O Boom que aí vem. Da arte à natureza, das conferências às tertúlias

Organização reforçou segurança e conselhos por causa do calor. O uso de fogões a gás foi proibido no espaço das tendas

"Isto tudo é tão bonito. O que me está a surpreender mais é a fraternidade entre as pessoas, a entreajuda que se vê." Esta é uma das primeiras das impressões de Kay Sugisaki, japonesa, no Festival Boom - que começou ontem em Idanha-a-Nova, distrito de Castelo Branco. A edição deste ano tem o Japão como país convidado, com 500 nipónicos, que integram os 33 333 festivaleiros de 154 nacionalidades diferentes. A organização reduziu o número de entradas em relação à última edição para reforçar o conforto no recinto.

Kay Sugisaki viajou de Hong Kong para Madrid com a filha de 8 anos e com uma amiga brasileira residente em Macau. "Alugámos um carro e viemos para Idanha-a-Nova na véspera da abertura do festival", explica. É a primeira vez que vem à Europa mas esta não é uma viagem de férias. Kay Sugisaki trabalha na organização do Imagine Peace, evento anual de música, dança e educação em Hong Kong que celebra o Dia Internacional da Paz (21 de setembro). "Uns amigos falaram--me do Boom Festival. Venho para beber algumas ideias para eventos que organizo no Japão, porque este evento é de facto único", diz ao DN.

Às nove horas da manhã de ontem, abriram-se as portas do recinto do Festival Boom. No exterior há muito que carros e autocaravanas formavam uma longa fila para entrar. Rapidamente as áreas dos parques de campismo foram-se enchendo de cor. A água da barragem de Idanha-a-Nova, onde numa das margens decorre o festival até dia 18, é a merecida recompensa para quem instalou ali a casa dos próximos dias. O lago é também o destino dos muitos boomer"s que chegam a pé até ao recinto. O primeiro dia é de instalação, porque as atividades nas diferentes estruturas e tendas do festival só arrancam ao final da tarde de hoje.

O jovem casal Sebastien Munier e Juliet Bourdex, de Paris, está de volta. Adeptos de festivais de dança e de música, encontram no Boom o que não existe em mais nenhum outro evento do género da Europa, dizem. "É a grande barragem, onde nos podemos refrescar a qualquer hora. Este festival tem um ambiente muito próprio de convívio alicerçado numa cultura independente."

Não são só os boomer"s que o dizem. O jornal britânico The Guardian recomenda-o como um dos 10 melhores festivais deste ano na Europa e a Rolling Stone considera-o um dos sete mais espetaculares festivais transformacionais, a par de eventos como Burning Man (Nevada, EUA), Beloved (Oregon, EUA) ou Secret Solstice (Islândia). O Boom Festival, que é independente de patrocínios, cruza diversas correntes artísticas - pintura, escultura, land art, instalações interativas, música, videoarte ou artes plásticas - complementadas por um vasto cartaz de conferências, workshops, tertúlias e apresentações ligados a temas alternativos.

Comer os restos dos outros

"Levanto-me às oito horas e vou correr. Depois do banho na barragem, vou dançar ou ouvir música." Para almoçar, Juliet Bourdex tem uma opção muito própria. "Vou dar um passeio pela área da restauração e se vejo um prato com comida, aproveito-a. Se há pessoas na mesa, pergunto se já terminaram. Não é por não ter dinheiro ou assim, é para evitar desperdícios e assim também economizo algum."

A questão económica pesa na carteira de cada um conforme as suas capacidades. Estar no Boom representou a compra de um bilhete por 130 a 180 euros (para todos os dias do evento). Catarina Nunes e Carlos Domingos vieram de Sintra para trabalhar como caixas na restauração, onde ganham sete euros à hora em turnos de oito horas por dia, das 19.00 à 00.00. "É uma experiência no âmbito da consciência natura. Dá para desligar dos assuntos do quotidiano e conhecemos pessoas e culturas de todo o mundo", referem.

Uma nova zona dedicada a Organizações não Governamentais recebia ontem os primeiros curiosos. A Living Seeds - Sementes Vivas produz e comercializa sementes biológicas de hortícolas, frutos, flores e ervas aromáticas e medicinais. "Todas as sementes são produzidas de acordo com os princípios e requisitos da agricultura biológica e biodinâmica, com o foco na promoção da biodiversidade", diz Bettina Gerike, responsável pelo projeto que tem atividade produtiva em Portugal.

Na mesma linha de expositores construídos em cartão reciclável encontramos a Noocity, que cria soluções para o cultivo de hortas em casa através de uma tecnologia que cria um depósito de água por baixo da zona de cultivo. "O depósito é abastecido e, através de uma rede de pequeninos vasos, a água sobe até às raízes e hidrata as plantas. Poupa até 80% de água pelo facto de estar por baixo de quase 30 centímetros de solo", demonstra Pedro Monteiro, um dos sócios da marca portuguesa.

No primeiro dia do Boom regista-se 38 graus de temperatura de manhã. Nos próximos dias as temperaturas manter-se-ão assim elevadas. "Distribuímos a cada pessoa um guia com as recomendações a ter com o calor." Na mesma brochura, continua Maria do Carmo Stilwell, da organização do Boom Festival, a cargo da Good Mood, "estão indicados outros cuidados a ter e proibições que existem como o de ser interdito usar campingaz junto às tendas. Estão construídas cantinas nos parques de campismo, com tudo o que é preciso para fazer refeições. O Boom acontece nesta herdade desde 2010, temos consciência do risco enorme que existe de fogo nesta zona do país. As medidas de segurança que estão implementadas este ano foram reforçadas, tal como foram implementadas nas edições anteriores", completa.

Além disso foram distribuídos extintores e bombas de incêndio "em todo o perímetro do festival, assim como a presença de bombeiros de forma permanente", realça. Até dia 18, há Boom em Idanha.

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