As varandas: nestes tempos, o refúgio ao ar livre

O confinamento transformou-as em jardins privados ou palcos de eventos semipúblicos. As nossas varandas libertam-se agora de cortinas e de estores e, porque o mundo fechou, abrem-se ao mundo. Portfólio de Leonardo Negrão, em Lisboa, já no isolamento social.

Andava Almeida Garrett em passeio pelo vale de Santarém quando a visão de certa varanda lhe incendiou a imaginação: "Interessou-me aquela janela. Quem terá o bom gosto e a fortuna de morar ali? Parei e pus-me a namorar a janela. Encantava-me, tinha-me ali como num feitiço" - escreveu em Viagens na Minha Terra. Como bom romântico, do encantamento arquitetónico pela varanda dita dos rouxinóis ao devaneio amoroso pela menina que lá morava pouco tardou. Não era o primeiro. Em séculos de "quarentena de costumes", já Romeu ou Cyrano de Bergerac tinham feito da varanda onde se assomava a amada o altar a que dedicavam as palavras mais ardentes.

Da literatura à corriqueira vida de todos nós, a varanda, enquanto espaço intermédio entre o exterior e o interior, ganhou uma nova importância a partir do século XVIII, acompanhando a industrialização da economia e o crescimento das cidades. A historiadora de arquitetura Ana Assis Pacheco refere o exemplo da Baixa Pombalina, construída no último quartel daquele século: "Embora saibamos, através de reconstituições da Lisboa anterior ao terramoto (como a existente no Museu Nacional do Azulejo), que elas já existiam antes, a verdade é que o projeto urbanístico pombalino não se limita a dotar os prédios de habitação com grandes varandas com sacadas. Instaladas em ruas amplas, em vez do emaranhado medieval existente até então, estas casas estavam voltadas a sul, para o rio, dispondo, assim, de excelentes condições de ventilação transversal. Já nos nossos dias, Siza Vieira viria a usar esta mesma tipologia, também na Baixa de Lisboa."

A salubridade do ar nas habitações de uma massa cada vez mais compacta de pessoas, vindas do campo em busca de melhores condições de vida, foi, aliás, uma preocupação constante, ao longo dos séculos XIX e XX, das autoridades, mas também de médicos higienistas, engenheiros e arquitetos. Se, como nota Ana Assis Pacheco, "nas zonas mais rurais houve, pelo menos até à chegada do betão armado, um saber de séculos que proporcionava a ventilação mais adequada a cada região (as açoteias do Sul ou as varandas em madeira da Beira, que permitiam às pessoas "apanhar ar", mesmo com muito frio)", não era líquido que, nas cidades cada vez maiores, sob os efeitos da pressão demográfica, esse bom senso construtivo prevalecesse. Nesse espírito, homens como o britânico Ebenezer Howard desenvolvem conceitos como o das cidades-jardins. Em Portugal, Ressano Garcia, engenheiro de formação e responsável pela maior transformação urbanística que Lisboa conheceu no século XIX (além da abertura das Avenidas Novas, concebeu o prolongamento da Avenida 24 de Julho, de Santos a Alcântara, os bairros de Campo de Ourique e da Estefânia), preconizou a abertura de um amplo espaço verde onde hoje está a Cidade Universitária que servisse de "pulmão" às novas artérias residenciais.

Tal preocupação perdurou ao longo do século XX. Ana Assis Pacheco realça a importância dos estudos teóricos desenvolvidos pelo arquiteto francês Le Corbusier no período após a Grande Guerra: "Ele estudou profundamente o modo como as pessoas viviam em prédios de sete ou oito andares e começou a valorizar a importância de espaços abertos como pátios, varandas, mas sobretudo de terraços, no topo dos edifícios, onde, defendia, deveriam estar as creches e os parques infantis de modo que as crianças pudessem brincar mais livremente e respirar melhor ar."

Portugal não foi alheio a este tipo de preocupações, na Primeira República e no Estado Novo. Nos anos 1930, Broer defendeu que a melhoria da salubridade do centro histórico de Évora dependia, em grande parte, da abertura de pátios comuns entre os edifícios, muitos ainda de construção medieval ou manuelina. Em 1951, em Lisboa, o Regulamento Geral das Edificações Urbanas estabelecia, em metros cúbicos, a quantidade de ar que deveria estar disponível, em ventilação transversal, por habitante da residência. Do recomendado ou estabelecido na lei à prática vai, no entanto, uma grande distância. Como salienta a historiadora, "os pátios interiores que, na ideia de Ressano Garcia, deveriam ser usados de forma comum pelos prédios das Avenidas Novas, foram muitas vezes transformados noutra coisa, às vezes são apenas coberturas de garagens. Ou, quando existem, são jardins usados apenas por este ou aquele prédio."

O mesmo aconteceria, um pouco por todo o país, com as varandas. Nos anos 1970, à medida que as pessoas começavam a adquirir casa própria, iniciava-se a moda de as transformar em marquises, com vidro e caixilharia de alumínio. Prédios inteiros, depois quarteirões, alterando em muitos casos, de forma irreversível, o aspeto das ruas. "A mim, as marquises, por si só, não me chocam. Em muitos casos, elas permitem às pessoas ter mais um espaço com ótimas condições de luz natural e que não usariam, por exemplo, quando chove torrencialmente", afirma Ana Assis Pacheco. O problema é que, em vez de desfrutarem dessas condições, continua, "há quem as transforme num espaço de arrumos onde é impossível estar".

Nos últimos anos, com uma nova consciência ambiental, estética e - porque não dizê-lo? - turística, as cidades têm de algum modo redescoberto as virtudes das varandas que sobreviveram à febre da caixilharia. Em 2015, a IKEA lançou uma campanha de marketing de mobiliário para exterior que tinha como slogan: "Mais varandas, menos marquises." Mas Ana Assis Pacheco não as romantiza demasiado, sobretudo em época de pandemia: "Estamos em confinamento e há que ter cuidados extras em casas com crianças. Com muitos pais em teletrabalho e os miúdos sujeitos à pressão de não saírem de casa, a atração deles pela varanda é muito maior e há que estar muito mais atento." De resto, preferiria que as pessoas não se habituassem demasiado às suas varandas. "Estamos a viver uma situação anómala. A cidade é o espaço público, o jardim, a ágora. Não é isto."

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