7 dias, 7 propostas por Miguel Cristovinho (D.A.M.A.)

1. Série
Dark
Netflix
Domingo, 4 de abril

Se estiverem à procura de uma série séria, daquelas que nos fazem cravar os dentes do início ao fim, vieram ao sítio certo. Dark é isso e muito mais. É uma série para visualização ativa, definitivamente não é o programa certo para estar a dar de fundo enquanto se cozinha o jantar. Essa é a primeira condição, a segunda é: por favor, se decidirem assistir, assistam no idioma original - alemão. Se alguma dessas duas condições vos desanimou, então posso garantir que esta não é a série para vocês. Para todos os outros, continuem a ler.

Dark combina uma variedade de géneros e destaca-se em cada um deles; aparentemente começa com um típico mistério, um assassinato com uma atmosfera semelhante a um drama de crime obscuro, muito rapidamente introduz ficção científica à mistura com a exploração do conceito tempo-espaço. Tem a extensão e o detalhe que talvez esperaria encontrar numa alta fantasia, no entanto, os temas aqui retratados são sérios e fundamentados na realidade, baseando-se em muita teoria científica e física quântica. Para mim, os temas e o cenário apresentados no programa alcançam o que acredito ser um equilíbrio quase perfeito entre - serem extraordinários o suficiente para serem emocionantes de assistir e, serem uma representação de uma realidade viável o suficiente para ser verosímil. Esta é a combinação que torna tudo absolutamente intrigante para o espetador e terá sido certamente a razão pela qual mergulhei a fundo nos tópicos relacionados com a série. Fez-me querer vasculhar fóruns em busca de teorias e obrigou-me a assistir novamente determinadas cenas ou episódios inteiros para compreender um pouco mais sobre os mistérios em torno da curiosa cidade de Winden. Guião, elenco e realização absolutamente fenomenais. A primeira temporada é muito boa, a segunda é a melhor, a terceira e última talvez não seja tão excelente como as duas primeiras. Até nisso esta série não foge à tradição, por norma é sempre assim que nos sentimos relativamente à última temporada das nossas séries de eleição.

2. EP
Mulher
Carolina Deslandes
Segunda, 5 de abril

Definitivamente um dos melhores trabalhos produzidos por artistas nacionais no decorrer do difícil ano de 2020. Mulher é um EP com 6 temas originais, uma curta-metragem e é a expressão máxima do que Carolina Deslandes representa: uma artista de causas que se transcende a cada passo que dá. A curta, acompanhada de canções puras, ora simples (à voz e guitarra), ora arrojadas (com produções inovadoras), é narrada e protagonizada por Carolina Deslandes, que toma o papel de várias gerações de mulheres vítimas de violência doméstica. Trinta e dois minutos de arte, no verdadeiro sentido da palavra, carregados de uma verdade dura, crua, e pintados com uma poesia fora do comum. Faz-nos refletir não apenas nos impactos devastadores que a violência física conjugal pode causar, mas também na violência humana, na opressão dos sonhos e no estrangulamento das vozes que desesperadamente lutam por serem ouvidas. A realização ficou ao cargo de Filipe Correia Santos, que conseguiu o feito irrepreensível de casar, numa cerimónia linda, a beleza das palavras com o poder das imagens.

3. Documentário
Woody Allen vs. Farrow
4 Episódios
HBO
Terça, 6 de abril

É provável que não tenham estômago para mais um mergulho nos alegados pecados de Woody Allen que, alegadamente, abusou da sua filha adotiva de 7 anos com Mia Farrow, Dylan Farrow, em 1992. Eu, tendo nascido em 1991, confesso que não estava devidamente elucidado sobre o caso.

Comecei a série de quatro partes com uma certa relutância, custa-me sempre ver conteúdos relacionados com a pedofilia, abuso de menores ou, pior ainda, casos de abusos por parte dos pais. Custa-me despender tempo para a dor, ainda que depois tenha a tendência para canalizar as emoções que as mesmas me causam para criar algo.

Ainda bem que vi. Esta mini-série permitiu que Dylan, agora com 35 anos, casada e mãe, finalmente contasse a sua própria história em detalhe. A série lembra-nos fortemente do clima de negação e hipocrisia presentes na nossa cultura no que toca ao abuso sexual por parte de figuras mediáticas, especialmente no período anterior ao movimento #MeToo. Por motivos que vêm de outros tempos, a nossa cultura patriarcal e de adoração à fama fez com que a maioria das pessoas ficasse determinada em aceitar a demonização de Mia Farrow como uma mulher desprezível e ciumenta (uma vez que Woody Allen terminou a relação com Mia para casar com a sua filha adotiva Soon-Yi) acusando-a de usar os alegados abusos à sua filha Dylan como vingança.

"Allen v. Farrow" tende a ser mais assertivo quando se concentra nas especificidades do testemunho em si - algo que o documentário da HBO sobre Michael Jackson, Leaving Neverland, também fez com resultados assustadores. Vemos Mia e outros descrevendo a fixação inicial de Allen por Dylan, com comportamentos fora do comum numa relação entre pai e filha, comportamentos esses que inclusivamente o levaram a realizar terapia em 1991, juntamente com filmagens caseiras de Allen segurando e tocando Dylan na casa de Mia em Connecticut. Esses e outros segmentos semelhantes - incluindo uma perturbadora descrição sobre Allen ensinar a pequena Dylan a chupar o seu polegar - não provam nada legalmente, assim como as representações do comportamento de Jackson não provaram em Leaving Neverland, mas os cineastas Amy Ziering e Kirby Dick são sábios em explorar essa subjetividade. A subjetividade pode ser uma ferramenta poderosa, especialmente quando combinada com imagens e fatos da época em discussão. No limite, é mais um documentário que acende a discussão: é possível fazer uma distinção absoluta entre a pessoa e a obra? Cabe a cada espetador tirar as suas próprias conclusões.

4. Livro
A Equação da Felicidade
Mo Gawdat
Editora Lua de Papel
Quarta, 7 de abril

Este é daqueles livros que sinto que transformariam o mundo num lugar melhor caso todos os seus habitantes o lessem. Escrito por Mo Gawdat, um engenheiro de sucesso, trabalhador com elevadas patentes em empresas como a Microsoft ou a Google mas que, apesar do seu inquestionável sucesso profissional, sempre teve grandes dificuldades em sentir-se pleno, feliz. Um aprendiz da vida desde muito cedo, atacou o problema como qualquer engenheiro faria: examinando os factos prováveis e aplicando a lógica à risca. Criou então uma equação para aquilo que as pessoas coloquialmente chamam de Felicidade. Felicidade acontece quando a nossa perceção dos eventos da nossa vida é igual às nossas expectativas de como a vida se deve comportar. Parece fácil. No entanto, durante este processo, Mo seria submetido ao ultimate test. Após a morte repentina do seu filho Ali, com apenas 18 anos, Mo e sua família voltaram-se para sua equação à procura de uma salvação para tamanho desespero. Ao lidar com a perda horrível, Mo encontrou uma nova missão: partilhar a sua equação com o mundo e ajudar o máximo de pessoas possíveis a tornarem-se mais felizes.

Em Solve for Happy, Mo questiona alguns dos aspetos mais fundamentais da nossa existência, explora as razões subjacentes para o sofrimento e traça um processo passo-a-passo para alcançar a felicidade ao longo da vida e um contentamento duradouro. Ensina-nos como dissipar as 6 ilusões que escurecem o nosso pensamento; como superar os 7 blind spots da nossa mente, e finalmente, como abraçar as 5 verdades fundamentais.

Não importa os obstáculos que enfrentamos, os fardos que carregamos, as provações que experimentamos, todos podemos estar contentes com a nossa situação presente e otimistas sobre o futuro.

5. Álbum
C.Tangana
El Madrileno
Spotify
Quinta, 8 de abril

C. Tangana faz parte daquele leque de artistas dos quais poderia colocar uma playlist no Spotify a correr e mais facilmente perder a noção do tempo passar. Nascido em Madrid, Antón Alfaro é um rapper e compositor que veio inovar praticamente todos os vértices do mainstream da música espanhola. É daqueles artistas que conseguem criar uma identidade de tal forma cativante que se torna impossível ficar indiferente. Letras com mensagem, genuínas, produções arrojadas e vídeos ousados, com uma estética só ao alcance de verdadeiros artistas de classe mundial. El Madrileño é o segundo disco editado por C. Tangana e, à parte de todos os recordes que bateu na semana da sua estreia, é inquestionavelmente uma obra fraturante no que toca à música urbana espanhola. Uma viagem por vários estilos musicais como rap, reggaeton, rock, bossa nova e até mesmo funk, com colaborações relevantes como Toquinho no tema Comerte Entera, Nino de Elche e La Húngara em Tú Me Dejaste de Querer ou Gipsy Kings em Ingobernable. A temática das canções pode-se dizer que balança entre uma narrativa de amor e desamor, com passagens sobre os entraves e as dificuldades da fama, bem como a sua durabilidade indeterminada, sempre com uma nuvem autobiográfica presente na voz frágil e melancólica. Com El Madrileño, C. Tangana distanciou-se do habitual, não só em Espanha, com um disco versátil, de muito boa qualidade, enaltecendo e explorando uma variedade imensa de géneros latinos e ibéricos.

6 -Filme
I Care a Lot
Netflix
Com Rosamund Pike
Sexta, 9 de abril

Vi este filme recentemente numa daquelas clássicas noites em que arrisquei clicar num filme do top recomendados do Netflix. É realmente uma roleta russa, tanto pode ser uma recomendação incrível, como uma incrível desilusão. Tive sorte. O filme gira em torno de Marla Grayson (Rosamund Pike), uma guardiã legal extremamente astuta, cuja especialidade é encontrar idosos minimamente doentes, com contas bancárias obscenas, declínios cognitivos e poucos ou nenhuns parentes próximos, cujos bens apreende enquanto os tranca numa fabulosa, e muito dispendiosa, casa de cuidados. É escuro. É cínico. Talvez sejam ambos em demasia para o cinema.

I Care A Lot não é um filme para todos. É um filme sombrio e implacavelmente duro que me fez rir muito mais do que gostaria de admitir, e me assustou ainda mais porque retrata um mundo que me parece demasiado real para não o ser. Praticamente todos os medos que tenho na minha própria vida ganharam forma de maneiras exacerbadas, mas obscenamente realistas. Não será um filme de Óscar, mas vai ser definitivamente a estrela da noite.

7. Vídeo
Pillow Talking
Videoclip de Lil Dicky - Pillow Talking feat. Brain
Sábado, 10 de abril

Não são muitos os vídeos que servem tão bem o propósito imagético de um tema como este que vos recomendo. Dave Burd (Lil Dicky) é um rapper norte-americano, conhecido principalmente por ter rompido a cultura do género com uma premissa totalmente diferente dos demais. Ele próprio se assume como um outsider; pode ser caucasiano, judeu, vir de uma família privilegiada, nunca ter tido relações com o crime nem falar maioritariamente de mulheres ou de dinheiro e ainda assim aspirar ser um dos melhores de sempre pois, em ultima análise, o que importa é realmente a habilidade com as palavras. Várias atuações dele no Youtube suportariam esta pretensão, no entanto Pillow Talking é, para mim, o mais impressionante. É uma música com cerca de 11 minutos, que muito provavelmente sem vídeo seriam 11 minutos difíceis de suportar para muitos, contudo, com o videoclip realizado por Tony Yacenda passam a ser 11 minutos de pura genialidade.

As escolhas de Miguel Cristovinho, membro da banda D.A.M.A.

filipe.gil@dn.pt

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