A "água do Bengo" de Bonga e Paulo Flores

É um encontro inédito o que hoje à noite vai juntar no palco do Teatro Tivoli, em Lisboa, dois dos maiores representantes da música angolana, numa celebração da lusofonia há muito desejada por ambos. "Este espetáculo era algo que, mais tarde ou mais cedo, tinha de acontecer", diz Bonga.

Quando Paulo Flores nasceu para o mundo, em 1972, José Adelino Barceló de Carvalho renascia também como músico, sob o nome de Bonga. Editado nesse mesmo ano, o álbum de estreia Angola 72, colocaria Bonga na história, como um dos primeiros artistas a dar voz à vontade de independência de Angola. Esse disco, a exemplo dos seguintes de Bonga, como Angola 74 e Raízes, viria a ser uma das principais influências do então jovem Paulo, quando também ele decidiu fazer vida da música.

"O Bonga é acima de tudo um amigo muito presente, que sempre fez parte da minha carreira. Aprendi muito com ele, no início, especialmente ao nível da gíria e da musicalidade de Angola", afirma Paulo Flores, que conheceu Bonga em 1980. Tinha apenas 8 anos e Bonga era já então uma estrela, que acompanhava alguns dos músicos brasileiros, como Chico Buarque, Djavan, Alcione ou Martinho da Vila, que então se encontravam em Angola, a participar no projeto Kalunga. "Nessa altura eu ainda só cantava no bairro dos coqueiros, por cima dos discos do meu pai", conta Paulo. O pai dele, Cabé, "afamado discotequeiro", era um velho amigo de Bonga, que desde logo apoiou como pôde o rapaz. "Apadrinhei o primeiro disco dele e percebi logo que estava ali um artista muito especial", acrescenta Bonga, recordando "as muitas coincidências" que os têm unido ao longo da vida.

A partir daí, foi-se criando uma proximidade, traduzida não só em amizade e respeito mútuo, mas também de inspirações e de troca de ideias. "Sinto um prazer enorme e uma motivação muito grande em partilhar o palco como o mano mais velho", sublinha Paulo Flores, que coloca Bonga lado a lado com nomes como Zeca Afonso ou Chico Buarque, na lista das suas principais influências.

O inédito encontro entre duas das mais importantes vozes da música angolana foi ideia do produtor Ricardo Santos, um "amigo e admirador de ambos", que prontamente aceitaram o convite. "Este espetáculo era algo que, mais tarde ou mais cedo, tinha de acontecer", sustenta Bonga. O espetáculo assume-se assim como um encontro entre as figuras maiores de duas diferentes gerações que, cada qual a seu modo, acabaram por revolucionar a música angolana, especialmente no modo como a devolveram ao povo. "Vai ser sobretudo o encontro de duas personalidades artísticas que são importantes para Angola, mas que neste caso estão a ser divulgados de fora para dentro, a partir de países onde há democracia e liberdade", critica Bonga. Tanto um como outro são aliás reconhecidos por uma forte componente social na respetiva música, ainda que embalada pelos ritmos dançáveis do semba. "É óbvio que preferia cantar sobre outros assuntos, mas não me consigo esquecer que, 40 anos depois da independência, o povo de Angola continua a sofrer", critica Bonga. "De política não percebo nada, eu só quero é que as pessoas pensem por si próprias", refere, de forma mais diplomática, mas igualmente assertiva, Paulo Flores.

Com uma diferença de 30 anos entre ambos - Bonga tem 74 e Paulo Flores 45 - a dupla tem os papéis bem definidos para o espetáculo de logo à noite. "Vamos cantar as músicas que as pessoas viveram e querem recordar. O Paulo Flores vai ocupar-se mais da lusofonia, enquanto eu vou ficar-me mais pela tradição, até porque como mais velho tenho de dar o exemplo desse folclore mais antigo, da essência do semba", defende Bonga. O objetivo é assim prestar homenagem não só à música de Angola, mas a toda a música de expressão lusófona - de Cabo Verde ao Brasil e regresso a Portugal. "Vou ser o primeiro a subir ao palco, com os meus músicos, para fazermos essa viagem pela música lusófona, à mistura com alguns temas meus. Depois vem o kota e, na parte final, vamos fazer a festa juntos", revela por sua vez Paulo Flores. Ou, como diz Bonga, vão "dar a provar a água do Bengo", a tal que quando se bebe já de lá não se quer voltar.

Bonga e Paulo Flores

Teatro Tivoli, Lisboa.

1 de abril, este sábado 21.30

Bilhetes de 20 a 30euro

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