Arcade Fire com bolas de sabão

Os muito aguardados canadianos fizeram a festa na última noite no festival no Passeio Marítimo de Algés. E ainda houve noite para M83.

Poderá ter sido uma coincidência, mas quando os Band of Horses se despediram ao som de Funeral, à memória da imensa multidão que ontem parecia muito maior no Passeio Marítimo de Algés veio o nome do primeiro álbum dos Arcade Fire. Afinal era por eles que todos esperavam e não poderia portanto haver melhor música para começar do que Ready To Start... Sim, preparados, respondeu o público (com exclamação), como acontece sempre que a música chega não só à alma mas também ao corpo. Seguiu-se The Suburbs, Sprawl e Reflektor...

Há bandas assim, maiores do que a vida ou como todos cantaram todos, entre bolas de sabão no céu, abraços e brindes a entornar cerveja: Afterlife!

No horizonte, sobre o Tejo, uma estrela (ou será um planeta?) aparece alinhada com a lua, a desaparecer no rio. Os astros estão a favor da grande noite que se anuncia... Antes, porém, Win Butler dedilha na guitarra um "God save the queen", seguido de um "no future for me", numa memória punk trazida para a atualidade global ainda à boleia do brexit.

Mas que se lixe, este domingo é dia de final do europeu, como o mestre-de-cerimónias dos Arcade Fire a todos lembra, ao aparecer em seguida de cachecol de Portugal ao pescoço, antes de se atirar, embalado pela secção de metais, a uma soberba interpretação de My Body Is a Cage. O crescendo continua com We Used to Waiti e No Cars Go, anunciada como "uma música já não tocada há muito tempo".

"Esperei tanto tempo por este concerto", diz alguém, com um fervor quase religioso, no meio da multidão, mal se reconhece o começo de Neighbourhood 1. "Uh, uh, uh, uh, uh", canta-se, num coro a uma só voz que continua com Rebellion (Lies) - "Every time you close your eyes, Every time you close your eyes, lies, lies, lies" - e Wake Up, porventura a música que melhor define o que se passou nesta última noite do NOS Alive.

Já não há letra, só uma sucessão de onomatopeias que todos sabem de cor, cantadas aos saltos e de olhos fechados, por todos em todo o lado. Sim, depois disto ainda havia mais concertos para ver, mas à história da décima edição do festival já pouco mais havia a acrescentar. A não ser que a lua e a estrela (ou o planeta) já entretanto também tinham desaparecido no horizonte.

... e a festa com os M83

É por isto que devia ser proibido ouvir mais música, qualquer música, depois de um concerto como o dos Radiohead, na noite de sexta, e dos Arcade Fire, neste sábado. É também por isso sempre ingrato para quem vem a seguir para fechar a porta. Nesta última noite, no palco principal deste Alive, aos canadianos sucedeu-se M83, o projeto do francês Anthony Gonzalez agora radicado em Los Angeles.

E Lisboa rendeu-se a uma verdadeira festa dos sentidos (houve beijos, corpos eriçados, pele, abraços e zangas), com os mais recentes álbuns Junk ou Hurry Up, We're Dreaming a municiarem o espetáculo perante uma multidão que não se deixou apressar pelos Four Tet e Grimes, que se ouviam no palco Heineken. E os corpos não se negaram à dança... Felizmente não se proibiu a música depois dos Arcade Fire.

[texto atualizado e reescrito depois de finalizados os concertos]

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