A animação que dança sob o céu de Paris

"Bailarina" é para aqueles que ainda acreditam nas histórias simples, comandadas pelo sonho. Paris é o destino.

"Danças porquê?" É a pergunta recorrente que se ouve em Bailarina, que se estreia na próxima quinta-feira, dirigida a uma menina órfã com bichos-carpinteiros nos pés e um sonho agitado no coração. Ela chama-se Felícia, é muito alegre, tem cabelos ruivos, expressivos olhos verdes, e está determinada a não deixar que esse sonho se acomode dentro de si como uma fantasia inatingível. Quem também pensa assim é o seu melhor amigo do orfanato, Victor, que tem a sua própria grande aspiração - ser inventor - e planeia uma fuga conjunta para a Cidade das Luzes. Sendo um rapaz de engenhocas, não só a planeia como concretiza, dando, literalmente, asas mecânicas ao desejo. Chegados a Paris da forma mais atabalhoada, com a Torre Eiffel em construção e um postal do edifício da Ópera na mão, Felícia fica mais perto da resposta.

Na conceção romântica, a cidade é o universo das possibilidades. Mas, sabemos bem, pode igualmente revelar-se uma experiência cruel para os seres mais puros, vindos de um lugar rústico (no caso, a Bretanha). Nesse sentido, o início da aventura de Felícia não dá por garantido o sucesso. Digamos que faz parte do treino que lhe vai dar disciplina para lidar com uma nova realidade...

Apanhada a espreitar o ensaio de uma graciosa bailarina profissional, ela começa por ser expulsa da Ópera como uma ladra. Mas há uma mulher das limpezas que, nessa circunstância, surge em sua defesa como alguém de semblante mais nobre do que a dureza dos seus modos. É uma antiga bailarina, que agora, de andar claudicante, já só vive para servir os outros.

Felícia junta-se a ela, sem ainda saber nada do seu passado. Quer ajudá-la nas tarefas desumanas que a patroa lhe ordena. E é então que a grande oportunidade chega: a filha arrogante dessa patroa é notificada da sua admissão na Ópera de Paris, mas Felícia, que recebe o correio, toma a identidade da rapariga que a tratou com desprezo e apresenta-se na instituição para iniciar a maior jornada da sua vida.

Sem técnica, mas nutrida de muita paixão, ela acaba por surpreender um exigente coreógrafo com o seu misterioso progresso, que vem da força de vontade. E não só. Odete, a mulher com experiência e sabedoria que a acolheu, é a verdadeira responsável pelo florescimento desse talento. Ensaios de manhã cedo, exercícios pouco óbvios e persistência, são a receita para docilizar os pés bravios de Felícia.

No entretanto, o que foi feito de Victor? Com o seu inconfundível desembaraço, tornou-se empregado de Gustave Eiffel - esse mesmo - e passa os dias a aproveitar os materiais que tem à sua disposição para evoluir nas invenções burlescas, além de concertar o objeto mais precioso da amiga: uma caixinha de música dada pela mãe. Tirando os ciúmes em relação a um vaidoso bailarino russo que se aproxima de Felícia, o apoio à concretização do seu sonho mantém-se intacto.

Afinal, é apenas disso que nos fala este filme. Uma ideia simples e, no entanto, bem segura dos seus passos. No meio de tantas produções americanas insufladas pelo propósito da diversão descomunal, com narrativas mais rocambolescas do que a mente de uma criança (e às vezes dos próprios adultos) pode acompanhar, surge esta clássica aventura animada, de origem canadiana e francesa. É certo que não ficamos deslumbrados pelo conjunto de personagens de Bailarina, escritas segundo clichés de bondade ou malvadez, mas desse lado primitivo da construção dramática extrai-se uma prosa límpida.

Num tempo em que as crianças vivem rodeadas de tecnologia, com o futuro, de alguma forma, pouco ligado a qualquer expressão de sonho imaterial, é bom regressar ao estado cristalino das histórias, e às perguntas essenciais: por que fazemos o que fazemos? Sem se engasgar, Felícia tem a sua resposta pronta no final. As peripécias que atravessou ajudaram-na a colocar em palavras uma verdade íntima.

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