A despedida dos palcos mas não do teatro

Quando se fechar o pano sobre Hamlet, amanhã, no Teatro de Almada, fecha-se também o pano sobre a carreira do ator.

"De todas as funções do teatro é o ator que tem a função mais importante. Por isso, mais do que vaidade pessoal, sempre senti um grande orgulho por estar no grupo de cada espetáculo e dar ao público o que de melhor, todos, mesmo os que não vêm ao palco, produzimos." As palavras de Luís Miguel Cintra foram ditas na noite de 17 de outubro, após a última representação de Hamlet no palco do Teatro do Bairro Alto, em Lisboa. A noite em que, sem que ninguém o esperasse, o ator, encenador e diretor do Teatro da Cornucópia, de 66 anos, anunciou que planeava a sua retirada dos palcos e que aquela tinha sido a última vez que tinha representado ali, na casa da sua companhia - "a minha, a nossa casa, há 40 anos".

A sala da Cornucópia estava cheia naquela noite. Houve muitos aplausos e alguma lágrimas. Mas, na verdade, a despedida ainda estava longe. Ao longo do último mês, Luís Miguel Cintra continuou a integrar o elenco de Hamlet, mas no Teatro Municipal Joaquim Benite, em Almada. A carreira da peça termina amanhã e, depois da matiné, o ator dirige-se para o Teatro Nacional D. Maria II, em Lisboa, onde termina a homenagem que lhe presta o Lisbon & Estoril Film Festival, numa sessão onde será exibida a versão integral recuperada de E Não Se Pode Exterminá-lo?, o filme de Solveig Nordlund e Jorge Silva Melo que regista esse espetáculo da Cornucópia de 1979. Haveria melhor maneira de terminar a sua carreira como ator?

Mas a despedida continua adiada, pressentimos. Mesmo deixando de ser ator da Cornucópia, Luís Miguel continuará sempre a ser ator e não diz que não a fazer pequenos papéis no teatro ou no cinema. Trata-se, antes de mais, de saber parar no momento certo. De não querer "fazer figuras tristes", como já disse. "Tenho dificuldades concretas de saúde que me não deixam continuar a apresentar-me perante vós e a estar em cena com os outros, que é o que mais gosto de fazer", explicou ao seu público.

Sofrendo de doença de Parkinson e tendo de fazer medicação que lhe afeta a memória, o ator recusa-se a usar um auricular, através do qual alguém lhe sopraria o texto. A solução não se adequaria à sua maneira de estar no teatro. De resto, Cintra continuará a encenar e a dirigir a companhia - enquanto ela durar. Como disse: "Não vemos como, na atual conjuntura, [a Cornucópia] possa ter capacidade de ultrapassar as dificuldades económicas que tem. Não sabemos quanto durará." Mas essa será outra preocupação.

"Aprendi a representar com ele"

O ator Nuno Lopes estava sentado na plateia naquela noite e ficou chocado. "Eu aprendi a representar com o Luís Miguel", diz, sem hesitar. "É claro que andei na escola e tive bons professores. Mas na verdade quem me ensinou a pegar num texto e retirar dali uma personagem foi o Luís Miguel e a Cornucópia." Foi naquele palco que Nuno Lopes se estreou em 1997, como Gustiuz Gonçalves de Os Sete Infantes, tinha então 19 anos. E teve oportunidade contracenar várias vezes com Cintra: "Tenho dificuldade em escolher um papel, mas lembro-me que fizemos duas versões do Tito Andrónico, a de Shakespeare e a de Heiner Müller, e foi muito impressionante ver como o Luís Miguel fez a mesma personagem de maneiras tão diferentes", recorda. "Mas é sempre impressionante vê-lo a trabalhar, sobretudo quando também encena, porque sentimos que ele deixa o seu trabalho como ator para trás, dedica-se aos outros, e depois, dia, talvez uma semana antes da estreia, aparece no ensaio com a personagem completamente feita. Como se tivesse estado toda a noite a fazer aquilo que nós andámos meses a ensaiar."

A atriz e encenadora Beatriz Batarda confessa que não consegue escolher "um papel" de Luís Miguel Cintra. "Tudo o que ele fez foi especial e marcante", diz a atriz que o considera "um mestre. Da interpretação, da encenação e também para a vida, porque é de facto uma inspiração". A atriz já tinha experiência no cinema quando chegou ao teatro e à Cornucópia. "Acompanhei só uma parte da vida de Luís Miguel como ator, mas o que sinto é que em cada papel ele se supera, não só na maneira como trabalha o texto e na seriedade com que constrói os espetáculos, mas também no relacionamento que tem com os outros atores, uma relação de paridade. Mesmo que as pessoas tenham perguntas mais imbecis, ele está sempre disponível." Como também diz Nuno Lopes: "Ele sabe ouvir e sabe realmente trabalhar em conjunto".

Um ator "completo e muito culto"

Ruy de Carvalho nunca contracenou com Luís Miguel Cintra no teatro. "Infelizmente, não aconteceu. Mas, se a memória não me falha, fizemos dois filmes juntos: A Caixa e Vale Abraão." Ambos com o realizador Manoel de Oliveira. O ator veterano considera Luís Miguel "um ator muito completo e com uma grande cultura" e mais do que isso: "Tenho uma grande admiração por ele como ator mas também como pessoa. Teve um gesto muito bonito, na altura, pois bateu-se para eu não recebesse menos do que ele. Poucos fariam o mesmo."

Histórias para contar não faltam à realizadora Raquel Freire. Era ainda "uma miúda de 24 anos" quando, decidida a aprender como se dirigem atores, pediu para ir assistir aos ensaios da Cornucópia. "Ele teve a generosidade de me deixar ir, todos os dias, durante um ano. E, à medida que o ia observando, cada vez tinha mais vontade de o filmar." Não se sabe se pela determinação dela, se pela generosidade dele, mas a verdade é que Luís Miguel Cintra aceitou participar na primeira longa metragem de Raquel Freire, Rasganço - "coisa que ele não faz, ele recusa sempre entrar em primeiras obras". Sim, a caçula dirigiu o mestre e o que ela melhor recorda é a confiança que ele, como ator, depositou nela: "Confia no teu instinto artístico, dizia-me. Se é isso que achas que deves fazer, faz." E assim foi. "Aprendi muito com ele, na escola do trabalho e da dedicação. É um homem de uma grande integridade e que tem um imenso respeito pelo público."

"Extraordinário ator de comédia"

Luís Miguel Cintra, que este ano foi distinguido com o Prémio Carreira da Academia Portuguesa de Cinema, iniciou-se no teatro ainda estudante da Faculdade de Letras e, em 1973, fundou com Jorge Silva Melo o Teatro da Cornucópia, uma companhia que sempre acreditou no texto (e no respeito pelo texto) como base do espetáculo. E onde se fez, sempre, teatro para o pensamento - mesmo quando as salas estavam vazias e havia quem criticasse os espetáculos muito longos e palavrosos. Quem nunca foi à Cornucópia não sabe o que é o prazer de rir com um espetáculo inteligente ou de ver Luís Miguel Cintra a interpretar uma comédia. Isso mesmo recorda a crítica de teatro e professora universitária Eugénia Vasques: "Se há surpresa que tenha tido na Cornucópia - a Companhia reflexiva de entre as reflexivas - foi mostrar-me, ao longo dos anos, um Luís Miguel Cintra-ator de comédia! Descobri-o, com espanto, logo em 1979, na clownerie E Não se Pode Exterminá-lo?, de Karl Valentin mas foi em 1981, quando recém finalista do Conservatório, o ia ver vertido no realistíssimo operário João, de boina basca, calças à boca-de-sino e camisa superjusta - lindo de morrer! -, a driblar a polícia, a falar calão e a retratar, sem complacências atenuadoras, a misoginia e truques da então sacro santa classe operária, tal como desenhada pela farsa corrosiva do italiano Dario Fo em Não Se Paga! Não Se Paga! (1974) e vivida por nós todos naqueles anos de ressaca revolucionária."

Não foram casos únicos. Eugénia Vasques teria, ao longo destes anos, muito mais oportunidades de confirmar que "o sisudo intelectual fechado no seu monastério é um extraordinário ator de comédia que concentra nele o humor trágico dum palhaço triste e a ironia destruidora de um caterpillar."

Ao longo da sua carreira, Luís Miguel Cintra recebeu vários prémios: o Garrett (1991), o da Casa da Imprensa e o Globo de Ouro para figura do teatro (1999), o Almada (2000), o Pessoa (2005). Mas o prémio maior para um ator, já se sabe, é o reconhecimento do público. A decisão de parar de representar não terá sido fácil mas já vinha sendo ponderada há algum tempo. Há dois anos, Cintra dizia ao DN: "Gosto muito de representar. Mas, provavelmente, vou deixar de o fazer. O corpo pesa mais, tenho dificuldades físicas, a memória funciona menos bem. Não faz sentido que a gente vá fazer uma coisa para a qual o corpo já não está adequado". E, em agosto, numa outra entrevista ao DN, admitia estar a chegar ao fim de um ciclo: "As coisas têm um tempo". Este é o tempo.

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