No Algarve, entre a máscara e o protetor solar

Em época de pandemia, ir de férias pode ser tão stressante como ficar em casa. Mas, para quem opta pelo turismo interno, é também um ato de fé em Portugal.

"Estes putos ingleses não têm qualquer cuidado", desabafa o comerciante algarvio, designando com um gesto vago da mão uma turma de jovens súbditos de Sua Majestade que desce uma rua da Baixa de Lagos, em ruidosa euforia. Poderia estar a falar do desconhecimento da invenção do protetor solar, evidenciado pela tonalidade de lagosta cozinhada viva que todos eles, rapazes e raparigas, apresentam, mas, na verdade, não. Fala, sim, do ar genuinamente surpreendido que todos mostram sempre que alguém lhes fala da obrigatoriedade do uso de máscara em espaços fechados ou da importância de manter o distanciamento social. Em regra, acatam cordialmente e é vê-los a comprar apressadamente máscaras descartáveis que passam a usar displicentemente penduradas de uma orelha.

Fazem-no, em primeiro lugar, porque vêm de um país onde até há bem pouco tempo o uso da máscara não era obrigatório nem comum, mas - sejamos justos - fazem-no porque, mais do que britânicos, portugueses ou outra coisa qualquer, ainda são habitantes desse continente deslumbrante, já esquecido pela maior parte de nós, que é a juventude em liberdade no verão quando a doença, a morte e até o Outono parecem incrivelmente distantes. Antes de apontarem o dedo aos negligentes, lembrem-se da quantidade de grandes filmes, de Rohmer a Visconti, e poemas que se fizeram em torno desse sentimento glorioso. "Quando eu morrer voltarei para buscar os instantes que não vivi junto ao mar", escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, que era do Porto mas que, um dia, se apaixonou perdidamente por esta cidade de Lagos, de que também eu sou "passageira frequente".

Ir de férias em plena pandemia é, de algum modo, um ato de fé e pode parecer-se demasiado com o "Natal do preso". A estranheza começa quando se chega a um hotel de praia e este cheira mais a álcoolgel do que a bronzeador. No lobby, elevadores e demais áreas comuns é obrigatório o uso de máscara, havendo mais dispensadores de desinfectante por piso do que desdobráveis de atracções locais. "Deseja que lhe arrumem o quarto?", questiona a recepcionista quando faço o check in. Antes que lhe pergunte se acha que vim de férias para fazer camas e lavar toalhas de banho, ela recorda que, por causa da pandemia, há pessoas que dispensam este serviço. Não é o meu caso, esclareço, a preguiça é mais forte do que o medo.

A praia está a cinco maravilhosos minutos de caminho mas cada saída obriga agora a preparativos suplementares. Não esquecer o chapéu, toalha, protetor solar, trocos para o café, frasco individual de álcool gel. A chegar ao elevador compreendo que esqueci o acessório do ano. Volto atrás. Onde é que está a máscara? Na procura, pouso o chapéu de palha. Que canseira, porque é que saí de Lisboa? Já vou a meio da rua quando compreendo que terei de enfrentar o sol ardente porque, devidamente mascarada, deixei o chapéu de palha em cima da cama... Interiormente enuncio todas as palavras feias de que me lembro, numa espécie de mantra ao contrário.

As noites são longas e estão verdadeiramente tropicais, a água do mar atinge os 26 graus mas não sou a única a enervar-me. Bem pior estão os comerciantes. A cidade está cheia de nacionais e estrangeiros (até de ingleses, contra as piores expectativas) mas os restaurantes funcionam a meio gás e as lojas estão vazias. Entro em várias, numa delas, onde se vendem artigos regionais elegantes (nada de chaminés miniatura made in China), a empregada diz-me que o cenário é sombrio. "O meu patrão não encomenda mercadoria nova. Diz que tem de escoar o que está aqui. E eu vou mudando as coisas de lugar para que pareçam novas."

Nas ruas com mais restaurantes, à hora das refeições, não cheira sequer a frango assado. Nada. Em contrapartida, as filas no supermercado são longas e demoradas. É preciso caminhar na direção da Meia Praia, atravessar a marina, para que, da lota, chegue, como nos desenhos animados, um entusiasmante rasto de cheiro a chocos assados. Pequeninos, com azeite, cebola e alho, à algarvia. Com generosas doses de salada de tomate e pimento a acompanhar. Põem mesas improvisadas para o público: Estamos safos!

À medida que os dias passam, a estranheza dos novos rituais é interiorizada, demonstrando que a capacidade de adaptação do ser humano às circunstâncias mais disparatadas tem o sentido de humor de um chefe da Mafia. É hora de descomprimir e gozar do Algarve, essa maravilha de luz e mar que, de algum modo, me está no sangue porque, de Silves para Lisboa, foi minha avó paterna, ainda muito jovem, há pouco menos de um século. Sento-me na esplanada, à escuta dos regionalismos que o turismo de massas não matou, e deixo-me surpreender ainda por esta diversidade de falares, paisagens e modos de ser que cabe num país tão pequeno (já repararam no contraste entre o Norte tão celta e o Algarve tão mediterrânico?)

Escuto dois homens, sentados na mesa ao lado. Andam pela "casa" dos 50 anos e há um que se queixa de um desaire amoroso. O amigo, mais confiante, dá-lhe conselhos. À falta de transcrição fonética, a resposta sai mais ou menos assim:

Na" percebes nada disse! Eu sou pescador e ensinaram-me que o segrede de uma boa pescaria está no engôde. Tens de engodar bêim...

Duas frases e todo um tratado de Antropologia costeira... Agora, imaginemos a mesma ideia, tão banal, expressa por um portuense, um lisboeta ou um alentejano. Sempre diferente, não é? Ir para fora cá dentro é também alimentar este jogo de redescobrir o Outro no que diz, no que come, no que valoriza. E de redescobrirmos em nós o que há muito julgávamos perdido. Quando a temperatura da água sobe a 26 graus a ameaça do COVID-19, do desastre económico, ou do que quer que seja, desaparecem num passe de magia. Ficamos apenas o mar e nós, novamente crianças, com a pele engelhada e lábios de sal de tanto tempo ao sabor da maré, a não querer que o dia acabe.

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