PO.RO.S. Um museu onde história e tecnologia se unem para o fazer sentir romano

Uma viagem à presença romana nas terras de Sicó feita através da combinação de achados arqueológicos com ecrãs de interface tátil, soluções interativas gestuais, componentes 3D e outras soluções multimédia. Da visão ao olfato, é uma visita para despertar os sentidos

Quando entramos, somos convidados a começar a visita - ou melhor, a viagem - pelo túnel do tempo. Ana Valadas, a coordenadora do museu PO.RO.S - Portugal Romano em Sicó, explica-nos que esta é uma das principais atrações do espaço. À medida que avançamos, a luz e os sons dos anéis guiam-nos da época atual ao império romano. Nos descobrimentos ouvem-se gaivotas, e logo a seguir ruídos das campanhas militares da reconquista cristã. Passamos à sala imersiva, onde as projeções nas paredes e nos tetos nos conduzem por momentos marcantes da história até à chegada dos romanos às terras de Sicó. Como se estivéssemos dentro da história.

Se desejar, pode acompanhar-nos numa visita a 360 graus, aqui. Estamos no antigo solar da Quinta de São Tomé, em Condeixa-a-Nova, onde em 2017 foi inaugurado o PO.RO.S, um museu que, através da tecnologia, convida os visitantes a viajar até à época romana, em articulação com Conímbriga, o maior achado português desse período. Depois de ser premiado na categoria de Aplicação de Gestão e Multimédia da Associação Portuguesa de Museologia (APOM), o museu arrecadou recentemente o prémio principal do Heritage in Motion 2018 (o Best Achievement Award), da European Museum Academy, com a parceria da Europa Nostra e da Europeana, e ainda a categoria "Aplicações e Experiências Interativas".

"A partir das referências romanas que temos em Condeixa, nomeadamente das ruínas de Conímbriga, fez-se um museu que é muito diferenciador, inovador em termos tecnológicos. Admito até dizer que é vanguardista. Isso foi reconhecido nos Heritage in Motion, que nos deram o melhor prémio. Concorremos numa categoria, que ganhámos, e recebemos também o prémio principal", destaca ao DN Nuno Moita da Costa, presidente da Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova. Através da tecnologia, prossegue, o museu conseguiu "recriar um mundo romano e permitir que as pessoas que cá vêm se sintam romanas pelo menos durante um dia".

Ouve-se, toca-se, experimenta-se. É assim um pouco por todo o museu, onde a história da romanização e a interatividade se fundem, dando vida e dinâmica ao espaço. Seguimos por um corredor que dá a conhecer alguns dos mais importante imperadores da conquista à queda do império romano, para chegarmos à sala das legiões. Aqui, estão expostos diversos objetos que os romanos usavam nas batalhas. Há um quadro interativo que permite saber mais sobre cada um e um jogo - uma solução interativa gestual - no qual as crianças (e não só) podem vestir os soldados. Como a ideia é chegar a todos, em cada sala, explica Ana Valadas, existe um espaço para que os visitantes, nomeadamente quem tem necessidades especiais, possam tocar nas réplicas.

O PO.RO.S. mostra como eram as cidades romanas, mas vai muito além disso, dando a conhecer a cultura, as rotinas e muitas curiosidades do império romano - há quizzes e ditados por todo o lado. Na secção de casamento e sexualidade, por exemplo, há um peep show onde é possível espreitar por buracos de fechaduras a vida íntima e privada da época. Há frescos "mais hard core", que estão mais elevados para que não fiquem acessíveis às crianças, enquanto os "mais soft" estão mais em baixo.

Do tato ao olfato

Na sala do domínio dos deuses, há um espaço que desperta um outro sentido: o olfato. "Os cultos romanos estão muito relacionados com os cheiros, nomeadamente com o incenso. Aqui, tentamos reproduzi-lo, usando incenso químico", explica Paulo Monteiro, da empresa Glory Box, que participou no desenvolvimento do PO.RO.S. Para o representante, este "é um projeto muito equilibrado, porque conjuga suportes tradicionais com a parte tecnológica, que lhes dá vida". A tecnologia funciona "como um complemento".

Cerca de 2 000 anos após a chegada dos romanos às Terras de Sicó, os visitantes do PO.RO.S conseguem mergulhar na época através dos achados da região (e de outras, como Santiago da Guarda), da tecnologia e dos conteúdos digitais. "Temos uma combinação de ecrãs de interface tátil, transparentes, uma solução interativa gestual, componentes 3D", exemplifica Filipe Marques, da empresa M&A Digital, responsável pelo desenvolvimento da tecnologia, destacando que " a diversidade de instalações tecnológicas" terá contribuído para a distinção principal Heritage in Motion.

No final, os visitantes podem deixar um testemunho em vídeo. Mas as surpresas não ficam por aí. "Num museu tão digital, quisemos chegar ao fim com algo físico. Temos uma app que permite que as pessoas façam uma fotografia à frente de um cenário à escolha, que podem pedir para imprimir [por dois euros] e levar para casa".

No site da organização do Heritage in Motion, pode ler-se que o PO.RO.S - que custou 3,5 milhões e euros e conta com cerca de 25 000 visitantes em pouco mais de um ano - é o "local ideal para melhor compreender a história" do império romano. Ao DN, o autarca Nuno Moita da Costa explica que a ideia do espaço é complementar a visita às ruínas da cidade romana de Conímbriga, que aguarda neste momento obras de requalificação. "É a primeira obra dos últimos 20 anos. Houve dois quadros comunitários que não foram aproveitados", lamenta o autarca.

Trata-se de um investimento de cerca de 500 mil euros, que incidirá sobretudo na requalificação da bilheteira e da sustentação das muralhas. Segundo Nuno Moita, está a decorrer o concurso público, pelo que se prevê que as obras possam avançar no início do próximo ano. No entanto, ainda há muito para fazer em Conímbriga: "Estas obras estão incluídas no chamado alargamento do complexo arqueológico de Conímbriga, que orça em qualquer coisa como três milhões de euros. Isto é uma pequena parte dessa obra que é preciso fazer. Só está descoberto um sexto de Conímbriga".

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