Cannes abre em espanhol com assinatura iraniana

Conflito com a Netflix não foi resolvido, mas isso não impede que o festival volte a oferecer uma seleção recheada de contrastes.

Dois símbolos dominam o arranque da 71.ª edição do Festival de Cannes (de hoje até dia 19). O primeiro é o seu belíssimo cartaz: a imagem do beijo de Jean-Paul Belmondo e Anna Karina no filme Pedro, o Louco (1965), de Jean-Luc Godard, ilustra a vitalidade das memórias cinéfilas. O segundo é o próprio filme escolhido para a abertura oficial: Todos lo Saben, de Asghar Farhadi - contrariando o que tem acontecido na maior parte das edições das últimas duas décadas, a primeira obra apresentada pelo certame integra já a competição.

Aliás, a escolha de Todos lo Saben para lançar o maior festival de cinema do mundo (este ano, para a respetiva cobertura mediática, esperam-se mais de 4 mil jornalistas) arrasta importantes simbolismos. Este é, de facto, um festival de todas as geografias. Numa recente entrevista dada à Variety, a atriz australiana Cate Blanchett, este ano presidente do júri, sublinhava, justamente, essa genuína vocação "multicultural". Pois bem, Todos lo Saben é o primeiro filme do iraniano Farhadi falado em língua espanhola, protagonizado por dois dos nomes mais internacionais do cinema de Espanha, Penélope Cruz e Javier Bardem - tudo isso através de uma produção que envolve entidades espanholas, francesas e italianas.

É também do Irão que vem um dos filmes aguardados com maior expectativa. Chama-se Three Faces, retrata as vidas cruzadas de três atrizes e tem assinatura de Jafar Panahi, o cineasta que as autoridades iranianas mantiveram em prisão domiciliária ao longo de seis anos, proibindo-o também de filmar, dar entrevistas e sair do país durante vinte anos. Panahi nunca deixou de trabalhar e até esteve representado em Cannes, em 2011, através de Isto não É Um Filme; em 2015, arrebatou o Urso de Ouro do Festival de Berlim com Taxi. Este ano, o presidente do festival, Pierre Lescure, e o seu delegado geral, Thierry Frémaux, pediram o apoio do Estado francês para, formalmente, solicitarem autorização para Panahi viajar até Cannes.

Godard & etc.

Não há cineastas "exclusivos" de Cannes, mas é um facto que, quase todos os anos, somos tentados a reconhecer que existe uma galeria de eleitos que mantêm uma relação de cumplicidade com o certame da Côte d"Azur. Assim, estão de volta o chinês Jia Zhangke (Ash Is Purest White), o japonês Hirokazu Ko-reeda (Shoplifters), o francês Christophe Honoré (Plaire, Aimer et Courir Vite) e o turco Nuri Bilge Ceylan (The Wild Pear Tree). Até mesmo o dinamarquês Lars von Trier, banido em 2011, vai regressar, extraconcurso, com The House that Jack Built. Isto sem esquecer, claro, a presença - provavelmente, com a habitual ausência física - do mago franco-suíço Jean-Luc Godard: para além da homenagem no cartaz oficial (o que já acontecera em 2016, através de uma imagem do seu filme de 1963, O Desprezo), Godard estará na competição com Le Livre d"Image.

Até que ponto a amplitude de Cannes poderá integrar as novas formas de produção, ligadas à televisão e, sobretudo, às plataformas de streaming? Uma coisa é certa: a polémica em torno dos filmes da Netflix que competiram em 2017 deixou sequelas. Face aos veementes protestos dos exibidores franceses, condenando a programação de filmes sem lançamento nas salas, a competição do festival passou a aceitar apenas filmes com estreia prevista no circuito comercial. Efeito prático: a Netflix decidiu não mostrar as produções em Cannes, nem mesmo nas secções paralelas (retirando, entre outros, The other Side of the Wind, o lendário filme "perdido" de Orson Welles).

Rever os clássicos

Ironicamente, nada disto impedirá que a televisão por cabo HBO esteja presente nas sessões da meia--noite com Fahrenheit 451, de Ramin Barhani - trata-se de uma nova adaptação do romance de Ray Bradbury, 52 anos depois da versão assinada por François Truffaut. Este ziguezague de memórias e atualidade define, afinal, todo um conceito de programação.

Daí o destaque muito especial que merece a passagem de 2001: Odisseia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, numa cópia restaurada em 70 mm, com apresentação de Christopher Nolan. Será um evento integrado nas comemorações dos 50 anos da obra-prima de Kubrick e, ao mesmo tempo, uma exuberante confirmação da importância que a secção de clássicos foi adquirindo na dinâmica do festival.

Mais do que evocar de modo mais ou menos nostálgico os mestres do passado, Cannes Classics passou a ser uma montra espetacular de alguns dos mais recentes e sofisticados restauros, a par de novos trabalhos documentais sobre a história do cinema. Entre os primeiros estarão Yasujiro Ozu (Viagem a Tóquio, 1953), Ingmar Bergman (O Sétimo Selo, 1957) e Jacques Rivette (A Religiosa, 1965); na zona de documentários, anunciam-se trabalhos sobre a pioneira Alice Guy-Blaché, Jane Fonda, Orson Welles e Ingmar Bergman. Ao todo, a secção de clássicos inclui mais de três dezenas de títulos. Dito de outro modo: com as várias centenas de filmes a passar em Cannes, teremos de contabilizar também o muito que não será possível ver.

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