Cate Blanchett: "Ser atraente não impede de ser inteligente"

Num festival de Cannes marcado pelas discussões em torno dos temas do assédio sexual, o valor simbólico atribuído às presenças femininas

A atualidade do Festival de Cannes já não é o que era. Porque os filmes que concorrem para a Palma de Ouro se afiguram desinteressantes? Bem pelo contrário. Reunindo nomes como Jean-Luc Godard, Spike Lee ou Nuri Bilge Ceylan (para além dos que se apresentam fora de competição, incluindo o regressado, outrora "amaldiçoado", Lars von Trier), o mínimo que se pode dizer da seleção proposta pelo delegado geral Thierry Fré-maux para a 71.ª edição do certame é que está recheada de títulos que, por certo, serão pretexto de muitas dissertações e paixões ao longo do próximo ano. Acontece que, em termos mediáticos, a atualidade sofreu mesmo um duro golpe. A saber: nenhuma projeção para a imprensa ocorrerá antes de o respetivo filme ter tido a sua sessão oficial de gala (na melhor das hipóteses, os dois eventos irão sobrepor-se).

Num longo e minucioso comunicado, a equipa do festival achou por bem explicar a alteração. Sem ocultar que a nova grelha de programação procura, acima de tudo, contrariar o efeito "imediato" e maniqueísta, em particular no repúdio, que as redes sociais podem provocar em torno de um filme.

Na prática, era usual haver "várias projeções de um filme antes da primeira apresentação oficial" - para a imprensa, profissionais e frequentadores do festival, ou seja, "cerca de cinco mil pessoas" que viam o filme antes da apresentação oficial em presença da equipa. Este ano, seja qual for o ambiente vivido na première de um filme, a "culpa" não será dos jornalistas...

Faz sentido, por isso, que o júri oficial, presidido pela atriz australiana Cate Blanchett, tenha tido o cuidado de definir a sua tarefa a partir de uma máxima abertura à pluralidade do cinema. Na habitual conferência de imprensa dos jurados, falou-se da atualidade do movimento contra a discriminação das mulheres, mas a presidente teve o cuidado de não se deixar enredar em qualquer atitude panfletária. Este ano surgem "apenas" três mulheres na secção competitiva? Blanchett lembrou que houve edições em que as presenças femininas foram duas, não escondendo que deseja ver continuar a crescer esse número, mas sublinhando também que acredita que as mulheres estão na corrida para a Palma de Ouro "não pelo género, mas qualidade do seu trabalho".

Manifestando empenho em "ajudar as pessoas vítimas de assédio ou agressão física ou moral", o festival anunciou também o seu patrocínio de uma linha telefónica de apoio às vítimas, em associação com o governo francês (Secretaria de Estado para a Igualdade). Motivada ou não por tal notícia, a presidente do júri foi confrontada com uma pergunta armadilhada sobre a contradição que existiria entre o facto de o festival ser uma montra de projetos sociais desse género, ao mesmo tempo que, na passadeira vermelha, se continuarão a consagrar as "imagens" da moda... Blanchett, que dá o rosto para um perfume de marca Armani (os respetivos anúncios surgem em páginas de várias revistas editadas no âmbito do festival), achou por bem separar as águas, afirmando que resiste às "generalizações", preferindo concentrar-se em "ações específicas". Lembrando que é preciso de tudo para fazer o mundo do cinema, deixou uma subtil palavra de ordem: "Ser atraente não impede de ser inteligente."

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