"A maior parte dos utilizadores da Bibliomóvel não sabe ler nem escrever"

De segunda a sexta, leva livros, revistas, jornais e um terminal de pagamentos às aldeias de Proença-a-Nova. Contacta sobretudo pessoas isoladas, de idade avançada, pois a população escolar está concentrada em áreas urbanas: nos últimos sete anos, foram encerrados três jardins de infância e três escolas primárias.

Logo no primeiro dia de trabalho, em 26 de junho de 2006, chegou a Alvito da Beira e montou o estaminé no largo. Estavam sete homens sentados à sombra de uma árvore: quatro não sabiam ler, um não gostava e os outros só liam "as gordas" do jornal. Passou a tarde a discutir calibres de armas e tocas de coelhos. Nascido em 1974, regressou a Castelo Branco depois da licenciatura em Sociologia e da especialização em Ciências Documentais, ambas em Lisboa. Em 2000, entrou para a Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova e seis anos depois chegou a carrinha que lhe mudou a vida. A ele e muitas outras pessoas.

Comparo-o ao homem que tinha um triciclo com gelados, tocava uma campainha e as crianças iam a correr.

Há um colega meu que me chama o almocreve das letras, ou das palavras. Embora a Bibliomóvel seja uma biblioteca, ela é mais do que isso. Tento levar muito mais, até porque uma fatia grande dos meus utilizadores, frequentadores, visitantes, que acabam por ser também amigos, não sabem ler nem escrever. De 15 em 15 dias, faça chuva, faça sol, faça neve, estão no sítio habitual, não só porque eles estão sempre ali, mas porque, quero acreditar, estão à minha espera, nem que seja para dizer bom dia ou boa tarde, ou para contar os sucessos, os fracassos ou as dores das suas vidas. Uma biblioteca tem de ser muito mais do que só livros e leitura, é obrigatório.

Escreveu no seu facebook que morreu Gracinda. Quem era?

São quase doze anos a calcorrear aquelas estradas, é normal que muitas pessoas não sejam apenas utilizadores de um serviço público burocrático. Acabam por se transformar em amigos, acabam por nos marcar e acredito que possamos fazer alguma diferença na vida deles. A D. Gracinda chegou ali há pouco tempo, mas tinha uma história de vida que me espantava cada vez que ela ma contava. Tinha uma figura frágil mas era uma fortaleza inexpugnável. Passou tanto, sofreu tanto, e quero acreditar que havia alguma alegria lá dentro.

E era uma leitora?

Grande parte dessa alegria acho que lhe vinha dos livros que eu lhe deixava de 15 em 15 dias ou que ela comprava. Quando se apercebeu de que a carrinha parava na aldeia de 15 em 15 dias, passou a ser uma das utilizadoras, praticamente a única, uma leitora de mão cheia. Lia quatro, cinco, seis livros e ainda trabalhava, fazia coisas, mexia.

E lia bons livros, escreveu que o escritor preferido era Eça de Queirós?

Grande parte são leitores de clínica geral. Não há ali um estilo, um escritor. É mesmo o prazer de ler por ler. Podem ler o que consideramos literaturas light, como ler os clássicos, como ler coisas com mais conteúdo. É leitura pelo prazer que lhes pode trazer. São principalmente senhoras, os leitores masculinos são menos. Havia dois que infelizmente também faleceram, e um deles era um leitor compulsivo. Tenho alguma dificuldade em contar histórias porque são tantas Só a vida desse homem também dava um romance, se alguém quisesse escrevê-lo.

Podia ser o Nuno. Nunca teve o ímpeto de escrever?

Não.

Mas escreve todos os dias no blogue [opapalagui.blogspot.pt] e no facebook.

Eu gosto muito de livros e tenho algum pudor, muito pouca autoconfiança nesse aspeto. O que eu escrevo não merece estar num formato tão formal. Gosto do que publico no blogue, publico algumas coisas que me saem às vezes de uma forma muito atabalhoada e sem grandes cuidados de estilo nem gramaticais. Sempre recusei passar isso tudo para um livro, acho que não faz muito sentido.

Tem de arranjar aí uma parceria porque esse conjunto de histórias só o Nuno as conhece.

Eu gosto muito de convidar pessoas, jornalistas ou sobretudo colegas, tenho sempre um lugar e meio vago na carrinha. Venham, as portas estarão sempre abertas para verem, ao vivo e a cores, aquilo que vou tentando mostrar no blogue, em conversas, no perfil do facebook.

Como nasceu este projeto da Câmara Municipal de Proença-a-Nova?

Nós em Portugal temos a sorte de ter tido uma marca poderosíssima nas Bibliotecas Itinerantes da Fundação Calouste Gulbenkian. Todos os dias, por onde vou passando ou nos lugares onde sou convidado para falar sobre a Bibliomóvel, invariavelmente a conversa vai bater no mesmo: "Olhe que comecei a ler naquelas carrinhas com um formato esquisito e com um cheiro estranho da Gulbenkian, eu ganhei o gosto pela leitura na Gulbenkian, eu hoje sou formado, tirei um curso porque a biblioteca da Gulbenkian vinha à minha terra todos os 15 dias e eu consegui alargar os meus horizontes." Felizmente em 2002, quando o serviço foi extinto, algumas autarquias mantiveram os veículos e, nalguns casos, adquiriram novos. Proença-a-Nova foi bastante devastada pelos incêndios de 2003 e nessa altura surgiram comissões de apoio e projetos ligados à solidariedade social. Elaborou-se um projeto que ganhou, no chamado Progride [Programa para a Inclusão e o Desenvolvimento], uma parceria da Santa Casa da Misericórdia da Sobreira Formosa, uma freguesia anexa de Proença, e a Câmara Municipal. Nesse quadro, vieram dois veículos. Um é a Bibliomóvel e o outro é a Unidade Móvel de Saúde.

Está ligado ao Bibliomóvel desde o início?

Sim, desde o dia 26 de junho de 2006, dia da viagem inaugural.

Já era bibliotecário?

Era responsável da Biblioteca Municipal, de 2000 a 2006.

E tinha estudado Sociologia.

Sou licenciado em Sociologia. No último ano estava um dia sentado na esplanada da faculdade e Tive o privilégio de ter uns pais que sempre me alimentaram este gosto.

Pela leitura?

E pelos livros. Gosto de leitura, gosto muito de livros e adoro bibliotecas. O meu percurso de leitura não começou numa biblioteca mas numa livraria. Em Castelo Branco, existia uma livraria numa das avenidas principais, onde os meus pais têm uma pastelaria [Belar], e eu passava as manhãs de sábado sentado ao pé das prateleiras da banda desenhada, a folhear os livros. O dono da livraria por vezes ia tomar um café à pastelaria dos meus pais, fechava a porta e deixava-me sozinho ali, no meio daquele espaço todo. Algum efeito havia de ter dado. E deu para isto, um bibliotecário que gosta muito de livros e gosta muito de bibliotecas.

Estava na esplanada da faculdade e?

Estava lá um conjunto de folhetos, vi um de Ciências Documentais e percebi que poderia ser um caminho. Em 1998 ou 99, estava um pouco saturado de Lisboa, queria voltar para Castelo Branco, era a minha cidade. Pensei: o que é que eu vou fazer com Sociologia em Castelo Branco? Então fiquei mais dois anos, tirei essa especialização, e quando terminei fugi de vez de Lisboa, estive em Castelo Branco a ajudar os meus pais durante algum tempo. No ano 2000 entrei para os quadros da Biblioteca Municipal de Proença-a-Nova.

Entretanto chegou o Bibliomóvel.

No início havia uma escala de serviço e eu inscrevi-me, "de segunda a sexta vou eu". Confesso que o primeiro dia não foi muito fácil. Na viagem não fazia ideia do que ia fazer, do que iria acontecer. Quando chego à primeira aldeia, Alvito da Beira, no largo há uma árvore, uma sombra, e estavam lá sentados sete homens. Todo entusiasmado, abri as portas, montei o estaminé - aquilo tem dois toldos, um de lado, outro atrás. Dirigi-me a eles, expliquei ao que vinha, e um deles olhou para mim e disse-me: "Ó amigo, você aqui não vai ter muita sorte no negócio. Sabe porquê? Olhe, está a ver estes seis que aqui estão? Estes quatro não sabem ler, eu não gosto e aqueles são capazes de ver uma gorda no jornal." Esse primeiro episódio marcou-me. Eu realmente tinha essa ideia - o que é que a biblioteca leva? Como bibliotecário, olhando agora para trás, estava muito errado em relação àquilo que era e devia ser uma biblioteca. Hoje penso de maneira completamente diferente. Uma biblioteca é um espaço de liberdade, um espaço de promoção do livro e da leitura também, mas tem de ser muito mais e sempre algo mais do que isso. Aquelas pessoas se calhar não precisam de um livro ou da leitura porque podem não têm essa competência. Mas precisam disto que estamos a fazer aqui agora. Precisam de falar, precisam de conversar, precisam de alguém que as escute. Obviamente, eu sou a figura do município. Tudo o que é reclamações, dúvidas, eu sou o frontman da coisa. Nem toda a gente está satisfeita com a câmara.

"Diga lá na câmara que aquele telhado"

Exatamente, aquele buraco, aquela rua Isso faz parte do meu trabalho.

E desempenha mesmo essa função?

Sim. Fui-me apercebendo, e fui acreditando, que as bibliotecas perderam muito da relevância social ao longo destes anos e perderam por culpa nossa. Temos o hábito de dizer que a culpa é do presidente da câmara, do governo, porque não nos dão os fundos e os mundos. Mas grande parte da culpa da perda da relevância social que as bibliotecas tiveram é nossa. Como bibliotecário, assumo-a.

Fiquei com curiosidade de saber se esses homens que estavam nessa primeira aldeia, Alvito da Beira, chegaram alguma vez a aproximar-se.

Quatro deles já faleceram. Quando eles me disseram aquilo, foi um flash: atenção, isto é uma biblioteca mas não tem só livros. Fui dentro da carrinha e trouxe o que achava que poderia ser algum recurso útil.

O quê?

Para os das letras gordas, peguei em jornais. Aos outros entreguei revistas de caça e pesca. Não é preciso saber ler nem escrever para absorver o que ali está. Nessa tarde, eu, que sou pescador e caçador apenas no prato, dei por mim a discutir calibres de armas, tocas de coelhos, lebres e cães com pessoas que toda a vida o fizeram e andaram aos ninhos, aos ovos dos ninhos, toda a infância foi passada a fazer aquilo. Através do contacto com aquela revista libertaram-se histórias. São essas histórias que faz todo o sentido alguém escutar, e sinto que eles também têm muito prazer em que alguém escute essas histórias.

Fica quanto tempo em cada aldeia?

É muito relativo. Eu saio de segunda a sexta, há dias em que faço apenas duas aldeias porque são muito distantes, na serra, e a distância entre elas é muito longa. Mas tenho um dia em que faço seis. Em algumas delas é um serviço porta-a-porta, sei que não vale a pena estar à espera, a pessoa não pode vir, e vou mesmo bater às portas e estou lá 10, 15, 20 minutos.

É sempre mais do que trocar livros?

Há sempre mais, há sempre uma informação para trocar, um pedido para fazer, uma leitura para aconselhar, um serviço para fazer. Agora temos também um terminal multibanco para pagar contas.

Leva um terminal de multibanco para fazerem pagamentos?

Da água, da luz, tem sido mais utilizado para carregar telemóveis. As bibliotecas têm de ser úteis, têm de ser próximas, têm de ser também - agora esta palavra está um bocado gasta, mas pronto - afetivas. Eu foco na questão da utilidade e da proximidade. Se a biblioteca não é útil, perde relevância - como perdeu. Esse é apenas mais um pormenor que achei que fazia todo o sentido. Deslocações de pessoas que se calhar a rede de transportes públicos é praticamente inexistente, muitas vezes têm de estar a pedir a x ou a y, "leva-me aqui 10 euros e carrega-me o telemóvel". Porquê fazer isso se está ali um serviço público que vai lá de 15 em 15 dias, e que é próximo. Por que não?

É da sua parte uma generosidade enorme, uma disponibilidade

Isto não é nada inventado. Este conceito fui buscá-lo àquela que para mim é o máximo. A primeira vez que entrei naquela biblioteca fiquei louco. É uma biblioteca itinerante holandesa, um trailer de um camião TIR. A porta de trás abre, rebaixa para as pessoas com dificuldade e com cadeira de rodas entrarem. Do lado direito tem um ATM que dá para pagamentos e para levantar dinheiro, do lado esquerdo tem o posto do turismo local, um bocadinho mais à frente o posto de atendimento do município, depois um pequeno posto de correios onde se pode entregar encomendas e cartas e comprar selos. Do outro lado tem um FabLab, que agora está muito na moda, um laboratório de criatividade, com uma impressora 3D. Isto só no primeiro patamar. Depois vamos andando para a frente e tem um ecrã multimédia tremendo, com jogos táteis didáticos, ou jogos mesmo, e depois no último patamar estava aqui a falar qualquer coisa tem prateleiras com livros. Faz todo sentido, é um espaço útil e criativo. Foi isso que tentei trazer ao máximo para a Bibliomóvel, um espaço útil, um espaço de criatividade. A questão dos afetos está de facto um bocado gasta.

Mas está implícita no que diz, sem esse afeto não existia.

Nesta questão dos serviços, tivemos uma parceria inesperada com a Unidade Móvel de Saúde, que faz percursos semelhantes ao nosso: por que não juntarmos os dois? De vez em quando, quando tem um buraco na agenda, o técnico que anda com a Unidade Móvel de Saúde traz o equipamento e fazemos rastreios. Demos-lhes um nome engraçado, "Castrol, diabretes e atenção". Obviamente as condições não são as ideais, não há privacidade, aquilo é feito no balcão, no banco rotativo em frente ao ecrã, ou mesmo no chão da Bibliomóvel. Mas fazemos rastreios da glicémia, da tensão arterial e do colesterol. Tem sido fantástico porque eu pensava que já conhecia toda a gente mas, quando há o anúncio de que o Carlos vem comigo, aparecem pessoas que eu nunca tinha visto.

Como é que as pessoas sabem que vem aí?

Ao longo destes doze anos criei uma rede de contactos. Em todas as aldeias há uma pessoa que sei que é a porta-voz. É tudo combinado em cima do joelho, não é uma coisa planeada, é: "Para a semana estás livre? Estou. Então vamos". Mando uma mensagem "Amanhã a Bibliomóvel leva a companhia do Carlos da Unidade Móvel de Saúd"e para a pessoa que eu sei que espalha a notícia como gasolina em fogo.

A quantas aldeias vai?

Neste momento, são 40. Quando começámos o projeto, eram 26 e foram sendo acrescentadas nesta lógica do passa a boca. "Vais àquela, por que é que não vens à minha?" Sei que há aldeias que são maiores mas nunca senti esse chamamento, nunca ninguém me abordou. No entanto, vou a aldeias onde moram duas pessoas, nem são bem aldeias.

São lugares?

É um lugar que tem uma estrada e cinco casas e eu vou lá bater à porta da pessoa. Houve uma pessoa que me mandou parar no meio da estrada: "Desculpe lá, você vai à terra da minha irmã, tem de vir à minha". Esta senhora tem sido fantástica, também é uma força da natureza. Tem menos de um metro e meio de altura, é uma formiguinha autêntica, uma formiga atómica. Gosta de ler coisas sobre lendas, sobre tradições antigas, mas o grande interesse dela são as revistas das rendas e dos bordados.

Como abastece a biblioteca? Tem de ter sempre novidades?

Nós não temos muitos leitores, muitos utilizadores-leitores, mas os que temos são tremendamente exigentes. Ouvem um anúncio na televisão e ligam-me ou mandam uma mensagem no facebook : "Tens este livro? Estava interessado". Vou fazendo uma compilação, uma lista, entrego na Câmara. E agradeço profundamente o facto de eles nunca me terem dito que não.

Há um grande apoio por parte do município?

Sem dúvida, se não fosse o município a investir, o projeto já teria acabado porque não havia dinheiro para combustível nem para os recursos.

E as revistas têm de ser permanentemente alimentadas?

As revistas de bordados e de rendas e de culinária são sem dúvida os recursos mais usados e abusados, ilegalmente nalguns casos.

Essas revistas e os livros ficam 15 dias nas mãos das pessoas e depois são devolvidos na visita seguinte?

Eu não sou um bibliotecário muito formal.

Já se percebeu.

E se há coisas que eu detesto, abomino mesmo, são as regras dos prazos de entrega. Pior ainda, quando algumas bibliotecas enviam cartas para os leitores. Isso é matar à nascença a relação. Se um livro está atrasado, é tentar perceber ligando ou indo ter com as pessoas para perguntar o que se passa. Houve pessoas que não entregaram os seus livros, umas porque faleceram e os familiares provavelmente terão reparado que aquilo não lhes pertencia mas não entregaram. Mas não tem havido uma taxa muito elevada de não devolvidos.

Em Portugal há mais bibliotecas itinerantes. Há uma rede, não há?

Não é bem uma rede, infelizmente. Existe a rede de leitura pública, mas temos tido algumas dificuldades em trabalhar em rede. E as bibliotecas itinerantes, é curioso, têm assistido a booms sucessivos. Houve o boom de 2006, porque à semelhança da Bibliomóvel houve outras que foram apoiadas pelo mesmo projeto. Passou-se de 30 para quase 50, e agora estamos a assistir a um novo boom e estão no ativo cerca de 70.

E fizeram um encontro em outubro do ano passado?

Em Portugal nós sabemos onde estamos, temos algumas dúvidas sobre o que fazemos, mas temos uma dificuldade tremenda em encontrar um sítio onde nos encontrar e falar. Em Espanha existe uma associação específica para os profissionais das bibliotecas móveis. Nós estamos inseridos na nossa associação profissional e temos usado e abusado das redes sociais para falarmos uns com os outros, porque os problemas de uns são os problemas de outros e as estratégias podem ser parecidas, embora haja diferenças em termos de geografia, de situação, da própria organização. No ano passado houve um encontro na Chamusca e todos os anos tem havido pelo menos uma tentativa de fazer algo, tentamos juntar o máximo de bibliotecas possível, o máximo de profissionais.

E há pelo mundo inteiro. No seu facebook, vi uma quantidade enorme e uma variedade incrível. Falou do trailer holandês, é imponente...

É o topo de gama.

E até me surpreende que na Holanda haja situações onde esse serviço é necessário.

É uma zona rural e é muito usado.

Mas há muitas na América do Sul, há em todo o lado.

Eu sou um geek autêntico, confesso que coleciono tudo o que há sobre bibliotecas móveis, tanto fotografias antigas como atuais. Usando até as redes sociais, fui aumentando essa coleção. Nunca fiz a contabilidade e a minha coleção é um caos absoluto. Há uma separação mínima por continentes, mas gostaria de fazer por países. Se pegarmos na listagem da ONU, em todos os países há bibliotecas itinerantes.

Porque as Nações Unidas também estão neste processo?

A Agenda para o Desenvolvimento Sustentável é uma oportunidade de ouro para as bibliotecas estarem presentes e darem os seus contributos para que essa agenda consiga atingir os seus objetivos. Em Portugal estamos a trabalhar para isso, mas é a tal dificuldade do trabalho em rede que acaba por causar mais obstáculos.

Qual foi a biblioteca móvel que o espantou mais?

Essa é uma pergunta muito fácil de responder e tenho aqui em cima da mesa um dos símbolos dessa biblioteca.

É uma écharpe verde.

É um lenço verde que veio diretamente do deserto do Saara e que me foi oferecido em mãos por um dos responsáveis da biblioteca que talvez seja a mais extraordinária que conheço. Não só pelo que é mas principalmente pelo que representa e como foi feita. Começou do zero e agora é o tudo para aquelas pessoas. Foi criada numa zona de conflito, os campos de refugiados do Saara Ocidental. A biblioteca chama-se Bubisher, um pássaro que extrai a liberdade. O projeto foi idealizado por um grande amigo meu, que me ofereceu este símbolo, é com isto que se protegem do sol, do frio e da areia. O projeto saiu da cabeça dele, Gonzalo Moure, um escritor asturiano que escreve sobretudo livros infantis e que se apaixonou por aquele povo, um povo que não tem terra, numa terra que não tem povo. É uma história muito similar à de Timor-Leste. Eles viveram um período de guerra civil com Marrocos, a ONU entrou e criou os campos de refugiados. Vivem naquele limbo em que não têm nada, não têm terra, não têm liberdade. E o Gonzalo pegou na ideia uma vez que a língua castelhana ainda estava presente, principalmente nos mais velhos e levou-a. Arregimentou mundos e fundos, sozinho no início, depois foi conquistando amigos. Há um vídeo que convido a ver. Procurem na internet Bubisher e deliciem-se, garanto-vos que vão chorar. Quando o primeiro Bubisher entra nos campos de refugiados e abre as suas portas, a reação daquelas crianças a entrar naquele mundo Isto foi há oito anos e aquilo que começou com uma biblioteca itinerante neste momento são três bibliotecas itinerantes, duas bibliotecas fixas, duas escolas e estão a construir uma terceira escola. Numa terra onde não havia nada, uma biblioteca itinerante fez a diferença acontecer e eu sinto muita honra por ser amigo deles. No dia em que o Gonzalo esteve presente na festa do 10.º aniversário da Bibliomóvel, no final da noite, as defesas já estavam todas em baixo, e quando ele tira este lenço do pescoço dele e mo enrola, ficámos os dois agarrados um ao outro em lágrimas, compulsivamente. Foi uma amizade que foi construída, não nos conhecíamos pessoalmente.

O Nuno nunca foi lá?

Já tive vários convites mas isto de ser pai de um filho de oito anos limita. Tenho de ir, tenho de estar lá, porque tenho de agradecer a quem mandou isto para mim e tenho de estar com eles, vivenciar aquilo ao vivo e a cores. O Gonzalo e eu conhecemo-nos nas redes sociais e a primeira vez que estive com ele cara-a-cara foi num congresso em León, em Espanha. Não nos conhecíamos, falávamos pelo chat, e quando ele entrou na sala e é uma figura imponente porque é todo moreno e com umas barbas brancas e foi um abraço bastante sentido de duas pessoas que nunca se tinham encontrado. Há quatro ou cinco anos, eu ia de mão dada com o meu filho na Praça do Giraldo em Évora, nas arcadas, e de repente vi ao fundo um senhor alto, de tez morena, barba branca e um chapéu na cabeça e foi uma cena de filme, um grito mútuo Gonzalo! Nuno! Quais eram as probabilidades de um homem que passa metade do ano no deserto do Saara e outra metade nas Astúrias, na sua casa ele também tem casa no campo de refugiados e eu nos encontramos numa cidade como Évora?

Nem sequer é a sua cidade.

É a cidade dos meus cunhados, vou lá frequentemente. E realmente aconteceu. Foi daqueles momentos inesquecíveis. Uma cena de filme, duas pessoas a gritarem e a correrem uma para outra.

Esse lado afetivo deve fazer parte do seu dia-a-dia com as pessoas de Proença-a-Nova, que veem em si

E eu vejo neles

O que é que vê neles?

Vejo exemplos. Este ano foi um ano difícil. O concelho foi afetado por incêndios mas não tanto como a Sertã, como Pedrógão ou Figueiró, concelhos vizinhos. Mas houve pessoas que perderam tudo pela segunda vez, pela terceira vez. E às vezes há uma enorme impotência de nós chegarmos àquelas aldeias e agora o que é que eu vou fazer? O que é que eu vou dizer? Olho e já assisti a perderem tudo uma primeira vez, eu estava lá, estava também quando foi a segunda vez e via nos olhos delas aquela força, aquela vontade para novamente recomeçar. Infelizmente desta vez já não vi isso nalgumas caras, pessoas que já não têm força para recomeçar tudo outra vez, para plantar tudo outra vez, para pensar que daqui a dez anos vai acontecer tudo novamente. Mas noutras pessoas não, noutras sinto essa força outra vez. E para mim são um exemplo. Na nossa vida muitas vezes temos obstáculos, coisas que não nos correm bem, e eu agarro-me a esses exemplos. E quero acreditar que também posso dar um contributo para que o dia deles seja diferente. Pelo menos é essa a força que tenho para sair para a estrada todos os dias.

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