40 anos depois a América ainda segue naquele táxi

"Taxi Driver" está de volta ao grande ecrã, numa versão digital restaurada e remasterizada. A partir de quinta-feira, dia 22, no Espaço Nimas, em Lisboa.

"Há uma cena de Taxi Driver em que Travis Bickle está a falar ao telefone com Betsy e a câmara se afasta dele para o longo hall de entrada onde não há ninguém. Foi esta a primeira cena que imaginei para este filme e foi precisamente a última que filmei." Martin Scorsese faz-nos a confidência de um dos seus momentos preferidos de Taxi Driver (1976), no livro Scorsese on Scorsese, e completa a ideia dizendo que o que torna aquele movimento de câmara tão especial é a sua força complementar para reproduzir a solidão do protagonista e o facto de ser bastante percetível a mão de alguém no decisivo gesto visual. A sua mão, portanto.

No âmbito das celebrações do 40.º aniversário de Taxi Driver, esse zénite iconográfico da Nova Hollywood - que, pelo todo do seu gesto visual, deu a Palma de Ouro a Scorsese, em 1976 - está de regresso à sala escura. A partir do dia 22, uma versão digital restaurada e remasterizada (que passou pela supervisão do realizador e também do diretor de fotografia, Michael Chapman) está ao nosso alcance no Espaço Nimas, em Lisboa. A saber, esta é a mesma versão que foi apresentada, em março deste ano, no Festival de Cinema de Tribeca, do qual Robert de Niro é um dos fundadores, e onde se reuniu com Scorsese, o produtor Michael Philips, o argumentista Paul Schrader e os atores Harvey Keitel, Jodie Foster e Cybill Shepherd, para comemorar a data.

A cidade de asfalto fumegante

Falávamos então do protagonista solitário de Taxi Driver. Travis Bickle (De Niro) é o rosto da insónia nova-iorquina, um ex-soldado do Vietname que, de mãos no volante, observa a atmosfera decadente da imensa metrópole, e nela vai acabar por se perder, como na vertigem de um pesadelo. Apaixonado pela inatingível Betsy (Shepherd), é, contudo, numa prostituta adolescente, Iris (Jodie Foster, com 12 anos na altura da rodagem), que projeta os seus instintos justiceiros, com o objetivo de purificar esta cidade corrupta, infernal, de asfalto fumegante. A solidão é o próprio molde dos seus atos, tal como a famosa cena de conversa com o espelho deixou para a história: "You talkin" to me?" Diz-se que no guião tinha apenas escrito "Travis fala com o espelho". Robert De Niro fez o resto, improvisou como só alguém que já tem a personagem entranhada o conseguiria fazer. Enquanto motorista de táxi, tirou mesmo uma licença e, nos fins de semana antes da rodagem, ensaiou a nova condição, dirigindo o carro amarelo pelas ruas de Nova Iorque. Esta foi a sua segunda colaboração com Scorsese, depois de Os Cavaleiros do Asfalto (1973), e surgiu logo depois de ter recebido um Óscar pelo papel secundário em O Padrinho: Parte II (1974). 1976, ano do lançamento de Taxi Driver, foi também um ano que marcou a sua carreira pelo papel principal em O Grande Magnate, derradeiro filme de Elia Kazan.

O Falso Culpado (1956), de Hitchcock, John Wayne em A Desaparecida (1956), de Ford, Murder by Contract (1958), de Irving Lerner, Cadernos do Subterrâneo, de Dostoievski... Todas estas são referências de Martin Scorsese que atravessam Taxi Driver, um filme que, ao concretizar tais inspirações, nunca se dissocia da essência de Nova Iorque, das sensações dessa cidade onde o realizador cresceu (ele que integra o elenco no hilariante cameo de um passageiro que quer matar a mulher). Era a Nova Iorque dos anos 1970.

Paul Schrader, o argumentista, juntaria à lista de influências O Carteirista (1959), de Robert Bresson, um dos seus ídolos, cuja obra trabalhou na tese publicada Transcendental Style in Film: Ozu, Bresson, Dreyer. A sua aproximação a Scorsese deu-se através de Brian De Palma, que inicialmente estaria na rota para realizar o filme, mas passou o valioso argumento de Schrader (então com 26 anos) ao amigo. Taxi Driver era apenas o segundo guião - depois de Yakuza (1974) - escrito por este jovem que tinha começado a ver filmes aos 17 anos...

O seu fulgor, combinado com a banda sonora original de Bernard Herrmann (1911-1975), o célebre compositor de Hitchcock, resultou num soberbo trabalho narrativo, a que a gramática jazzística responde com justeza de estilo.

A participação de Herrmann neste filme é, aliás, quase do domínio mitológico. Scorsese andou atrás do "velhinho maravilhoso, mas excêntrico", como escreve, numa esperançosa insistência, que foi ultrapassando nãos como quem elimina barreiras, até conseguir levá-lo a aceitar. Uma das grandes reservas de Herrmann era a sua pouca aptidão para o jazz. Mas à medida que ia acompanhando a rodagem, e se apercebia da exclusiva sonoridade que poderia adornar o filme, a sua atmosfera, converteu essa aparente fraqueza em força e criou um tema absolutamente orgânico a Taxi Driver, daqueles que convocam as imagens, mesmo que delas estejamos distanciados no tempo. Este seria o seu último trabalho, que fez por acompanhar até ao limite da sua saúde, tendo dirigido e supervisionado praticamente todas as gravações. Morreu na véspera de Natal, poucas semanas antes da estreia.

As notas musicais de Herrmann, que circulam invisíveis no ecrã pela noite nova-iorquina, à boleia do táxi de Travis, dão uma dimensão de estado-de-sonho ao filme, uma letargia que vai construindo, pacientemente, uma violência prestes a rebentar. Na verdade, a escuridão de Taxi Driver é mesmo um elemento visual indispensável, a que Scorsese quis contrastar a vigília: "O choque de sair do cinema para a plena luz do dia pode ser aterrador." Talvez seja melhor escolher a sessão da noite.

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