A luz intensa de Tori Amos aponta para Washington

Mais de 50 anos de música, 25 de carreira a solo, garantem à cantora e autora um acumular de energias que, desta vez, em "Native Invader" têm como alvo o presidente Trump

Há alguns anos, quando questionada sobre o seu método de trabalho, mais solitário e intensivo do que acontece com a maioria das criadoras de canções, Tori Amos (nascida Myra Ellen, a 22 de agosto de 1963) explicou que as peças que cria lhe surgem "sob a forma de estruturas de luz" que, submetidas a uma qualquer "descodificação", se transformam naquilo que ouvimos nos seus discos e que confirmamos nos seus espetáculos.

O lado místico que associamos aos índios - ou "nativos americanos", se quisermos seguir a designação politicamente correta - está presente no sangue cherokee da cantora, que admite ainda ter aprendido muito com o avô sobre a estrutura rítmica dos cânticos ancestrais da tribo, algo que, garante, aplica mais vezes do que muitos são capazes de detetar.

Se guardarmos a ideia de uma luz, sempre intensa no percurso de Miss Amos, bem pode dizer-se que Native Invader aponta dois focos em direções distintas: um, mais íntimo, põe em destaque a doença da mãe, Mary, vítima de um AVC, que lhe custou a fala e quase toda a capacidade de comunicar; o outro, mais público e político, acende-se para desmascarar as pós-verdades e outros disparates do presidente Donald Trump, cuja eleição e cujo modus operandi Tori Amos classifica como desastroso, para já, e com consequências imprevisíveis no futuro.

São essas as traves mestras do álbum número 15 de Tori, que serve para assinalar os 25 anos da sua carreira a solo (desde o explosivo Little Earthquakes, em 1992). Há, como se esperava, vários pontos de contacto com o passado mais e menos recente, desde logo a predileção de Tori pelo piano e pelos instrumentos de teclas (ou não tivesse ela começado a tocar com 2 anos, a compor com 3, ganhando uma bolsa de estudo para cursar Piano Clássico aos 5, percurso interrompido aos 11, quando os seus mentores a declararam "incompatível" por se interessar demasiado por zonas próximas do rock e da pop e por não se mostrar disponível para ler exclusivamente as partituras que lhe eram fornecidas), tornando indesmentível a perceção de que as "luzes" se acendem quando ela está sentada para tocar. Depois, há uma peculiar forma de vocalizar, ainda sem hesitações nem requebros, a mesma que lhe valeu comparações com Kate Bush e aproximações a Annie Lennox.

Por outro lado, há uma tendência para que a estrutura das canções esteja cada vez mais dependente da própria Tori, a que se juntam apenas um guitarrista (Marc Aladdin) e um programador/arranjador/teclista adicional (John Philip Shenale). Ou seja, Native Invader dispensa contribuições formais de um baixista ou de um baterista, o que tem um peso enorme sobre o resultado das canções, mais etéreas, mais delicadas, nem por isso menos poderosas. Há ainda uma novidade, essa mais conjuntural: numa das canções mais emblemáticas do disco, Up The Creek, à voz de Tori junta-se a da filha, Tash (Natashya), numa estreia que pode deixar adivinhar uma herança interessante.

Milícia do Pensamento

Tori Amos nunca foi mulher de meias-palavras, quer fale de si própria ou daquilo que vai socialmente testemunhando. Por exemplo, há cerca de um mês, falando ao The Guardian, fez questão de afirmar que "a maior lição de vida" lhe foi "ministrada" pelo período da menopausa, "mais difícil de enfrentar do que a fama".

Não surpreende ninguém que, ecologista militante (além de ter sido porta-voz da RAINN, organização que visa ajudar as vítimas de violação, abuso e incesto), o tema da preservação da natureza vá passeando por algumas canções do novo álbum, como a sumptuosa Reindeer King, faixa de abertura, ou como Wildwood.

De resto, o desprezo do atual ocupante da Casa Branca pela questão do clima é um dos pontos de partida para o ataque cerrado que a artista lhe move, tanto na assertiva Up The Creek, que chega a referir explicitamente uma "Milícia do Pensamento" e uma "cegueira" face às consequências das alterações climáticas. Já em Broken Arrow, Amos faz uma declaração solene: de que não se deixará silenciar ou congelar por aqueles que, alegadamente, prestam contas no Senado e na Câmara dos Representantes.

O tom muda significativamente quando outra das penas de Tori passa a ocupar o centro das atenções - o ataque que, em janeiro deste ano, deixou quase paralisada e sem fala a sua mãe, Mary, com 88 anos. Tanto em Wings como - sobretudo - em Mary"s Eyes, a cantora questiona aquilo que se passará na mente da mãe, com duas canções profundamente emocionais mas que nunca chegam à pieguice.

Talvez por força da sua necessidade de simbolismos, Tori Amos não evita, na referida entrevista ao jornal britânico, um paralelo entre o mal que acometeu Mary, no mês da tomada de posse de Donald Trump, e os ataques que têm vindo a diminuir e a degradar a condição de Lady Liberty, que é como quem diz a própria América. Será um paralelo simplista, para alguns. Mas, para quem os vive na primeira pessoa, também se mostra irresistível.

Globalmente ou passo a passo, o mesmo acontece com Native Invader, a certeza de que a voz de Tori Amos está ainda muito longe de perder a pilha e de deixar de nos iluminar à força de cantigas. Basta que cada um deixe a luz entrar, como ela merece.

Native Invader, Tori Amos,Ed. Universal, PVP: 13,59 euros

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