"Camilo subia a rua Escura para ir cantar madrigais a uma vendedeira de manjericos do Bolhão"

Ele fala e é como se passeássemos pela cidade do Porto, que conhece minuciosa e apaixonadamente. Acaba de publicar um Guia dos Clérigos, incluindo as obras de renovação que estão prontas.

Sabe a historia de cada pedra, cada peripécia, cada personagem, e seria preciso muito mais do que este espaço para guardar um bocadinho. Da rua Escura onde Camilo passava para ir cantar madrigais a uma vendedeira de manjericos do Bolhão até ao primeiro filme publicitário feito em Portugal, uma conversa em que ele conta como um café n" O Piolho acabou por levá-lo para o jornalismo, e tudo porque queria ir à bola sem pagar. É um homem do Porto nascido em 1931 em Penafiel, cidade que acaba de homenageá-lo na Escritaria.

Confesso já o meu pecado: nunca subi aos Clérigos.

É uma pena que não tenhas subido já aos Clérigos.

Mas vou lá, prometo.

É uma falta grave. Quem vem ao Porto tem de subir aos Clérigos e ir junto à Sé, está lá um miradouro muito bonito sobre a cidade. Tem que desfrutar aquela vista sobre o rio, o casario, os telhados, ali perto da rua Escura onde o Camilo subia, como ele dizia, "a espinha do telhado", com uma viola chaleira para cantar madrigais a uma vendedeira de manjericos do Bulhão que ele andava a cortejar.

Não se pode dizer nada sobre o Porto à tua frente, tens sempre uma história para desfiar.

O Porto é um alfobre de histórias, histórias em cada esquina, em cada rua.?

Então vamos às malvas. O que é isso de mandar uma pessoa às malvas?

Estava previsto que a igreja, como acontece nas nossas igrejas aí pelas aldeias, teria duas torres, junto à fachada. Só que o terreno ali era exíguo, muito apertado, e o Nasoni valeu-se da sua capacidade inventiva e construiu atrás uma. Não construiu duas paralelas mas uma muito maior. Aquele terreno foi doado à Irmandade dos Clérigos Pobres, que era muito antiga. Havia clérigos que viviam do mínimo, celebravam missas para outros e eles pagavam-lhes, se calhar o ordenado mínimo. Esses clérigos quando adoeciam não tinham direito a assistência, e então fizeram uma confraria, para se ajudarem uns aos outros. Era a Confraria dos Clérigos Pobres com um hospital que andou por vários sítios, esteve na Igreja de Nossa Senhora da Graça que já não existe, era onde está agora o edifício da Reitoria. Depois estiveram na Igreja dos Congregados, foram para a Misericórdia e aí é que tomaram a iniciativa de construir uma sede. O terreno ficava da parte de fora da Muralha Fernandina, fora da cidade, num baldio onde se enterravam os indivíduos que eram enforcados - os ladrões, os assassinos, os salteadores - e os presos que morriam na cadeia. Os enterramentos faziam-se dentro das igrejas e entendia-se que um assassino não tinha direito a ir para o céu, a ir para o interior da igreja, que era um lugar sagrado. Então, era à beira dos caminhos, junto aos rios, que os enterravam. Precisamente ali naquele terreno, que se chamava o Campo das Malvas. Dizer "mandar para as malvas" não era nada agradável

O guia dá a conhecer não apenas a Torre dos Clérigos, mas sim o conjunto da igreja, do hospital e da Torre.

É um conjunto. O Nasoni construiu a igreja, depois o hospital e depois a Torre.

Será que teve consciência de que o edifício ia ser o ex-libris do Porto?

Não sei responder a essa pergunta concretamente, mas ele fez uma torre a pensar na sua Toscana - ele era de lá, veio de Itália. Devia ser a nostalgia que sentia da terra natal. Ele veio para o Porto como pintor, não como arquiteto, para pintar as paredes interiores da Catedral. Ainda hoje lá estão pintadas por ele e assinadas.

Foi trazido por um português que estava em Malta, onde ele estava também como pintor.

Sim, o cónego D. Jerónimo de Távora tinha um irmão que era o abade da Ordem de Malta e ele foi a visitá-lo e trouxe o Nasoni para cá

Em boa hora.

Nós não tínhamos bispo na diocese, havia ali um problema com a Santa Sé, e era administrada pelo conjunto dos cónegos, que tinham como deão D. Jerónimo de Távora. Depois aproveitou e mandou-o fazer um palácio para ele - o Palácio do Freixo era dos Távoras. É aí que ele aparece como arquiteto.

Estamos a falar do século XVIII. A construção da Torre acontece no período em que Lisboa é destruída pelo Terramoto, o Marquês de Pombal está em pleno no seu poder. É curioso como o poder era absoluto mas não chegava aqui com essa força toda.

E há uma curiosidade nessa administração do Pombal. Em 1757 dá-se a revolta dos taberneiros. O Marquês de Pombal, em 1756, tinha instituído a Real Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro e nas tabernas do Porto só se podia vender vinho da Companhia. E há uma revolta, que foi mais uma assuada do que uma revolta mas criou problemas e o Marquês mandou para cá um primo, João de Almada e Melo, para meter o Porto na ordem. Já tinha mexido na nobreza com os Távoras, já tinha mexido na Igreja com os jesuítas, faltava o povo... Quando ele chega, em 1758, ainda se sente aqui um pequeno tremor de terra e a mulher, D. Joaquina de Lencastre, ofereceu à Igreja da Misericórdia uma imagem de Santo Emídio que era o patrono contra os terramotos. A imagem ainda está lá.

A Torre tem 75,6 metros de altura e para chegar lá acima são 240 degraus. Já foste lá acima, claro?

Muitas vezes, a última foi com o Fernando Alves.

O panorama que se tem de lá é especial?

É deslumbrante, em qualquer altura do ano. Há épocas em que o rio está coberto com uma névoa. Há ocasiões em que a parte mais baixa da cidade está coberta de nuvens e vemos em cima o Palácio Episcopal e a Catedral a sobressair. Aliás, um elemento que se vê muito lá de cima são as torres das igrejas, grande parte delas construídas na altura em que se construiu os Clérigos.

Tudo no século XVIII?

Era a época do vinho, havia muito dinheiro na cidade. O abade de Santo Ildefonso - a igreja é contemporânea da outra, aliás o Nasoni ainda chegou a dar lá uma ajuda - tinha acabado de construir a igreja e começa a ver a outra obra. E ainda conseguiu convencer o pedreiro que andava a construir os Clérigos a parar a obra. E a Irmandade quis saber porquê - há dinheiro, está-se-lhe a pagar. Era a concorrência, isso não é novidade de hoje.

Há algum canto do Porto que não conheças?

Há imensos cantinhos onde ainda não fui. Gostava de percorrer um pequeno caminho entre as traseiras da rua dos Mercadores e a rua da Banharia. Era o caminho dos peregrinos, atravessavam o rio e passavam por aí. A rua dos Mercadores é antiga mas não tão antiga como isso. Quem estiver do Miradouro da Sé olhando para baixo ainda vê aquele conjunto. Hoje estamos a viver um período áureo do turismo, mas quando o D. Manuel I chegou ao Porto, por volta de 1502, a caminho de Santiago de Compostela, a cidade estava cheia de peregrinos também. Havia falta de hospedarias.

Tal e qual como agora?

Exatamente. Construiu-se muito porque havia os hospitais - antigamente o hospital não era como hoje o lugar para se curar uma doença, era uma espécie de hospedaria, uma estalagem onde os peregrinos ficavam, e havia normas. Os provedores, os responsáveis pelos hospitais, tinham obrigações, iam lá saber como estavam, e davam-lhes lume e sal, o resto era com eles. Os peregrinos tratavam de si. E como eram de muitas nacionalidades, vinham de vários sítios, até havia vários nomes. Os palmeiros eram os que vinham do Oriente, da Terra Santa, e traziam palmas, os romeiros eram os que andavam por Roma ou vinham de lá. A cidade estava como hoje, cheia de gentes estrangeiras que trocavam ideias, cantavam, tocavam instrumentos.

Gostas de andar no meio dos turistas?

Muito, e fico todo vaidoso quando vejo nas mãos deles guias que eu fiz, traduzidos.

Não tens vontade de dizer - fui eu que escrevi isso?

Não, não.

Deixa-me explicar: estamos a tratar-nos por tu porque somos jornalistas.

Exatamente. Foi a primeira coisa que me disseram quando entrei. Deram-me uma secretária, e quando me apontaram uma secretária apontaram-me um modo de vida, uma carreira. Veio o chefe de redação, que era muito mais velho do que eu, e disse: agora passas-me a tratar-me por tu, somos camaradas e nesta profissão tratamo-nos todos por tu, independentemente da idade. E é um tratamento de que eu gosto muito.

E não somos colegas, somos camaradas.

Exatamente.

Foste marçano numa retrosaria, trabalhaste numa fábrica de fósforos...

Trabalhei numa fábrica de fósforos e numa fábrica de panos, de lanifícios. Fiz essas coisas todas. Acabei a instrução primária com onze anos em plena II Guerra. Foi um período muito difícil e a minha família vivia muito modestamente numa ilha, onde vivi até à minha emancipação, até à minha carta de alforria.

Qual das ilhas do Porto?

A ilha do Cruzinho. Muita gente que sabe o que é uma ilha do Porto, um conjunto de habitações operárias, pensa que é um estendal de miséria. Não é. É uma comunidade muito unida, com o sentido da partilha, do convívio, da entreajuda, muito apurado. E eu aprendi imenso com essa gente, com a entrega que tinham uns aos outros. Nunca menosprezei essa minha origem. Tive que ir trabalhar. A minha mãe tinha-me comprado um fato num adeleiro da rua dos Mártires da Liberdade e aquilo estava bem para o retroseiro, mas começou a focar coçado e já não dava para continuar ali. Tinha de ter boa apresentação, era obrigatório gravata, camisa. Os colarinhos também estavam a ficar puídos. Tive que mudar para uma profissão que não exigisse essas coisas e fui trabalhar para a fábrica dos fósforos, onde me davam 60 escudos por quinzena. Depois encontrei um rapaz que me disse: "anda para a fábrica dos panos, estão a admitir gente e lá dão 70 escudos". Dez escudos era dinheiro, fui para a fábrica dos panos e entrei como trabalhador não diferenciado. Isto quer dizer que tinha de fazer tudo, era pau para toda a colher. Fui auxiliar do trolha e do eletricista e isso também me habilitou, ainda sei consertar fusíveis, sei montar uma instalação elétrica.

Como apareceu o jornalismo na tua vida?

Por volta dos 16 ou 17 anos, comecei a pensar na vida. Na altura um bom emprego era num banco ou numa companhia de seguros e para isso tinha de ter um curso. Matriculei-me num curso noturno, na Escola Comercial Oliveira Martins, na rua do Sol, para os lados da Batalha. Vinha de Lordelo do Ouro, atravessava a cidade toda, às vezes a correr, porque saía às seis e tinha aulas às sete. Andei lá a fazer o curso geral do comércio. A meio, fui fazer um curso preparatório na Escola de Artes e Ofícios Soares dos Reis, porque me disseram que dava acesso ao Instituto Comercial. Com o curso geral de comércio, um dia estava n" O Piolho, o café Âncora de Ouro, a tomar café, e encontrei um amigo da instrução primária que já não via há muitos anos. Foi uma festa, estivemos ali a conversar, e entretanto chegou o irmão dele, mais velho, que eu não conhecia. Contei-lhe que tinha acabado o curso e ele, que era chefe da secretaria do Hospital e Santo António, convidou-me para trabalhar lá. Aos domingos e dias santos, ia dar apoio administrativo no Banco de Urgência, onde conheci os jornalistas que iam buscar as notícias.

As informações dos acidentes e etc?

Sim. Eu já lia o Jornal de Notícias e comecei a dar notícias ao jovem do JN, um pouco mais novo do que eu. "Está ali um caso que dava uma história". Uma das mais importantes foi o caso do Zé Luís, um cego a quem um médico fez um enxerto das córneas e o rapaz ficou a ver. Foi um sucesso. Ele ganhou um prémio por causa daquilo e queria dividir contigo. "Não divides nada, tu é que fizeste..."

Isso é que era seriedade.

É verdade. Pedi-lhe: arranja-me um cartão para ir ao futebol. Ele foi saber e depois disse: "Um cartão não pode ser, porque é personalizado, tem fotografia, mas falei com o chefe da secção desportiva e tu podias ir para lá como colaborador".

Começaste a ser jornalista, em 1956, porque querias um cartão para ir ao futebol?

Exatamente.

E nunca mais saíste do jornalismo?

Sim, fui para a secção desportiva, o chefe era o Freitas Cruz, da minha idade. Passado um ano ou dois, o chefe de redação começou a pedir-me outras coisas. "Eras capaz de ir ao cinema fazer uma crítica de um filme? É uma coisa simples". Depois noutro dia: "Amanhã há uma conferência de imprensa, não te importas de ir lá? Depois metes como colaboração". Eu não sabia mas ele estava a experimentar-me, para saber se eu, além da bola, dava para mais alguma coisa. Um dia o Manuel Pacheco de Miranda, o diretor, que foi um grande diretor, um grande amigo dos jornalistas, um homem excecional, chamou-me ao gabinete e disse: "Precisamos de gente ali no Grande Porto, o Germano já está ambientado, já conhece, é a pessoa indicada para ali. Aliás, já foi experimentado, deve ter dado conta disso." E eu aceitei. Levou-me ao chefe de redação, aquilo exigia uma coisa formal: "Aqui está fulano, faça dele um jornalista".

E juntaram-se logo o jornalismo e o Porto.

A secção do Grande Porto. Nós chamávamos-lhe os chiens écrasés, uma coisa assim da rua, do cão atropelado. E depois há um dia em que eu era estagiário - o estágio eram dois anos, depois era repórter informador, repórter, redator - e houve um incêndio na rua de Santa Catarina, mesmo em frente ao Grande Hotel do Porto. Um senhor tinha estado a passar umas calças e deixou ficar o ferro ligado em cima da tábua e o tecido fazia muito fumo. O fumo saía pela janela porque havia uma corrente de ar que empurrava. Cheguei quase ao mesmo tempo dos bombeiros. Eles subiram uma escada, entraram e disseram: "não é nada". Fiz uma notícia vulgar sobre um pequeno incêndio, tirei partido do aparato da rua, do trânsito cortado, muita gente, a curiosidade. No dia seguinte, o [Primeiro de] Janeiro trazia uma história: naquela casa nasceu e viveu o Arnaldo Gama, um escritor histórico do Porto e eu não sabia.

Isso doeu?

O chefe de redação chamou-me: "Lê o Janeiro e depois vem falar comigo". Os chefes de redação eram grandes mestres. E disse-me: "O não saber não é mau, o não querer saber é que é pior. Tens de contar histórias, um jornalista é um contador de histórias. Para seres um bom repórter da cidade, tens de conhecer a cidade. Se amanhã houver na rua da Firmeza uma coisa que não dê pano para mangas mas se me disseres por que é que a rua se chama da Firmeza - e eu não sei - se me contares, já contas uma história."

Olha o que ele foi dizer. Nunca mais paraste.

A partir daí nunca mais parei. Havia um anuário na redação, que era a internet da altura, tinha um roteiro da cidade e no fim tinha umas quatro ou cinco páginas de "ruas que mudaram de nome". Fui espreitar e tinha assim: a rua Visconde de Bóbeda chamava-se rua do Mede Vinagre, a rua Dr. Alves da Veiga chamava-se rua das Malmerendas. Fui à procura, comecei a pesquisar. Malmerendas porque nos finais do séc. XIX era um lugar elevado, um planalto e as pessoas iam para lá fazer merendas, mas como era ventoso eram as malmerendas. E Mede Vinagre era porque havia um armazém que vendia vinhos e vinagres. Fui [estudar] o Artur de Magalhães Bastos o grande historiador do Porto, o Eugénio de Andrea da Cunha e Freitas, o Horácio Marçal, o António Cruz, o Alberto Pimentel...

E podemos dizer que hoje tu fazes parte do grupo dos especialistas?

Sou um continuador.

Como se chamam os especialistas em Porto?

Não sei, os de Lisboa são os olissipógrafos, mas aqui não sei.

Foste homenageado em Penafiel, onde nasceste, deram-te um prémio de carreira. E criaram um prémio literário com o teu nome. Como é isso de ser patrono?

Considero isso honroso. Nasci em Penafiel e vim para o Porto com um ano. Tinha dois anos e a minha mãe levou-me outra vez para lá e entregou-me aos cuidados da mãe dela, até aos sete anos, até vir para a instrução primária. Nesse período aprendi imenso. Ainda hoje o que há em mim de solidário, de amor pela natureza, foi com a minha avó que aprendi. Ela era analfabeta, era a Júlia das Quintãs. Era Júlia de Jesus mas vivia no lugar das Quintãs e toda a gente a conhecia assim. Ainda hoje sei distinguir, ouvindo o canto de um pássaro, se é uma poupa, uma pêga, um gaio ou um melro, porque ela me ensinou. Mas também me ensinou a respeitar a natureza. Tudo o que fazia fazia-o com uns rituais a que dava um cariz religioso, tudo estava ligado. Não é nada de novo, vem desde o paganismo, quando não havia o judaísmo nem o cristianismo, era os elementos da natureza que os camponeses adoravam porque lhes davam os frutos e os amadureciam. Ainda hoje o nosso São João do Porto tem de ver com o solstício de verão, com os balões que são o culto ao sol, as fogueiras...

Sabes tudo sobre o Porto, sabes tudo sobre a natureza.

Foram os meus educadores. Vim para o Porto, aos sete anos, e nunca mais saí. Mas tenho com Penafiel uma ligação umbilical. Doei grande parte da minha à Biblioteca Municipal de Penafiel, outras coisas que têm a ver com o Porto foram para o Arquivo Municipal do Porto. Este prémio é muito honroso porque se destina a jovens candidatos a romancistas.

E houve também o prémio de carreira.

Já tinha recebido o prémio de carreira do Clube dos Jornalistas [Prémio Gazeta 2012], era institucional ser entregue pelo Presidente da República e naquele ano ele [Cavaco Silva] não foi lá. Dos prémios que já recebi o que mais me sensibiliza é o que recebi no Jornal de Notícias. Houve um crime na rua do Sol e andei quase um mês a tratar do crime. No fim, recebi o Prémio Manuel Pacheco de Miranda, era bom naquela altura, anos 1960, eram mil escudos. Disseram que o prémio me foi atribuído porque com aquela reportagem tinha contribuído para o desenvolvimento da tiragem e da divulgação do jornal.

Podes contar a história da publicidade e dos Puertollanos?

É uma história muito curiosa. O Raul de Caldevilla [1877-1951] era um homem extraordinário que fazia publicidade e tinha uma imaginação e um espírito inventivo muito avançados para a época. Tinha, por exemplo, um friso publicitário [Folhetim Publicitário] n" O Primeiro de Janeiro, toda a gente lia aquilo, era uma banda desenhada. "O barão de Jácasteve foi tomar chá a casa da baronesa de Jácastá com bolachas Triunfo e sanduíches com fiambre Izidoro". Era uma maneira aliciante de fazer publicidade. Um senhor com uma fábrica de bolachas aqui no Porto viu em Paris a petit beurre e achou que devia introduzir cá essa bolacha. Fez um stock grande mas aquilo não saía, ele ficou ali um bocado...

Encalhado?

... e como aquilo tem manteiga, se começasse a rançar perdia-se. Foi ter como Raul de Caldevilla que lhe respondeu - "deixe-me imaginar". Viu na Cordoaria uns saltimbancos, pai e filho, os Puertollanos, a fazer umas piruetas. "São capazes de subir a Torre por fora?" Levou-os ao escritório dele, na rua 31 de Janeiro, mandou fazer uns fatos num alfaiate, deu-lhes mil escudos. Eles eram do Porriño [Galiza) e ele mandou-os para casa esperar por um telegrama dele. Entretanto, foi publicando nos jornais anúncios dizendo "o que vai acontecer no tal dia?", deixando a expectativa. Naquela altura, os jornais tinham uma grande divulgação, todas as pessoas liam. Andava tudo de cabeça no ar, o que vai acontecer? E então os Puertollanos subiram à Torre e tomaram um chá com as bolachas. Foi um sucesso de vendas das bolachas.

Esgotaram?

Pois foi, e tudo graças ao Raul de Caldevilla. Aquilo foi filmado e foi o primeiro filme publicitário que se fez em Portugal. Para se aproximar, na filmagem, construiu uma réplica do cimo da Torre, a bola, no quintal da casa dele e os Puertollanos foram lá filmar.

E esse filme passa constantemente...

... na Torre dos Clérigos, numa sala. Aproveito para dizer que as pessoas diminuídas fisicamente que não podem subir à Torre podem ir até ao terceiro andar de elevador e aí há um sistema técnico que lhes permite ver como se estivessem no último piso. Foi o padre Américo Aguiar, um homem extraordinário, que conseguiu renovar e dar à Torre dos Clérigos esta imagem que tem agora.

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