Quando uma peça clássica da Vista Alegre se reinventa pela mão de três "street artists"

Violant, Mr. Dheo e Odeith aceitaram o desafio da quase bicentenária fábrica de porcelana e levaram a sua arte urbana para a decoração de espaços interiores, neste caso um antigo jarro do espólio do museu.

Mr. Dheo escolheu o rosto e a expressão femininas, assim como umas rosas vermelhas para decorar um clássico jarro de porcelana da Vista Alegre. O street artist foi um dos três convidados da fábrica de porcelana nacional para reiventar este artigo utilitário transformando-a numa peça decorativa de luxo. Odeith e Violant também aceitaram o desafio da marca, que acaba de lançar o projeto "Urban.Art@VA", que mistura arte urbana e pintura clássica.

Um verdadeiro desafio para os três street artists, mais habituados a deixar a sua marca em superfícies planas de grandes dimensões. Mr. Dheo, por exemplo, está no Guinness por ter sido um dos artistas que participaram no maior mural de graffiti do mundo, em Abu Dhabi, mas agora teve de fazer uma criação para uma peça com 35 centímetros de altura, 19 de largura e 22 de comprimento. "Estou habituado a trabalhar em escalas muito maiores. Aqui tive de me habituar a trabalhar uma superfície muito pequena e, pelo facto de ser um jarro, com curvas, obrigou-me a estudar as perspetivas... É um processo muito diferente", admite Mr. Dheo, em conversa com o Diário de Notícias.

Para esta criação, explica, usou o spray numa superfície que media cerca de dois metros de altura e de largura, a qual foi depois fotografada e redimensionada para o jarro. Seguiu-se uma técnica de estampagem sobre a peça de cerâmica, à qual se acrescentou o trabalho à mão dos funcionários/artistas da Vista Alegre. O resultado é uma peça que alia história e contemporaneidade, que é uma homenagem pessoal do artista do Porto à mãe, Maria, nome que dá título à sua versão do jarro, que mostra um rosto feminino de olhos penetrantes, rosas vermelhas e a palavra "Amor". "Mas simboliza todas as mulheres", diz Mr. Dheo, que já deixou um tributo ao pai numa parede do parque de estacionamento da Trindade, no Porto, naquele que foi o primeiro mural legal da cidade.

A ilusão ótica de um polvo

Para este desafio da Vista Alegre, o artista Odeith escolheu pintar um polvo, "o animal que considerou mais adequado ao projeto, visto que se adapta a qualquer forma, conseguindo mover-se dentro de pequenas caixas, ou passar através de pequenos buracos", descreve a Vista Alegre.

O artista da Damaia manteve o traço distintivo de criar ilusões de ótica. Normalmente, consegue-o pelas composições criadas em perspetiva em diferentes superfícies, como esquinas de 90 graus ou da parede para o chão. Aqui, no pequeno jarro a que chamou O Gigante Ermita, "procurou criar um efeito de ilusão ótica que funcionasse de todas as perspetivas e enriquecesse o jarro".

As formas como ponto de partida

Finalmente, Violant - artista de Torres Novas que costuma utilizar rolos e pincéis adaptados a um grande extensor - deixou-se inspirar pelas formas do jarro e criou o Espiral. "Sendo um objeto ligado à água, a boca remeteu-o para uma concha, que imaginou como sendo a cerâmica do mar. A partir daí teceu uma estrutura orgânica, que faz do jarro um periscópio com as cores do entardecer, que contrastam com a brancura da matéria-prima. Dentro está contido o oceano, ligado à nossa história, e dele saem os tubarões, elementos recorrentes no trabalho de Violant, espiralando por entre a estrutura do jarro até à concha que o coroa", explica a Vista Alegre.

Os três jarros, que refletem uma simbiose entre o classicismo das peças Vista Alegre e a contemporaneidade da street art, estão já disponíveis nas lojas físicas da Vista Alegre e na loja online. Trata-se de uma edição limitada a 195 exemplares, a 1.550 euros cada um.

Grandes nomes do design contemporâneo, da pintura, escultura, arquitetura, literatura e outras formas de arte têm emprestado o seu talento a muitas criações da Vista Alegre, desde Siza Vieira a Joana Vasconcelos, passando por Ross Lovegrove, Marcel Wanders, Claudia Schiffer, Christian Lacroix ou Oscar de la Renta. Agora, foi a fez dos street artists deixarem a sua marca numa réplica ligeiramente reformulada do jarro que fazia parte do espólio do Museu da marca.

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