Um artista sempre à procura da perfeição

O elogio é unânime: a morte de Nadir Afonso ontem, aos 93 anos, deixa um vazio nas artes portuguesas. Arquiteto acidental e mestre da pintura, era também um pensador em busca da harmonia total e de compreender as leis da natureza. Queria sempre aperfeiçoar a sua obra.

Nunca parava de tentar melhorar as suas obras até serem matematicamente perfeitas. Era esse o traço do seu percurso artístico notado por todos os que se cruzaram com ele. "Quando encontro erros, retoco-os. Até as leis (da matemática) estarem expressas de maneira exata", frisava o artista plástico, que odiava os estetas e adorava a geometria. Todos os quadros da sala da sua casa-ateliê, no centro de Cascais, tinham sido alterados, como mostrou ao DN no dia em que foi convidado para reinterpretar o mito de Rapto de Europa para a capa do jornal do 147.º aniversário. Chegou a pedir para fazer o mesmo a colecionadores privados e até nos museus. "Às vezes era preciso proteger a obra do artista", conta Adelaide Ginja, historiadora do Museu Nacional de Arte Antiga e curadora da última exposição retrospetiva do pintor, em 2010. Tem mesmo um livro em que reinterpreta e modifica as maiores pinturas mundiais para que fiquem perfeitas, acrescentando-lhe traços ou pormenores. "A exatidão das formas é o grande espetáculo da minha vida", dizia Nadir Afonso.

O mestre morreu ontem, sete dias depois de ter completado 93 anos. Ainda os comemorou com a mulher, Laura, e os dois filhos, Augusto e Artur, e um bolo de chocolate, o seu favorito. Chocolate era, aliás, a sua perdição. Pouco comia, estava mais magro que nunca, mas ao doce nunca dizia que não.

Os seus ossos estavam frágeis há muito e por isso passava parte do tempo no estúdio, no segundo andar da casa, entre pinturas e escritos, sem descer as escadas. Nem quase já ia ao ateliê, ao fundo do pequeno jardim. Após o aniversário, piorou. Foi internado no domingo no Hospital de Cascais. A notícia da sua morte chegou ontem ao fim da manhã. "A partir de hoje mais uma estrela brilha no firmamento, a sua obra será eterna", escreveu Laura na mensagem enviada aos amigos, dando conta do desaparecimento do pintor, que começou como arquiteto diplomado sem vontade na Escola de Belas-Artes no Porto. "Ia inscrever-me quando um contínuo disse que se tinha o 7.º ano do liceu devia ir para Arquitetura e não para Pintura [em que se podia entrar só com o 5.º ano]", contou a Agostinho Santos numa longa entrevista publicada em livro (editora Âncora, 2012). "Deixou-se intimidar e fez o curso, o que até lhe causou alguns problemas com os professores", conta o autor, jornalista do Jornal de Notícias, ao DN. Um deles: desenhar com o estirador levantado como se fosse um cavalete.

"Sou pintor desde a escola primária", contou, numa entrevista. "O meu pai dava-me os meios...", disse noutra, lembrando os lápis e aguarelas com que fez os primeiros desenhos, muito longe do abstracionismo geométrico que mais tarde caracterizaria a sua obra. Acabaria por rejeitar a influência da arquitetura. "Na realidade, o que teve progressiva influência na minha pintura não foi a arquitetura mas sim as leis que regem os espaços geométricos", chegou a afirmar.

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