A "elite" russa está de férias no palco do São João

Neste regresso à dramaturgia russa, Nuno Cardoso encontra traços comuns entre esse verão de 1904 e o Portugal atual.

Uma piscina e cadeiras de praia tomam conta do palco do Teatro Nacional São João, no Porto, dando o mote para Veraneantes, uma peça em que a futilidade das quinze personagens e o cenário descontraído, de férias mesmo, acaba por revelar uma série de conflitos. Mais de um século separa a criação do texto, em 1904 pelo escritor e dramaturgo russo Maksim Gorki (1868-1936), mas o encenador Nuno Cardoso aponta semelhanças entre a realidade de então, na Rússia, e a situação atual, em Portugal.

"Conheço a peça há algum tempo e sem achei que era o lado B de Tchekhov", refere Nuno Cardoso, após o ensaio para a imprensa e quando questionado quanto a esta escolha. Depois de já ter encenado As Gaivotas e As Três Irmãs, de Anton Tchekhov, Cardoso regressa assim aos textos russos, agora com uma peça que reflete "sobre uma espécie de classe média emergente, cheia de moralismos, que fala muito mas diz muito pouco". É aí que, diz, encontra "traços comuns com o Portugal empreendedor, de gestão". "Mas não só", acrescenta: "Basicamente, Gorki fala da ausência de ação, da surdez, da mudez e da cegueira de pessoas que vivem num determinado círculo social, algo que nos dias de hoje não acontece numa determinada classe social mas mais num estrato geracional, em redes sociais, esplanadas, independentemente da faixa etária, do estrato social, é tudo igual".

Pelo palco passam quatro famílias, com personagens pertencentes a várias profissões liberais - um escritor que deixou de saber quem são os seus leitores, uma poetisa, médicos, engenheiros, advogados - em que ora conversam sobre um qualquer tema frívolo ora entram em conflito por questões mais pessoais ou ideológicas.

Essa componente política, "a que não se pode fugir, é uma crítica feroz a esta gente bem pensante do nível do bom gosto, etc, que cresce por graça do Estado de direito, mas que até esse Estado de direito acha bem pôr em causa". E, numa ponte para os dias de hoje, Nuno Cardoso deixa a sua própria visão: "No meio disto tudo, discute-se cidadania, fazemos hashtags a favor dos desgraçados que estão na Grécia, e achamos muito mal o Trump e a Marie Le Pen, (...) mas aquilo em que de facto estamos interessados é saber quantos likes temos no Facebook".

A peça, em quatro atos, com quase três horas de duração, foi escrito em 1904, ano da morte de Tchekhov e pouco antes da "sangrenta revolta de 1905, que abriria caminho à Revolução Bolchevique de 1917", refere a sinopse.

Embora existam semelhanças entre os dois dramaturgos, que eram amigos, segundo Nuno Cardoso, Gorki "é um escritor mais de ação, que queria mudar e transformar, sendo mais direto no seu ataque" às classes média e média-alta. E no texto, são vários os apelos à ação em detrimento de tanta conversa, voltando-se aqui aos tais paralelismos com a situação atual em Portugal defendidos por Nuno Cardoso. "Vivemos de uma maneira estranha. Falamos, falamos e mais nada", diz, no segundo ato, Varvara Mikháilovna (Maria João Pinho). A mesma personagem, uma das desalinhadas que vai provocando tensão na relação com as mais acomodadas, diz ainda: "A elite não somos nós. Nós somos outra coisa... Somos veraneantes no nosso país, forasteiros. Agitamo-nos, procuramos lugares confortáveis na vida... não fazemos nada e dizemos muita coisa detestável."

O espetáculo, que conta com atores Afonso Santos, António Parra, Carolina Amaral, Cristina Carvalhal, Dinarte Branco, Iris Cayatte, João Melo, Joana Carvalho, Margarida Carvalho, Maria João Pinho, Mário Santos, Nuno Nunes, Pedro Frias, Rodrigo Santos e Sérgio Sá Cunha, é uma coprodução entre o Ao Cabo Teatro, o Centro Cultural Vila Flor, o Teatro Nacional D. Maria II e o TNSJ.

Informação útil:

Veraneantes

De Maksim Gorki

Encenação de Nuno Cardoso Teatro Nacional São João, Porto

Até 18 de março

Quartas às 19.00; quinta a sábado às 21.00; domingos às 16.00

Bilhetes: entre os 7,5 euro e os 16 euro

Convento de São Francisco, Coimbra, a 22 de março

Theatro Circo, Braga (24 e 25 de março)

Centro Cultural Vila Flor, Guimarães (1 de abril)

Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa (6 a 9 de abril)

Teatro Aveirense (13 de abril).

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