Terceira. A ilha com jazz nas veias voltou a fazer silêncios

AngraJazz junta músicos portugueses e estrangeiros no meio do oceano. Uma ilha com tradições no jazz que todos os anos renova os votos.

Um corredor de hotel como um qualquer corredor de hotel. A maçaneta de uma porta tem pendurado o letreiro: "não incomodar". De lá de dentro sai o som de um saxofone. No dia seguinte, outra maçaneta, o mesmo letreiro. E jazz a ouvir-se lá de dentro. Estamos em Angra do Heroísmo, na ilha Terceira, Açores, e nada disto acontece por acaso.

Estamos em pleno AngraJazz, o festival internacional de Jazz que chegou este ano à 18.ª edição, com a ideia de mostrar a diversidade do que se vai fazendo. Mas a história do jazz neste pedaço de civilização no meio do Atlântico é bem mais antiga - já lá vamos. Agora está impregnada, por exemplo, no gosto com que se escuta a música naquela meia lua do centro cultural transformada em clube de jazz: as notas têm princípio, meio e fim, os aplausosinhos a meio das peças são os naturais entusiasmos da plateia, que dá um sorriso ao homem do trompete, do saxofone, da bateria, do contrabaixo que se destaca a dado momento da música que nasce ali, para proveito efémero dos ouvidos. E depois, a plateia volta a escutar em silêncio. Aqui até os telemóveis estão calados. Talvez a frase de Keith Jarrett que a organização escolheu para estampar nas t-shirts do festival já tenha passado para a pele das pessoas: "Jazz is there and gone... it happens. Hou have to be present for it... that simple."

O festival começou com a Orquestra AngraJazz, formação da casa, como o nome obvia, também ela com uma história. Um dos objetivos da associação cultural organizadora era a criação de uma orquestra. Inicialmente fizeram a tentativa de a criar com músicos que passavam pelo festival mas as dificuldades de se juntarem depois era evidente. Daí partiram para esta ideia: construir uma formação com músicos da ilha. E o resultado é uma orquestra com 14 anos, várias formações (permanecem quatro músicos da estrutura original) e um caminho percorrido. E ali estão eles no palco do AngraJazz. As cadeiras da plateia estão vazias, anda um saxofone aqui, outro ali, a orquestra está ainda desarrumada enquanto os músicos aquecem. Passa das seis da tarde de quinta-feira, 13 de outubro, o dia de estreia do festival e da The Far East Suite, de Duke Ellington, que vão tocar na íntegra pela primeira vez em Portugal.

O maestro Pedro Moreira já despiu o casaco e começa o ensaio. Pede aos músicos que toquem pedaços do programa. Ele e o dinamarquês Claus Nymark dirigem a orquestra. Fazem ensaios em Angra uma vez por mês, pois ambos vivem em Lisboa. Por isso, todo o tempo é precioso. "Atenção", diz ele, e acabou-se o aparente desencontro. Todos os instrumentos se juntam num caminho. Há dois convidados especiais: o saxofone alto e clarinete de Ricardo Toscano e o saxofone alto e clarinete de Paulo Gaspar. Tocam uns segundos da suite. Quando entende que está tudo bem, Moreira desenha uma espécie de círculo no ar com cada um dos braços e fecha as mãos, como se engolisse todos aqueles sons na palma da mão. Para logo seguirem para outro bocado de Duke Ellington. Até estar tudo ok e saírem em bando rua abaixo para ir jantar, depressa.

São 23. Se a logística do jantar implica um restaurante quase por conta deles, a logística de sair da ilha para fazer espetáculos implica, também, um orçamento generoso só para transportes. Por isso, a The Far East Suite que se escutou na ilha Terceira ficou, para já, ali mesmo. E por isso esta é uma orquestra peculiar. Já houve gente que entrou e saiu. Agora voltou Manuel Almeida e a orquestra ganhou mais um trombone (tem quatro). Gonçalo Ormonde tem 18 anos e acaba de entrar em Finanças no ISCTE, em Lisboa. Está a descobrir outra cidade e a ser confrontado com toda uma série de estereótipos que relata na galhofeira do jantar. "Acreditam que há pessoas que acham mesmo que se vai de uma ilha à outra a pé quando a maré está baixa?", diz enquanto espreita o Sporting a correr na televisão. "E chamam-me o açoriano. Os Açores são nove ilhas...". Gonçalo levou a sua trompa para a vida nova e acaba de ser admitido na Orquestra Sinfónica Juvenil. "É muito diferente, é maior, tenho um monte de cordas à frente", diz com os olhos viçosos.

A seu lado senta-se Rodrigo Lucas, o mais novo da orquestra. Tem 16 anos e haveria de protagonizar um dos momentos altos do concerto, no andamento final da suite de Ellington quando se levanta da cadeira com o seu trombone. Rui Borba, um dos elementos da associação AngraJazz e também ele músico da orquestra, conta que, além da orquestra, todos eles tocam juntos ou noutras formações, ou no Conservatório, ou nas filarmónicas em que a ilha é pródiga. Muitos destes músicos são amadores, alguns gostariam de deixar de o ser. O caso de Mário Melo. Também toca trombone e este é o primeiro ano em que está na orquestra. Também este ano chegou ao Conservatório. Trabalha e estuda, é difícil conciliar tudo e viver da música é algo distante. "Aqui na ilha não é possível". Baixa os olhos. Tem 27 anos.

Rui Borba é militar reformado da Força Aérea. Esteve 25 anos nas Lajes, passou pelo Montijo. Desde sempre ligado à música, graças à tradição familiar, senta-se na fila da frente da orquestra com o seu saxofone. Histórias não lhe faltam, regadas com brilho nos olhos. Foi dos primeiros militares a fazer salvamento no mar nos Açores - daqueles que se penduram nos helicópteros para resgatar pessoas. Fez vários salvamentos ao longo dos anos. Ainda é do tempo em que não havia onde pousar em todas as ilhas. "Às vezes era em campos de futebol. Mas éramos sempre tão bem recebidos". Pudera. Além de salvador de vidas, Rui era também uma espécie de estafeta informal das ilhas mais remotas e trazia, nessas escalas, "sacos de cartas" que depois colocava no correio a troco de "tostões" e assim abreviava uns 15 dias ao caminho da correspondência.

A orquestra sobe ao palco na digestão dos filetes de abrótea ou dos escalopes grelhados. Após três temas, também de Ellington, tocados com uma cantora de jazz da Terceira, Sara Miguel, entram então na suite. Um, dois, três, nove andamentos e no final enormes sorrisos. A orquestra hoje está feliz.

O AngraJazz decorre ao longo de três dias, em outubro. Nasceu da ideia de amigos, que encontraram no governo regional e na câmara de Angra do Heroísmo também essa vontade. Hoje são quatro os "carolas" (como resumiu Desidério Lázaro, um dos músicos que tocou nesta edição) que erguem o festival. Além de Rui Borba, militar, há ainda Miguel Cunha, arquiteto, José Ribeiro Pinto, engenheiro civil, e João Pedro Barreiros, professor universitário. O festival decorre numa antiga praça de touros que é hoje centro cultural (projeto de Miguel) que recria o ambiente de um clube de jazz no meio do oceano.

Sinatra nas Lajes

Não é uma inovação deste grupo de amigos. Antes a extensão natural do swing que corre nesta ilha há muitos anos. Tantos que Frank Sinatra faz parte da história. Há um livro que conta a história. Diz que foi no século XIX que o jazz chegou à ilha, fruto da ponte migratória com os EUA e, essencialmente, da radiodifusão. Aos Açores chegavam as emissões de rádio de Londres e Berlim. Nos anos 30 do século XX "já era identificável na Terceira o embrião de comércio de discos e gramofones", escrevem João Moreira dos Santos e António Rubio no livro Jazz na Terceira, editado por ocasião dos dez anos do festival. O jazz saia então das grafonolas para os chás dançantes da ilha. Começou a ser tocado por músicos das filarmónicas mas é na base das Lajes que se dá a explosão. Em 1944 a orquestra de Glenn Miller (que se alistara em 42 na Força Aérea americana) atuou na base. Um ano depois, foi a vez de o jovem Frank Sinatra, então com 29 anos (e já dispensado do serviço militar) e já com nome no swing atuar nas Lajes (ficou para a posteridade o facto de ter comprado uma máquina fotográfica Zeiss no Foto-bazar da Rua de São Pedro, em Angra).

Multiplicam-se as histórias de terceirenses ligados ao jazz, com o gosto por esta música a galgar gerações. Cláudia Cardoso, diretora da novíssima biblioteca de Angra, por exemplo. Cresceu a ouvir jazz, o avô Mário Coelho é um dos pioneiros do jazz na ilha. Integrou o mítico Flama Combo, o primeiro grupo de jazz dos Açores, criado em 1957.

Cláudia perdeu o primeiro dia do festival - em que, para além da orquestra da casa, atuou o genial contrabaixista norte-americano Christopher McBride - mas não falhou o segundo, em que subiram ao palco o português Desidério Lázaro e o norte-americano Ralph Alessi, com as respetivas bandas. O festival terminou ontem à noite e deverá voltar por volta do feriado do 5 de outubro do ano que vem. Quando mais não seja, porque o ADN da ilha obriga.

A jornalista viajou a convite da Associação AngraJazz

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