"A paixão liga tudo na Carmina Burana"

A música vai esta noite, às 21.30, ao lugar onde as pessoas vivem. Em pleno bairro dos Olivais, Lisboa, ouvir-se-á "Carmina Burana", de Carl Orff, ali trazida por 200 artistas: Coro e Orquestra da Gulbenkian, Coro Infantil do Instituto Gregoriano e solistas. O maestro fala dessa obra profana do século XX que elenca as paixões humanas.

Há uns anos, a BBC fez saber que O Fortuna, que abre e fecha Carmina Burana, era a canção mais ouvida da música clássica. Michael Jackson abria os concertos da digressão Dangerous com ela, que aparece em filmes, anúncios ou até no rap de Puff Daddy. Mas Carmina Burana é mais do que isso.

Esses poemas profanos da Idade Média que formam o Codex Latinus Monacensis, e dos quais Carl Orff musicou 24, transformar-se-iam no texto de uma das mais importantes obras musicais do século XX (estreou-se em 1937). "Carmina Burana" significa "canções de Beuer", abreviatura de Benediktbeuern, na Alemanha, em cujo mosteiro foram encontradas. Há quem diga que foram homens prestes a entrar na vida monástica que os escreveram, numa espécie de despedida aos prazeres terrenos.

No âmbito do programa Lisboa na Rua, o maestro José Eduardo Gomes conduzirá hoje a Orquestra e o Coro Gulbenkian, bem como o Coro Infantil do Instituto Gregoriano de Lisboa e os solistas nessa espécie de elenco musical das paixões humanas.

Tem para si alguma importância que a maior parte das pessoas que ouvem Carmina Burana e que se calhar estarão aqui no Vale do Silêncio não saibam o que é dito nesta obra? Por exemplo, o Veni veni veni parece uma coisa quase mística, ascética.

Sim, "vem vem vem". E é luxúria. Mesmo isso dá azo a muitas interpretações. Quem for mais religioso até pode pensar que é uma coisa mais mística. Claro que a maior parte das pessoas não sabe o que está a ouvir, portanto é sempre bom que se venha preparado ou que possa ler alguma coisa antes.

Perde-se por não ler o texto?

É evidente. Sempre que há texto, numa ópera, numa oratória, quanto melhor percebemos o que está a ser narrado, melhor se desfruta e entende. Temos poucos momentos em que a orquestra está sozinha. Basicamente, a força está no texto, no coro, com os solistas, com as crianças.

Para que não se entreguem só à sensação?

A obra começa e acaba com O Fortuna, que quase toda a gente já ouviu na publicidade, na vida quotidiana, tem uma força muito grande. Se calhar as pessoas ouvem e nem sabem a que obra pertence, em que contexto está.

Nem como tem que ver com elas?

Exatamente. No fundo, estou entregue a uma roda que me leva a vários caminhos, é a nossa vida.

Teve de fazer consigo o trabalho de se limpar da audição desta música?

Há muitas gravações, muitas versões, e a certo ponto é preciso limpar para ver o que é que a música me diz.

Como se faz isso?

Indo à partitura, indo ao texto, lendo todas as indicações que Orff deixou. Ele foi muito meticuloso naquilo que queria.

São praticamente 200 pessoas em palco. A estrutura humana que Orff pensou traduz logo a exuberância da peça?

É evidente que a massa que está em palco, seja ela vocal ou instrumental, tem uma grandiosidade... Embora seja uma obra que tem momentos exuberantes e grandiosos, mas que vai também ao íntimo.

Como no canto do cisne, que vai morrer, pela voz do tenor?

Exatamente. Temos momentos com toda a gente a cantar e a tocar, e outros onde se reduz a orquestra, criam-se cores completamente diferentes. Na taberna temos o bêbado, e ao mesmo tempo temos o cisne, que mostra também a fragilidade. Temos estes dois homens: um que demonstra a força - "eu é que bebo, e mando, e faço" - e o outro que se reduz à sua insignificância.

Concorda que há uma dualidade que aparece várias vezes? Por exemplo, quando vemos a inocência do coro infantil a expressar o desejo de um homem.

Exatamente. É quase macabro. Esta obra fala de tudo, da natureza, do amor, dos prazeres da vida, da relação entre um homem e uma mulher, no sentido mais quase carnal e profano, e também do prazer do álcool, da taberna, dos homens.

Como é que fazem com as crianças? Sabem o que estão a cantar?

As crianças aqui cantam muito pouco. Dão mais a cor branca. Claro que o que eles cantam é explicado, mas acho que cantam de uma maneira inocente.

Há coisas neste texto que não possam ser transpostas para a contemporaneidade?

Mais do que estar a beber na taberna, é tomar um copo num bar. Significa os prazeres mundanos na vida, pode ser perfeitamente transposto. E depois a mística do Ave Formosissima. Aqui em Portugal há muito o culto de Nossa Senhora. Se ouvíssemos só Ave Formosissima podíamos achar que é uma oratória sagrada à Virgem Maria, mas antes temos outras coisas que não têm nada a ver com isso. E, para mim, O Fortuna é o resumo desta roda que é a nossa vida. Acho que [Carmina Burana] é intemporal, por isso é que é uma obra que desde a sua criação tem tido um sucesso incrível, e vai ter. Não só o texto, mas sobretudo a música tem muita força.

Como designamos a obra?

Uma cantata cénica, acho que é o termo mais correto. Há versões onde esta obra já foi encenada, e faz todo o sentido. Cada quadro, cada canção dá para encenar. É como andar num museu.

Qual é a linha a unir os quadros, que estão divididos na obra em Primavera, Taberna e Amor?

No fundo, acho que é a paixão que liga tudo. A primavera é uma estação que por si só desperta estes sentimentos; na taberna, os prazeres mundanos, a paixão de uma maneira mais carnal, mais terrena; e o amor... Ao mesmo tempo, acho que este cenário, este grande vale, a obra encaixa-se aqui que nem uma luva. É verde, é um sítio propício a beber uns copos na taberna, há os namorados no parque.

E chama-se Vale do Silêncio...

O silêncio é muito importante na música e os momentos de silêncio são também muito expressivos. Toda esta envolvência dá um feliz casamento. E é uma honra. Trazer a música mais para fora do centro de Lisboa é muito importante. A maioria que virá ao concerto se calhar não é um público que vá à Fundação Gulbenkian ou ao Teatro Nacional São Carlos, não é um público erudito. E, no fundo, é trazer a música ao seio das pessoas, onde elas vivem. Às vezes as pessoas vão ao espaço onde se faz música, e aqui a música vai ao espaço onde as pessoas vivem, acho que é importante.

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