paro e penso: por momentos até parece que tenho um trabalho criativo.

Fica afetado quando muda de forma tão drástica de visual? Quando emagreceu radicalmente para O Maquinista isso afetou-o mentalmente?

Diria que é magia (risos). Mas claro que me afeta muito. Mudamos para nos tornar uma outra pessoa. Essa minha necessidade de mudar vem de uma certa insegurança e com a minha natureza muito obsessiva, em que às vezes me faz perder o caminho do real. Ando a testar os limites para ver o que surge. Em geral tem que ver com o meu desejo de não me aborrecer. Talvez também tenha que ver com a minha ideia de ser uma outra pessoa.

Essa minha necessidade de mudar vem de uma certa insegurança e com a minha natureza muito obsessiva

O seu trabalho como ator ajuda-o a perceber quem é o Christian Bale na realidade?

Por completo, mas não sou tão arrogante para pensar que estou a consegui-lo. Ser ator é uma experiência humana, embora todos tenham sentimentos e vivam 24 horas por dia. Muitas vezes tenho de me colocar em lugares que não são os mesmos pois, ao fim e ao cabo, estou a fazer um trabalho. Mas todos nós temos múltiplos rostos, não só os atores. Se assim não fosse não conseguiríamos sobreviver. Não acredito que as minhas experiências sejam superiores ou diferentes de todos aqueles que não são atores. Por isso, tenho vergonha de ser ator. Não vejo grande vantagem em ser ator. Fico embaraçado quando me chamam "estrela". Parece uma coisa vácua ou que sou de uma boys band. No meu caso é mesmo inadequado. Às vezes penso, se agora fosse o apocalipse, qual seria a minha utilidade? A maioria teria aptidões para sobreviver, eu não... Apenas poderia fingir que poderia ser outra pessoa.

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