As caravanas de Chico continuam a passar

Em menos de meia hora, o veterano faz muito mais do que uma prova de vida. Continua pleno, do íntimo ao épico, sempre atento e iluminado. Mais uma obra que se vai prolongar no tempo.

Aprende-se nos rudimentos da ciência económica, a ideia do "bem escasso". Se pensarmos nas necessidades dos melómanos e nos contributos de Francisco Buarque de Hollanda, carioca acidentalmente nascido em São Paulo há mais de 73 anos, será fácil perceber como o conceito se aplica aos discos deste autor iluminado, atento e sensível.

Primeira constatação: Chico não "mandava notícias" há meia dúzia de anos e, neste século, fica-se apenas por quatro registos (e já se inclui neste lote o álbum Cambaio, gravado em parceria com Edu Lobo, banda sonora da peça de teatro homónima); segundo facto: as nove canções de Caravanas, o novo farol aceso pelo "velho Francisco", demoram pouco mais de 28 minutos no seu percurso de pura sedução, deixando sedes e apetites por um prolongamento que, adivinha-se, se fará aguardar por mais um período de contínua expectativa e intenso desejo.

Mais de metade das cantigas, sete inéditas e mais duas que Chico chama a si de forma definitiva, não chega aos três minutos de duração. E o que fazer, diante disto? Protestar? Nada disso: aproveitemos a riqueza que Chico distribui, sigamos a sua cadência envolvente e cada vez mais indiferente às regras da moda, aos tiques do momento, às manias de ocasião.

A lei de Buarque mantém-se inalterada: cada canção que faz - e, porventura, ainda mais neste disco - pode imediatamente ser arrumada como um clássico instantâneo. E consegue-o dispensando contorcionismos e negando "arrependimentos". Chegámos, de resto, a uma fase simpática, que só demonstra amadurecimento e tolerância relativamente a estádios anteriores, em que parecia imperativo escolher entre Chico e Caetano Veloso. Este será (sempre?) o homem da surpresa, da aventura, do risco, da permanente reciclagem.

Mas nem só dessas inquietações vive quem ouve - precisa de um porto de abrigo, de alguém que saiba renovar-se sem precisar de mudar de fato, de casa, de lógica - e esse é Chico. Agradeçamos, portanto, e aproveitemos a coexistência inspirada e contemporânea destes dois polos maiores da criação na infinita música popular brasileira.

No caso concreto, perante o desfile irresistível de Caravanas, o fascínio também nasce da simplicidade (facilidade é outra coisa...) com que Chico passa do íntimo ao épico, com que ele continua a traçar retratos perfeitos em três, quatro ou cinco estrofes, a apresentar-nos novas personagens, a levar-nos a olhar de novo para o que julgávamos já ter visto, a injetar-nos - suave ou firmemente - com imagens que nos comovem, ou alertam, ou convocam. Com uma particularidade adicional: nenhuma destas canções destoa no provocar uma outra atualidade, nenhuma delas se sentiria deslocada em discos como Meus Caros Amigos (e é de 1976), Chico Buarque (que vem de 1984) ou Paratodos (publicado em 1993).

Por outras palavras: a essência não muda, os formatos não se atropelam, a força nasce mesmo da continuidade que só os preconceituosos ou deficientes auditivos confundirão com monotonia. Nada disso: as canções de Chico não são cópias passadas a limpo, são composições livres, que se transformam e enfeitiçam, dentro do mesmo modelo. Por um momento, voltemos ao mano a mano: Caetano Veloso, exilado em pleno regime da ditadura brasileira, escolheu viver numa Londres psicadélica e turbulenta; Chico, sujeito a uma situação semelhante, optou por se fixar em Itália. Descubra a diferença...

Os netos e a polémica

Para Caravanas, Chico voltou a rodear-se de alguns parceiros habituais, como Luiz Cláudio Ramos (diretor musical e guitarrista), Cristóvão Bastos (pianista) ou Jorge Hélder (baixista e guitarrista) - os dois últimos são, inclusivamente, chamados a uma coautoria cada um. Outro parceiro é Edu Lobo, numa canção (A Moça do Sonho) que vem de 2001. Por fim, está presente Chico Brown, neto de Chico Buarque e filho de Carlinhos Brown (e de Helena Buarque), compositor e guitarrista de Massarandupió.

Além disso, a voz chamada a Dueto (originalmente cantada por Chico e Nara Leão num disco de 1980) é de outra neta, Clara Buarque, que contribui para um dos momentos sublimes do disco - e são vários... Na lista de convidados, figura ainda Rafael Mike, músico integrante do grupo de funk carioca Dream Team do Passinho, que se encarrega de "providenciar" a beat box que ajuda no tema que redunda no título geral.

Quando se aborda a obra de Francisco, as preferências dividem-se muito, mas não se antagonizam. Há, ainda assim, pedaços inolvidáveis que merecem referência. Caso de Blues para Bia, em que a incursão musical e rítmica é igualada por uma declaração de amor de alguém, que conclui isto: "Vai ver que nem imagina / Que estou a me insinuar / Talvez ela dê risada / Talvez fique encabulada / Talvez queira me avisar / Que no coração de Bia / Meninos não têm lugar / Porém nada me amofina / Até posso virar menina / Pra ela me namorar". Só mesmo Chico Buarque...

Massarandupió (com melodia de Chico Brown) e Casualmente (cantada em castelhano) são dois postais ilustrados, românticos e capazes de dispensar os estereótipos - o segundo é, também, uma declaração de amor a Havana, capital cubana. Desaforos vale o mergulho num género muito querido ao autor, o bolero, outro momento de desencontro amoroso. Dueto, devidamente atualizado com o elencar de redes sociais e plataformas de contactos e motores de busca para uma atualização em cheio. As Caravanas é mais um magnífico exercício de síntese, um fresco, um épico compasso social.

Mais acima ainda, ficam Jogo de Bola, um olhar poético e fascinante que deveria ser ministrado como choque vitamínico a todos os que emporcalham - e assim apoucam - o futebol, esquecendo (?) aquilo que é nuclear, a beleza e a dinâmica da coisa. E, claro, a genial Tua Cantiga, que abre o disco e foi objeto de polémica por causa dos versos "Quando teu coração suplicar / Ou quando teu capricho exigir / Largo mulher e filhos / E de joelhos / Vou te seguir". Na histeria primária dos nossos dias, Chico Buarque foi rapidamente acusado de machismo. Olha quem... Ainda se defendeu, explicando que machista (e hipócrita, já agora) é o homem que sustém uma vida dupla, com família e com amante, não aquele que cede à paixão. Mas nem era preciso: Chico escreveu, ao longo dos anos, Mulheres de Atenas, Geni e o Zepelim, Atrás da Porta, Bárbara, Olhos nos Olhos, Teresinha ou O Meu Amor, sendo assinalada pelos estudiosos do seu percurso a forte componente feminina que se sente em muitas criações. Machista? Já pouco espanta nos dias em que correm, de insulto gratuito e fúria mentecapta. Espera-se, de seguida, ver Gilberto Gil classificado como racista e Daniela Mercury como homofóbica. Felizmente, os cães ladram e Caravanas passa. E que pena passar tão poucas vezes...

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