Brie Larson: a ex-menina da Disney que passou um mês fechada em casa

A sua mãe coragem de "Quarto" é a sensação do ano. De onde saiu este fulminante talento?

É difícil perceber se em Hollywood uma atriz aparece de repente. O que se sabe é que não há contos de fadas para se ser movie star. Brie Larson deve estar a viver dias de sonho mas é importante perceber-se que a atriz que provavelmente vai vencer o Óscar no próximo dia 28 não apareceu por capricho de um grande estúdio.

A jovem atriz de 26 anos tem atrás de si algumas provas substanciais do seu talento (imenso...), a começar pelo facto de em 2014 ter estado muito perto de uma nomeação ao Óscar em Temporário 12 (2013), de Destin Daniel Cretton, onde interpretava uma assistente social que geria uma residência de adolescentes problemáticos. Uma interpretação de uma densidade total num filme que infelizmente passou despercebido nos nossos cinemas.

O seu passado como atriz começou na infância, ou seja, foi uma profissional child atress, cresceu entre castings e estúdios. Chegou a ser mesmo uma Disney Kid, protagonista de um tv movie chamado Right on Track, ainda em 2003, e foi rosto recorrente em séries infanto-juvenis. Tudo isto para realçar uma capacidade de trabalho e um empenho profissional totais. Dir-se-ia que se trata de vocação.

Mas, afinal, o que se passa com a sua interpretação em Quarto, o espantoso filme de Lenny Abrahamson? A resposta é simples: passa-se um milagre, uma transbordante explosão emocional com diversas cambiantes de registos e multitude de subtilezas.Acreditamos piamente na dor desta Ma/Joanne, uma mãe que tenta salvar um filho de uma situação hedionda: ambos estão retidos num quarto há sete anos - Jack, o filho, nasceu já neste quarto, uma cabana de jardim. Ela foi raptada e mantida presa por um psicopata que a deixou sempre em cativeiro e com um permanente abuso sexual.

A interpretação roça a perfeição porque a raiva de Larson passa para o espectador. Saímos da sala tão tocados como magoados. Esse é o mérito deste filme. Sem o engenho narrativo da câmara do irlandês Abrahamson não haveria o realce nas capacidades interpretativas de Larson.

Para dar credibilidade a esta pessoa fechada do mundo, Brie terá passado um mês inteiro sem sair de casa, isolada do contacto humano. Uma atriz do Método e que visualmente se transforma por completo. Talvez seja impossível acreditar que a Brie Larson das passadeiras vermelhas é a mesma Brie Larson deste filme.

Muitos são os que perguntam onde terá ido buscar essa força de maternidade, ela que não é mãe. A pergunta seguramente não tem resposta, mas é lícito acreditar que tudo passa por uma questão de entranhas. Aquele instinto de raiva e determinação que já lá estava em Temporário 12 . Aliás, se virmos bem, mesmo nos pequenos papéis secundários antes destes dois filmes já sentíamos uma grande atriz em potência. Uma atriz sem poses, sem tiques. Ainda em 2015 foi preciosa como irmã de Amy Schumer no adorável Descarrilada , de Judd Apatow, uma das comédias mais inteligentes dos últimos anos. Havia ali qualquer coisa próxima de uma intimidade naturalista notável. Antes, em Agentes Secundários (2012), de Christopher Miller e Phil Lord, também fazia desviar os olhos de Jonah Hill. Entrava pouco mas bem.

Entre dois registos de cinema

Rupert Wyatt também foi buscá-la há dois anos para um papel secundário em The Gambler , um veículo dramático para Mark Whalberg. O filme não chegou a Portugal mas foi bom para a colocar na primeira divisão de Hollywood e aí é curioso perceber o seu jogo toca e foge entre o cinema independente e a liga das majors .

Filmes como Aqui e Agora (outro que nunca chegou às salas portuguesas), de James Ponsoldt, e o muito curioso Don Jon , de Joseph Gordon Levitt, também vieram dar-lhe alguma visibilidade, sobretudo no mercado dos agentes. Estávamos em 2013 e já se adivinhavam voos maiores para esta atriz que também canta e já editou. O mundo está melhor desde que colocou a carreira musical para trás. Os seu som era de uma banalidade confrangedora. Uma pop juvenil com as regras das cantoras Disney, bem ao nível do que Hanna Montana/Miley Cirus fez. Agora, deve ter vergonha das canções que lançou no final da década passada.

King Kong já a seguir

As más-línguas atacam-na sobretudo na questão dos desfiles na passadeira vermelha. De todas as atrizes nomeadas ao Óscar é aquela que parece reunir menos apoiantes quanto ao bom gosto de moda. Diz-se que o problema é a maneira algo desengonçada com que desfila. A atriz tem apostado em looks mais masculinos, roupas com transparência e vestidos com estampados exagerados.

O aparato que a sua meteórica ascensão está a causar vai refletir-se especialmente para o ano. Tem já filmado um blockbuster onde é protagonista: a nova sequela de King Kong - chama-se Kong - Skull Island , de Jordan Vogt-Roberts, e contracena com Samuel L. Jackson. Larson já veio publicamente dizer que leva muito a sério este filme e que se sentirá tão orgulhosa como agora, em Quarto . Antes ainda vamos vê-la em Free Fire , de Ben Wheatley, com Armie Hammer. Curioso percebermos como poderá funcionar no registo subversivo do cineasta de Uma Lista a Abater (2011).

Larson levou para casa o Globo de Ouro, uma série de prémios de melhor atriz pelas associações de críticos, o BAFTA e o Independent Spirit Awards. E o Óscar. Está fadada para a glória.

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