Chico Buarque fez chover cravos em Lisboa

O músico deu nesta quinta-feira o primeiro de quatro concertos no Coliseu dos Recreios, em Lisboa, todos eles esgotados, depois de o mesmo acontecer no Porto. No final houve Tanto Mar e cravos vermelhos no palco

Há doze anos que Chico Buarque não passava por aqui. Não será então de estranhar que, quando o pano subiu no Coliseu dos Recreios, na plateia se tenham posto de pé, com a impaciência própria dos que há muito esperam quem é desejado.

Chegava por fim a embaixada de Chico Buarque de Holanda, hoje de 73 anos, que se servia da canção composta por Assis Valente a que Carmen Miranda deu voz, Minha Embaixada Chegou, para convidar quem tinha à frente: "Vem esquecer tua tristeza / Mentindo à natureza / Sorrindo à tua dor." Porque afinal: "Minha embaixada chegou / Meu povo deixou passar / Ela agradece a licença / Que o povo lhe deu para desacatar."

Era o início de um concerto de duas horas em que, na plateia, raras foram as vezes em que não se ouviu um coro a entoar cada canção. E, com a devida "licença", vieram então Partido Alto e Yolanda.

Essas parcerias são letras que escrevi para músicas que gostaria de ter composto. A começar pelas de Tom Jobim

Depois chegaram as Caravanas àquele concerto esgotado, como os três que se seguem, desta sexta-feira a domingo, e como os do passado fim de semana no Porto. O último disco de Chico Buarque, editado no ano passado, aparecia com Casualmente. As Caravanas haviam estacionado.

Do "grande Edu Lobo", disse, viria A Moça do Sonho, recebida com grande entusiasmo. "Tenho tido grandes parceiros. Como Ivan Lins, que está aqui presente. Essas parcerias são letras que escrevi para músicas que gostaria de ter composto. A começar pelas de Tom Jobim", lançou Chico Buarque, antes de Retrato em Branco e Preto, a que mais à frente se viria ainda juntar Sabiá, também de Jobim.

Entre Caravanas e os clássicos

Entre Desaforos, Jogo de Bola ou Blues Pra Bia, todas de Caravanas, vieram clássicos como A Volta do Malandro - aplaudida aos primeiros acordes -, Homenagem ao Malandro, Palavra de Mulher, A História de Lily Braun, ou Todo o Sentimento, um dos momentos mais fortes do concerto daquela voz que, para quem só a conhecia dos discos, confirmou que existe assim mesmo e, para quem havia muito não a escutava, que ali estava, imperturbável, madura.

Quando chegou a hora da Tua Cantiga, Chico Buarque veio para a frente do palco. Já não é possível saber se é só por ser uma grande canção ou se há uma espécie de defesa coletiva por detrás do entusiasmo com que a canção é recebida. Recorde-se que quando esta, em que um homem fala à sua amante, foi lançada, alguns acusaram Buarque de machismo, a partir dos versos "Quando teu coração suplicar / ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir". Certo é que àquela canção, em que o poeta se inspira em Bach e cita Shakespeare (o final do Soneto CXVI: "Se isto é falso, e que é falso alguém provou, / Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou"), seguiu-se um aplauso que parecia não terminar. Chico agradecia, na elegância que não permite fáceis assunções de comoção.

Na caravana seguiam também o maestro e arranjador Luiz Cláudio Ramos (violão), João Rebouças (piano), Bia Paes Leme (voz e teclados), Chico Batera (percussão), Jorge Helder (contrabaixo), Marcelo Bernardes (sopros) e Jurim Moreira (bateria).

Foi de panamá na cabeça que o músico prestou homenagem a Wilson das Neves, a quem o concerto é dedicado, o percussionista, velho companheiro de Chico, que morreu em 2017. "Tantos palcos, tantos camarins, tantos momentos felizes, a sua bênção Wilson das Neves", diria antes de Grande Hotel, uma das últimas canções, antes de As Caravanas que nos levaram à Estação Derradeira e, por fim, como num círculo sem interrupções, a Minha Embaixada Chegou.

Uma visita aos santos do altar da música brasileira

O encore trouxe Geni e o Zepelim - a "maldita" Geni, que "é feita pra apanhar / boa de cuspir" -, Futuros Amantes - "Não se afobe, não /Que nada é pra já / O amor não tem pressa / Ele pode esperar em silêncio", e Paratodos, numa visita aos "santinhos" do altar da música brasileira, Vinicius, Dorival Caymmi, Cartola, João Gilberto, Nara, Gal, Bethânia.

Chico trouxe abril

Chico volta a sair do palco. Quando regressa, um homem entre o grupo que entretanto se formara junto ao palco, de pé, subia para lhe dar um cravo vermelho. E então vinha Tanto Mar, acompanhada com a queda sucessiva de cravos no palco, e com uma comoção e entusiasmo gerais (testemunhada pelas palmas, pelos abraços, por quem observava apenas, ou pela luz de inúmeros telemóveis a filmar). "Sei que estás em festa, pá / Fico contente / E enquanto estou ausente / Guarda um cravo para mim", cantou, na primeira versão que a canção conheceu, trazendo abril em força e despedindo-se da mesma forma.

Claro que para falar da noite de Chico Buarque no Coliseu dos Recreios apetece citar versos seus, porque, como os de qualquer grande poeta, ficam na cabeça (senão porque iria Buarque buscar Shakespeare em Tua Cantiga?). Mas que fique a primeira frase ouvida no público depois do fim do concerto: "Foi um grande espetáculo." Palavra de mulher.

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