Amélia e Michales saltam sobre o abismo de um mar imenso

Um canto sírio de 1400 a.C. que faz lembrar Acordai, de Fernando Lopes-Graça, versos de Hélia Correia cantados sobre a Terceira Sinfonia de Beethoven, música tradicional. O disco ARCHiPELAGOS - Passagens volta a juntar Amélia Muge e Michales Loukovikas, depois de Periplus. A diferença de 2012 é "colossal", agora que, segundo o grego, Tsipras traiu os gregos

E se o mais antigo registo musical que se conhece, descoberto em 1950 na Síria, o Hino Hurrita à deusa Nikkal (1400 a.C.), fizesse por vezes "lembrar imenso o Acordai", com versos de José Gomes Ferreira, que Fernando Lopes-Graça compôs anos antes da descoberta? Quem o notou foi Amélia Muge, que juntou as duas canções em ARCHiPELAGOS - Passagens, álbum que assina com o grego Michales Loukovikas, depois de Periplus (2012). À canção que daí resulta chamou Embalar Meninos, Acordar Adultos. E explica-o, sentada com Michales à sua frente.

Parecem agora dois marinheiros que fizeram deste arquipélago uma espécie de nau que navega num mar onde se encontra Eurípides, Hélia Correia, Fernando Pessoa, Violeta Parra, Beethoven, Hölderlin, música tradicional da Macaronésia (dos Açores às Canárias ou Cabo Verde, de onde vem Sodade) ou os Meninos Perdidos de Peter Pan (Meninos o tanas, / já somos crescidos).

Foi o poeta trágico grego Eurípides - cujo Orestes ouvimos Michales cantar em grego - quem levantou esta questão a Amélia Muge: "O que é que as pessoas na Síria cantavam ou cantam, para lá da guerra? Vi uma entrevista feita num campo de refugiados com sírios, e uma das coisas que eles diziam é que as mães cantavam canções de embalar para acalmar as crianças." E encontrou aquele Hino Hurrita.

Voltamos atrás na viagem. ARCHiPELAGOS - no livro (digital) que acompanha o disco explica-se que, na origem, a palavra significa grande mar, e referia o mar Egeu - surge de um convite de Aida Tavares, diretora artística do São Luiz, para um concerto onde se fosse além de Periplus. Juntaram-se as peças, algumas vindas da Grécia, outras de Portugal. A voz e a percussão de Amélia Muge e Michales, com a braguesa da primeira e o acordeão do segundo, o piano de Filipe Raposo, a viola, bouzouki, tzourás de Dimitris Mystakidis, as vozes femininas do grupo Maria Monda, com quem Amélia já trabalhara, o violino e a viola de Kyriakos Gouventas, ou a guitarra portuguesa de Ricardo Parreira.

Há um nome fundamental em tudo isto, o daquela a quem Amélia chama a sua "comadre de alma": Hélia Correia, que atravessa este disco com os poemas Indignação e A Terceira Miséria, e cuja voz ouvimos no disco. "Para mim A Terceira Miséria foi o ponto de viragem. Quando a Amélia me leu e explicou, ARCHiPELAGOS tomou forma através dele. A Hélia levou-nos a Hölderlin. Ela começa com uma citação dele: "Para que servem os poetas em tempos de indigência?"", lembra Michales, nascido na Trácia. E é do poeta alemão que nos vêm as palavras do primeiro tema, do poema O Arquipélago. Ouvimos a voz de Amélia e, depois, a da sua mãe, Maria José, com a gravidade dos seus 97 anos.

É preciso não ter medo de perder o pé neste álbum, porque se falávamos de Hölderlin, vindos de Hélia Correia, é a ela que voltamos, e à sua A Terceira Miséria (2012), poema lançado em plena austeridade na Europa. "Para mim a diferença entre Periplus e ARCHiPELAGOS é colossal. A poesia que temos agora é tão mais profunda. No tempo do Periplus ainda tínhamos esperança de que as coisas mudassem na Grécia. E as pessoas votaram por uma mudança. Finito com esta troika. E [o chefe de governo grego, Alexis] Tsipras traiu-nos. Quando li o poema da Hélia, dedicado à Grécia, quase chorei", lança Michales, na sua voz plácida. A mesma voz que começa a cantar baixinho, no café onde conversávamos: Sim, falamos de sombras. Vendo bem, / Incendiámos tudo: Alexandria / E os sábios, as mulheres. A música com que entoa as palavras de Hélia - que no álbum são cantadas por Amélia Muge e um coro - é a Marcha Fúnebre da Terceira Sinfonia de Beethoven. Quando as juntou pela primeira vez, Michales "não queria acreditar no que estava a acontecer". Depois houve uma pequena batalha travada entre ele e Amélia, que teve "de o convencer de que as coisas não estavam bem em termos da prosódia". Trabalharam. E lá está Falamos de Sombras no álbum onde também ouvimos Amélia Muge cantar Safo em grego antigo, experiência que a compositora descreve como "um salto sobre o abismo". O grego elogia-lhe a coragem. E ela: "Foi um empurrão: vai sobre o abismo. Se caíres, nós estamos aqui em baixo."

O álbum fecha-se (se é que se fecha) com vozes de crianças, "como se houvesse ali um ciclo", diz Amélia que escreve que encontrou "um modo mais grego de ser portuguesa". Michales lança: "Para mim foi sempre uma viagem interior, acompanhada de viagens. E se pensarmos um pouco, é assim para toda a gente. Depende de quanto uma pessoa está consciente disso. Ir para o estrangeiro, ver outro país, muda-nos. ARCHiPELAGOS é isto, partir e voltar a casa, mas mais sábio, mais maduro."

Hoje às 17.00 os dois apresentam o disco na FNAC do Chiado. Amanhã estarão na do Norteshopping. E a viagem continua por Faro e Oeiras.

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