A Ilha dos Cães. A última vez que vemos Nico no grande ecrã

Em estreia nacional amanhã, é o novo filme de Jorge António. Uma oportunidade para nos despedirmos de Nicolau Breyner no cinema. O realizado, e Ciomara Morais, uma das protagonistas, falam do ator.

Nicolau Breyner era um grande ator de cinema. Quem o apanhar em Os Imortais, de António-Pedro Vasconcelos, vai perceber isso. Era muito mais do que o ator papa-novelas ou do que o entertainer pelo qual a maior parte das pessoas o conhece. Amanhã chega ao cinema a sua última participação num filme português, A Ilha dos Cães, de Jorge António, um série B do fantástico que fala do pesadelo colonial lusitano. Nicolau apenas entra uns cinco minutos, interpreta um cruel patrão fazendeiro, sádico para os seus escravos numa ilha angolana. Cenas intensas que funcionam como metáfora do colonialismo português racista.

O filme é baseado numa obra literária de Henrique Abranches e para o realizador português, Jorge António, a entrada de Nicolau Breyner no filme foi curiosa: "ele entrou à última da hora. Ainda não havia ator para aquele papel do patrão e, como ele estava a trabalhar para a produtora do filme, a Cinemate, em Stephan Zweig - Adeus, Europa, rodado também em São Tomé, encontrávamo-nos muitas vezes. Vai daí, um dia pergunto-lhe se ele queria fazer o papel. Só me disse "Jorge! Leva-me para Santo Tomé e faço o filme à borla." Por isso, apanhei um Nico muito calmo na rodagem. Naqueles dois dias em que filmou connosco lembro-me de o ver a pensar na vida na praia. Estava muito calmo... Falávamos sempre depois da rodagem e, inclusive, pediu-me para improvisar um bocado nos seus diálogos. Notava-se que estava a gostar do que fazia. O que ele mais gostava na vida era fazer cinema, adorava estar ali com a equipa de filmagens. Creio que era um homem do cinema!" A grande satisfação do cineasta é que Nicolau chegou a ver a sua sequência e terá gostado muito.

Protagonizado por Miguel Hurst e Ângelo Torres, A Ilha dos Cães é um conto com histórias de um imaginário africano. Angola antes e depois do colonialismo português, em que se viaja de um passado através de uma prisão numa ilha e um presente que aborda o novo capitalismo americano. O tema do racismo é inevitável: "esse será sempre um tema de conversa para quem vir este filme. As pessoas vão sempre falar disso, em especial da questão de quem é mais racista. Vivo em Angola há mais de vinte anos e também acredito que há relações diferentes. A relação de Portugal com Angola é muito particular - nunca vi tantas afinidades entre dois povos. Acho que este filme pode ajudar uma nova geração portuguesa a repensar a sua memória com o colonialismo português. E a história do cinema português com estes temas históricos é um pouco reduzida", queixa-se o realizador. Para António, este é um regresso à ficção após O Miradouro da Lua (1993), coprodução luso-angolana que poucos viram.

Também Ciomara Morais, uma das atrizes do filme, não poupa elogios ao ator falecido, mesmo não tendo cenas no filme com ele: "Com o Nicolau havia um pouco aquela coisa: ou se ama ou se odeia - eu amava-o." A atriz angolana chegou a trabalhar ao seu lado na série Equador, baseada no livro de Miguel Sousa Tavares.

Filmada essencialmente com financiamento português e do governo de São Tomé e Príncipe, esta produção tem ainda uma participação reduzida de Angola (esteve para ser uma participação maior, mas a crise financeira em Angola não o permitiu - seria outro filme). Neste momento, Jorge António conta-nos que há um grupo de exibidores em Angola que está com receio de estrear o filme devido às questões temáticas do racismo do próprio filme. "Dizem, da ZAP Cinemas, que o filme é muito forte. O que é um contrassenso, já que a NOS cá em Portugal é a distribuidora. Isto é tudo um bocado contraditório. Vamos ver, estamos a negociar com o grupo que melhores condições oferecer. Se o filme não passar em Angola pode ser que faça que as pessoas aqui o queiram ver. A Ilha dos Cães tem alguns fatores que podem levar o público ao cinema. Estamos na expectativa. A produtora Cinemate fez uma boa campanha", conta o realizador. Ciomara Morais corrobora: "Este pode não ser um filme fácil, mas já há tantos filmes fáceis! É um filme que nos faz pensar. Ainda não estreou e já está a ser controverso, quando estrear será uma bomba!"

Voltando à essência do filme, Jorge António é explícito quando diz que o filme sem o dinheiro do governo de Angola deixou de ser uma grande produção internacional: "A Ilha dos Cães ganhou uma outra forma. Se calhar, até prefiro o projeto como está hoje. A proposta que nós fizemos foi de atualizar o romance de Abranches - ele ia gostar de ver isto...Tudo o resto é puro entretenimento, mesmo quando uma certa geração se possa sentir perturbada." Cães a comer seres humanos numa ilha perdida tem muito de cinema de género e o realizador também o assume. Para Jorge António, John Carpenter foi uma das inspirações, bem como os mestres Jacques Torneur ou Roger Corman.

O realizador, apesar de viver em Luanda, nunca optou pela dupla nacionalidade. "Ele é mais angolano do que muitos angolanos. No dia em que ele tiver de vir para Portugal em definitivo, dá-lhe uma coisinha má. Ele é angolano!", conta Ciomara Morais.

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