A oportunidade da redenção, o lugar do destino e o papel da vontade

Há algo de epifânico no modo como as personagens se confrontam com os maiores dilemas e os diálogos nunca perdem o toque milagroso da coreografia, sem deslizarem para a caricatura

"Porque Marie Maurestier", lê-se a páginas tantas de Concerto em Memória de Um Anjo, "possuía essa ambiguidade essencial que faz sonhar o público, essa dualidade de onde nascem as estrelas: o seu físico não combinava com o seu comportamento."

E assim se enuncia não apenas um livro, mas toda uma obra, ou pelo menos uma parte significativa dela. Doutor em Filosofia, reconhecido pela melhor crítica, galardoado com alguns dos mais importantes prémios da literatura francófona, detentor da cadeira de Colette e Cocteau na Académie Royale de la Langue et Littérature Françaises de Belgique e (desde o início 2016) jurado do Prix Goncourt, Éric-Emmanuel Schmitt possui ele próprio essa dualidade "de onde nascem as estrelas": a forma dos seus livros não combina com a respetiva profundidade.

Concerto em Memória de Um Anjo, que nos chega agora com tradução do escritor Nuno Camarneiro, é apenas mais uma dessas peças milagrosas capazes de serem lidas pelo professor universitário e pela respetiva empregada doméstica. Não há nele uma frase, ou pelo menos um parágrafo, que não contenha suficientes níveis de significado para que cada leitor mergulhe na leitura tão fundo quanto lhe permitir a sua sensibilidade e encontre, apesar disso, um nível próprio de intimidade (e de satisfação). O que também significa dizer que em poucos autores franceses contemporâneos se encontra igual esforço para levar ao público em geral os temas filosoficamente mais complexos.

É o que tem presidido a um dos mais multifacetados percursos da atual cultura francófona, e que passa para já por peças de teatro encenadas em mais de 50 países (e já premiadas com o Grande Prémio de Teatro da Academia Francesa, em 2003), romances de diferentes índoles, novelas gráficas, libretos de óperas e até filmes para cinema, incluindo argumento e realização. Desta vez, o que está em causa é um dos géneros preferidos do autor: os contos (ou novelas breves), de que é igualmente subscritor de prolífica e elogiadíssima obra.

Matéria essencial: a oportunidade de redenção, o lugar do destino e o papel que a vontade vem a representar nessa equação. Em cena estão diferentes e inesquecíveis personagens, de uma assassina em série a um presidente da República apaixonado e de um marinheiro honesto a um traficante de artefactos religiosos falsificados (ou, por outra, Made in China). A história da idosa Marie Maurestier, homicida dos seus três maridos e - por via disso - principal atração turística da pequena cidade de província de Saint-Sorlin-en-Bugey, é um portento. Mas as ligações entre as quatro diferentes narrativas em desfile não tardam a enunciar-se, segurando a unidade do volume, e a adenda da parte do diário pessoal do autor correspondente ao período em que as escreveu - e que Schmitt já há algum tempo tinha passado a incluir nas segundas edições dos seus livros, mas desta vez incluiu logo na primeira - tanto simula fazer a exegese dessas histórias como lhes vem acrescentar matéria filosófica.

Afinal, somos verdadeiramente livres, ou as nossas vidas são comandadas por um destino inescapável? Postos perante uma oportunidade de redenção, podemos de facto escolher - aceitando-a, recusando-a, ignorando-a - ou nada mais nos resta senão seguir maquinalmente uma opção predefinida? E, seja quais forem as respostas às duas perguntas anteriores, até que ponto - como também perguntaram Yourcenar ou Gide - podemos mudar?

A formulação frásica não é inocente: Schmitt prefere as perguntas às respostas, deixando as conclusões a cargo do leitor. "Que o leitor tenha, eventualmente, mais talento do que eu", escreve no último parágrafo do seu diário (e deste volume), "não me incomoda em absoluto. Pelo contrário..."

Eis, pois, o retrato de um escritor de corpo inteiro, a que o sucesso - vide as traduções em mais de 40 países - nunca roubou as preocupações centrais. Herdeiro assumido de Beckett, Anouilh ou Claudel, Éric-Emmanuel Schmitt detém e exercita todos os tipos de recursos, sempre sem perder o sentido do humor (e em particular o do humor negro). E foi precisamente com este Concerto à la Mémoire d"Un Ange - no seu título original de 2010 - que veio a conquistar a consagração definitiva, com a obtenção do Goncourt.

As quatro histórias trazem todas desfechos mais ou menos imprevisíveis e não deixam de denunciar as qualidades do dramaturgo que, no autor, convive com o contista. Há algo de epifânico no modo como as personagens se confrontam com os maiores dilemas e os diálogos, trazidos à cena invariavelmente na medida certa, nunca perdem o toque milagroso da coreografia, sem deslizarem para a caricatura.

Um livro para pulverizar essas novas dicotomias entre a "baixa" e a "alta" literaturas, a literatura-para-a-posteridade e o "simples" storytelling. Também a resposta a essas urgências de categorização deveríamos, provavelmente, deixar a cargo dos leitores, e de cada leitor em particular.

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