Ai Jesus, o rock continua cool

Hoje, com Psychedelic Furs e Boomtown Rats, antes com Jesus and Mary Chain: o rock rima com Vilar de Mouros.

A edição de 2017 de Vilar de Mouros está pensada para terminar hoje em modo pista de dança com os 2manydjs encarregados de fazer a festa. Até lá, espaço aos mais novos com Zanibar Aliens e a austríaca AVEC, para depois se iniciar a segunda viagem no tempo de Vilar de Mouros, desta vez com Boomtown Rats, Psychedelic Furs e Morcheeba. O grupo de Bob Geldof comemora quatro décadas com a formação original em palco. E os Furs, que também nasceram no ano em que o punk explodiu (apesar de não serem dessa filiação), decerto vão celebrar em palco a sua história.

Na canção No One Shows, os portugueses Zanibar Aliens interrogam-se sobre a vinda do(s) interlocutor(es): "I don"t know if you"ll show up tonight." Como são os primeiros a atuar amanhã, ainda de dia, é uma incógnita se o quinteto terá muito ou pouco público à sua frente para dar a conhecer o seu rock inspirado nos anos 70 (fação Led Zeppelin e Deep Purple), o qual ficou registado no ano passado em Space Pigeon, o álbum de estreia.

De facto, o público compareceu em número muito baixo na primeira noite do festival - ou assim aparenta neste recinto de dimensões de superfestival; no palco original de Vilar de Mouros, com menos espaço à volta, não se sentiria dó ao ver-se grupos autores de hinos da juventude como The Jesus and Mary Chain ou Primal Scream a tocarem para tão poucos. Menos gente tinham os The Veils quando lhes coube o sempre difícil papel de fazer o concerto de abertura. Fizeram-no numa atuação tão profissional quanto insossa. O momento que resumiu o espírito do momento foi quando Finn Andrews antevia uma noite excecional à conta dos grupos cabeça-de-cartaz.

Antes tocaram os suíços Young Gods e os ingleses The Mission. Musicalmente têm pouco em comum, mas não deixou de ser curioso que quer Franz Treichler quer Wayne Hussey se tenham dirigido ao público num português além--Atlântico. Os Young Gods envolveram-se num projeto, no ano passado, com a Nação Zumbi. Já o vocalista dos The Mission explicou ter aprendido a falar um pouco com uma modelo de São Paulo. Como era de esperar, ambas as formações revisitaram o essencial da sua discografia. Só que do grupo que nasceu do rock industrial jorra uma proposta musical que podia ter nascido nos dias de hoje - uma feliz combinação da eletrónica com o rock que inspirou tantos grupos e artistas das mais diversas áreas. Em Portugal, os helvéticos foram banda de culto e visitaram-nos por diversas ocasiões, mas na primeira noite do festival ficou a sensação de que os The Mission estavam representados com mais fãs. Estes retribuíram com os seus hits dos anos 80 e 90, como Severina, Like a Child again, Wasteland ou Deliverance, tema com que se despediram. Como um cavalheiro, Hussey atirou rosas ao público e ergueu uma garrafa de vinho, em jeito de brinde com os espectadores. Ou, para os menos deslumbrados com a sua voz (aqui e ali a falhar) e com a prestação do baterista (bate-estacas é a associação mental que se processa de imediato), um educado pedido de desculpas.

Pelo chão do recinto pisava-se de quando em vez cubos de gelo - a única explicação plausível é que, com as baixas temperaturas, os espectadores rejeitavam o gelo das bebidas. Também Bobby Gillespie, habituado ao rigor do clima britânico, se referiu ao clima quando os Primal Scream entraram em palco: "Está frio, vamos aquecer." Mas não foi fácil. Ao som de Movin" on up, o guitarrista Andrew Innes agitava-se e nada saía. Ao fim do tema, saiu de palco. O vocalista explicou: o amplificador avariara. Voltaram ao palco pouco depois, com o amplificador dos Jesus and Mary Chain, e foi como se não tivessem ali estado antes, ao repetirem o tema inicial. "Isto é história, acreditem", disse um Gillespie que parecia oscilar entre o tenso e o descontraído, o alienado e o comprometido. Mas o grupo lá levou a água ao seu moinho, pedindo ora aplausos ora refrãos. De modo que quando chegou a Come Together, tema final, Gillespie sorria como se tivesse enfrentado e vencido um público hostil. O vocalista tocou bateria nos Jesus and Mary Chain até meados dos anos 80. Na quinta-feira à noite reviveu-se esse momento, com os últimos três temas do concerto (Just like honey, The Living End e Never understand) a receberem Bobby G. (como foi apresentado por Jim Reid) nas percussões.

Foi o culminar de um concerto em alta rotação, quase sem pausas nem concessões. Damage and Joy, o mais recente disco, foi o mote (e orgulho do vocalista, que envergava t-shirt alusiva). Só passados três quartos de hora é que o grupo, dono de uma das sonoridades mais cool do rock, acalmou o ritmo. Jim e William Reid nunca foram expansivos em palco e não foi em Vilar de Mouros que mudaram (a discrição de William é tal que os operadores de câmara não o filmaram), mas compensaram largamente com a voz de Jim, que aos 57 anos continua a soar a teen, e com a energia com que brindaram o público.

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