90 minutos não chegam para ouvir todas as canções de Chico

"Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos" chega esta semana a Portugal.

Cláudio Botelho tinha 13 anos quando, numa cidade do interior de Minas Gerais, no Brasil, um tio lhe emprestou o vinil Meus Caros Amigos. "Ouvi O Que Será? e perguntei-me: o que é isto? Foi nesse momento que eu verdadeiramente comecei a ouvir música. Costumo dizer que se não fosse Chico eu não estaria aqui."

Os anos passaram e hoje Cláudio Botelho, 51 anos, além de ser, juntamente com Charles Möeller, responsável pela encenação de vários espetáculos mais ou menos musicais (de Hair a Sassaricando), continua a ser fã de Chico Buarque. "Sou muito mais do que um fã", corrige ele, do outro lado do telefone. De Chico já encenou mais do que uma vez a Ópera do Malandro (uma dessas produções passou por Portugal em 2005), fez também Suburbano Coração - comédia inspirada na música de Chico Buarque, com texto de Naum Alves de Sousa - e ainda montou um outro musical intitulado Na Bagunça do Seu Coração, também a partir de Buarque.

Em 2014, o músico brasileiro de olhos azuis fez 70 anos. E Cláudio Botelho e Charles Möeller decidiram montar mais um espetáculo como forma de homenagem. "Tivemos a ideia de fazer um espetáculo só com canções que ele tinha feito para teatro, mas depois decidimos juntar também as canções do cinema e da televisão. Há muita coisa. Algumas canções as pessoas já esqueceram de onde vieram, tornaram-se famosas fora do contexto inicial", explica.

Apesar de ter muitas canções de a Ópera do Malandro, o espetáculo vai muito para lá disso, incluindo pequenas pérolas como Bye Bye Brasil, escrita por Chico e Roberto Menescal, em 1979, para o filme homónimo de Cacá Diegues, ou ainda músicas de filmes como Quando o Carnaval Chegar (1972) e Para Viver Um Grande Amor (1983).

"Para mim, ele é o maior compositor brasileiro", diz Cláudio Botelho, numa conversa telefónica, uns dias antes de apanhar o avião para Lisboa. "Mas é muito mais do que um compositor, porque também escreve maravilhosamente. É um poeta e um contador de histórias." Cláudio chama-lhe "o bardo brasileiro", comparando-o assim ao escritor inglês William Shakespeare. Concluindo: "Também por isso faz todo o sentido usar o título roubado do espetáculo As Obras Completas de William Shakespeare em 97 Minutos, de que nós gostámos muito." Um espetáculo que os portugueses conhecem bem, pois esteve vários em cena pela Companhia Teatral do Chiado.

Canções que contam histórias

Falar do Chico contador de histórias não é só falar das suas peças de teatro ou dos seus romances. Nas suas canções Chico fala muitas vezes na primeira pessoa encarnado diferentes personagens, seja um malandro, um folião do Carnaval ou uma mulher. Além disso, "cada canção é uma história", diz Cláudio Botelho. Veja-se o caso de Teresinha - tema integrado na Ópera do Malandro, que ficou famosa na voz de Maria Bethânia - e que é uma história com princípio, meio e fim.

Essa faceta foi acentuada pelos criadores de Todos os Musicais de Chico Buarque em 90 Minutos. "A história é muito contada através das canções", explica Cláudio Botelho. O enredo gira em torno de uma companhia de teatro itinerante (os tais saltimbancos que também estão ligados a Chico Buarque por outras vias), cuja rotina é interrompida pela chegada de uma nova atriz, que vai despertar invejas e paixões e desestabilizar um pouco a trupe. Mas os diálogos são muito curtos e quase todos são baseados em ou fazem referência a obras de Chico Buarque. A certa altura, a companhia instala-se em Budapeste , há também uma personagem mais velha que está a enlouquecer e mistura sonhos e realidade (como acontece com o protagonista de Leite Derramado) e lá pelo meio alguém irá referir a existência de um Irmão Alemão .

Mas são as canções que na verdade são o coração deste espetáculo. O grande trabalho de dramaturgia consistiu em ir buscar as canções que tinham sido compostas para outras histórias e fazer que funcionassem juntas e ainda criassem um nova história. Em palco vão ouvir-se músicas muito conhecidas como Ciranda da Bailarina, O Meu Amor, Tatuagem, Geni e o Zepelin, Samba do Grande Amor, Noite de Mascarados e outras, mas também alguns temas que têm permanecido um pouco mais longe dos holofotes.

Uma delas é Vida, uma música que Chico Buarque compôs especialmente para o musical Geni, que Marilena Ansaldi e José Possi Neto fizeram em 1980 a partir do grande sucesso que tinha sido o tema Geni e o Zepelim e a Ópera do Malandro. "Tive de ligar para ele para confirmar se esta música era mesmo dele", conta Cláudio Botelho. No final, com o alinhamento pronto, "ficaram de fora tantas músicas, tantas". Quer isto dizer que a dupla vai voltar a pegar em Chico Buarque? "O repertório de Chico é imenso, dá para fazer o que nós quisermos."

Todos os musicais de chico buarque em 90 minutos

Coliseu Porto, 8 e 9 de março

Campo Pequeno, Lisboa, 11 e 12 de março

20/45 euros

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