Ana Quintans canta o amor ao lado de Carlos Mena

Faz ópera por toda a Europa e amanhã apresenta-se em Lisboa acompanhada pelo contratenor espanhol

Na aproximação de São Valentim, a Gulbenkian faz amanhã um "concerto amoroso": solos e duetos de autores barrocos, nas vozes do soprano português Ana Quintans e do contratenor espanhol Carlos Mena. "Quando gravámos o [CD] Trionfo d"Amore, o Carlos teve a ideia de um recital só de voz e baixo contínuo em torno do amor", conta-nos Ana, hoje a mais destacada soprano portuguesa de música antiga.

"Cada um de nós foi sugerindo peças e formámos este programa, com núcleo em Händel e Scarlatti [pai], que são quem tem mais produção." No que vai cantar, Ana destaca "uma pequena cantata que Händel escreveu em espanhol, com acompanhamento de guitarra; uma raridade, até porque nela Händel usa de propósito uma notação antiquada". Mas também refere a cantata Euridice dall"Inferno [Scarlatti pai]: "É a perspetiva de Eurídice do mito de Orfeu", cuja pertinência vem do facto de "Eurídice ser sempre uma personagem menosprezada e injustiçada nas óperas que tratam esta história e aqui ela é "justificada": é como se fossem os monó- logos que faltam nas óperas".

Descreve o seu parceiro de recital como "um músico incrível, muito sensível, sempre à escuta e que tem muitas afinidades comigo". Conheceu-o "numa Festa da Música, no Centro Cultural de Belém, quando ele se revelou cá", mas a primeira colaboração "só aconteceu há três ou quatro anos, com o maestro Minkowski, e a coisa correu logo bem aí". Tanto assim que, conta, "falei dele ao Marcos Magalhães para a gravação do Trionfo d"Amore e resultou muito bem". Depois deste concerto na Gulbenkian, não demorará novo encontro: "Em março, vamos cantar juntos em Madrid com o ensemble El Ayre Español."

Com uma carreira centrada no estrangeiro, as próximas oportunidades para ouvirmos Ana por cá serão "em março [dia 12], quando farei um recital com o maestro João Paulo Santos no Salão Nobre do São Carlos" e, depois do verão: "serei solista na oratória "La Giuditta" [Almeida], com os Músicos do Tejo, no CCB".

Até lá, fará duas produções operáticas: "Em abril e maio, vou fazer a Ilia do Idomeneo de Mozart na Ópera da Flandres - será praticamente a minha estreia em Mozart -, em junho e julho faço dois papéis nas Indes Galantes de Rameau - outra estreia para mim -, no Festival de Verão de Munique e no final do ano uma versão encenada da Jephta de Händel em Amesterdão." No Festival de Glyndebourne 2017 cantará a Ipermestra de Cavalli, com William Christie. A frequência de estreias é, para Ana, "uma das razões por que nunca me aborreço neste repertório: estou sempre a fazer papéis novos!" Daí que, diz, "não é meu objetivo dar o salto para o século XIX, até porque não me identifico com essa estética". Exceção será Mozart: "Esse sim, gostaria de fazer mais!" E fará: "Depois de Ilia, há já uma Despina [Così] na agenda" e desejos futuros incluem "regressar à Pamina [Flauta Mágica] e fazer a Zerlina [Don Giovanni]."

Mas nenhum desses caminhos passará, infelizmente, por Lisboa: "há poucas possibilidades, porque o São Carlos não programa o tipo de repertório que eu canto: não fazem barroco e mesmo Mozart fazem pouco...", lacuna em que inclui "repertório português do século XVIII" e acrescenta: "Mesmo que não fosse pela orquestra do teatro, mas por orquestras especializadas que já há em Portugal." Em todo o caso, "gostava de cantar mais em Lisboa, mas não me tira o sono não ir ao São Carlos, porque faço ópera por toda a Europa".

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