Cannes impressionado com os "kids" de Andrea Arnold

Insolência juvenil pela câmara de Andrea Arnold. "American Honey", que leva o espectador a partilhar uma experiência de sentidos, é um dos acontecimentos do festival.

Gera ódios e amores, sempre em doses profundas. Desde que ontem passou em competição American Honey, da britânica Andrea Arnold, já se tornou no caso do festival. O filme que divide opiniões. Ou consagra ou desgraça a cineasta de Aquário (2009).

A ação passa-se na América de hoje e coloca-nos em viagem pela estrada fora com um grupo de jovens. O que se passará a seguir é um improvável cruzamento do espírito de Easy Rider (de Dennis Hopper) com a potência sensorial de Kids (de Larry Clark). Uma carrinha cheia de miúdos (chamam-se Magazine Crews) sob influência de drogas e álcool com o objetivo de vender revistas e faturar. Mas é certamente uma aventura iniciática, com sexo, violência e música (há um intencional efeito karaoke). Aliás, há muito que no cinema contemporâneo não se via um aproveitamento tão carnal de uma banda sonora esquizofrénica, capaz de misturar country, hip-hop e fazer-nos comover com Bruce Springsteen e Rihanna.

Road movie no qual aparentemente nada se passa (Arnold destrói as convenções do storytelling clássico) mas tudo se passa ao mesmo tempo, American Honey não quer ser retrato de uma juventude white trash americana, nem por sombras. Apenas tem a pretensão de nos dar uma boleia com a fúria e o naturalismo deles. O espectador fica literalmente dentro da carrinha a partilhar uma experiência de sentidos - não há filme tão sensorial como este, não há ninguém a filmar sexo desta maneira.

A viagem é incómoda, podemos mesmo falar em desafio ao espectador, mas há um lado gratificante e de superação humana na exploração desse realismo que Andrea Arnold já anda a pesquisar desde o belo Sinal de Alerta (2006).

Um realismo só possível graças ao trabalho de libertação íntima de atores como o infame Shia LaBeouf ou a estreante Sasha Lane. A sensação é de que estamos ao lado deles, estamos sob sua "influência". Podemos falar em efeito hipnótico, entre o estandarte da tragédia e as benesses de uma liberdade transgressiva (mas sempre orgânica).

Aquela "família" de "crianças" perdidas tem também um valor simbólico numa América de contrastes: os bairros sociais/os subúrbios endinheirados. Uma América onde encontramos famílias à beira da miséria mas também texanos aborrecidos na sua riqueza. A dada altura, a personagem de LaBeouf parece trazer um imaginário de caça ao tesouro. O que importa é vender, roubar, sobreviver. Mas também ser livre, estar aberto aos prazeres de poder mergulhar num lago na América mais recôndita, entre pirilampos, sapos e cágados. Geração rasca? Cada um de nós decide. Até agora ainda não havia comprador para o nosso país.

Novo calvário para Marion

Também em competição, mais uma descida aos infernos da atriz Marion Cotillard com Mal de Pierres (já adquirido pela Outsider entre nós), realização da também atriz veterana Nicole Garcia. Neste drama romanesco, Cotillard interpreta uma mulher de origens rurais que fica à beira da insanidade por perseguir com obsessão um ideal romântico depois de um frustrante casamento imposto pela sua família.

Baseado no livro de Milena Agus, o filme parece que nunca dá o salto da mera observação de um retrato feminino. Ficamos sempre à espera de uma abertura, de uma progressão que nunca surge. Garcia fica futilmente presa às promessas de uma insolência e rebeldia de uma mulher cuja fatalidade amorosa é sempre mais do lado literário do que do cinema. Ainda assim, mais um filme competente de um festival sem mau cinema.

No Un Certain Regard, registo para La Danseuse, da estreante Stéphanie di Giusto, a história da relação entre Isadora Duncan e a dançarina Loie Fuller. O filme foi recebido com uma apoteose estrondosa (cerca de dez minutos de ovação) e poderá ser um dos objetos mais populares do festival. Aliás, é uma obra que faz as vontadinhas todas ao espectador, a maior delas a revelação de duas atrizes com graça de câmara: a cantora Soko e a filha de Johnny Depp, a muito bela Lily-Rose Depp. A boa-nova é que já está confirmado para Portugal.

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