Luke Howard, o farmacêutico inglês que inventou as nuvens

Em 1803, um farmacêutico, amador de biologia e geologia, tirou as nuvens do anonimato de milénios. Luke Howard, o homem que deu sentido aos céus plúmbeos, partilhava com um seu conterrâneo, o pintor John Constable, a paixão pelas nuvens.

Um metro e trinta por um metro e oitenta e cinco de tela em exibição na National Gallery, em Londres, fixam desde 1821 um início de tarde plúmbeo na região inglesa de Suffolk. A paisagem rural, feita de denso arvoredo, curso de água e uma carroça puxada por um trio de bestas, viaja para o futuro há 200 anos, à boleia da pintura a óleo de John Constable. O artista do Romantismo inglês, nascido em 1776, presta na obra batizada A Carroça de Feno (no original The Hay Wain) tributo à prodigalidade dos céus ingleses, dramáticos na paleta sempre mutável de nuvens. Constable agradecia a estes firmamentos. Detalhava-os nos seus esboços e estudos. Até à sua morte, em 1837, o artista pioneiro nas observações atmosféricas, pintou milhares de céus. Resgatou-os através das cerdas dos pincéis da sua condição efémera para testemunho futuro. Constable detalhava as nuvens e anotava a hora exata do dia em que irrompiam e percorriam o céu, a velocidade e direção do vento, humidade e temperatura.

Quando em 1821 John Constable apresentou a sua tela na Royal Academy, na capital inglesa, e revelou o céu azul pálido pejado de nuvens acasteladas e ameaçadoras, sabia que o observador mais atento não relegava para o anonimato a paisagem que vogava sobre o arvoredo junto ao moinho de Flatford Mill, na margem do rio Stour. Dezoito anos antes, um conterrâneo do pintor inglês, farmacêutico de profissão, tornava-se o pai de todas as nuvens. Em 1803, pela primeira vez na História, a catalogação das nuvens era reconhecida. Luke Howard, nascido em 1772, quatro anos antes de John Constable, soprou as nuvens para dentro do campo das listagens científicas. Afinal, os gigantescos habitantes dos céus, constituídos por miríades de partículas diminutas de gelo ou água, não eram, como até então considerada a comunidade científica, obra de um acaso atmosférico, entidades únicas, com existência temporária.

Na noite em que Luke Howard apresentou perante a efémera Askesian Society (fundada em 1796 e finda em 1807) o seu estudo Modification of Clouds, o caos atmosférico que envolvia este nosso mundo ganhou ordem. Uma obsessão em organizar à qual não seria estranho o trabalho desenvolvido pelo taxonomista sueco do século XVIII, Carl Lineu.

Howard, cientista amador de botânica, química e geologia, tido hoje como o pai da meteorologia moderna, classificou as nuvens em três grupos: estratos (nuvens em camadas), cúmulos (nuvens lanudas) e cirros (nuvens encaracoladas). Da combinação deste trio teríamos todos os céus plúmbeos e formações nebulosas que palmilham os céus do planeta Terra.

Howard não foi o primeiro organizador celeste, embora o seu sistema de classificação se tenha imposto face ao engendrado um ano antes do outro lado da Mancha. O naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, encontrou nas nuvens constantes e padrões. A forma das nuvens repetia-se, respeitando altitudes, prioridades e manifestando comportamentos muito próprios.

Lamarck, Luke Howard, mais tarde o alemão Ludwig Kaemtz e o francês Emilien Renou, contribuíam para um novo ramo da ciência meteorológica nascido no final do século XIX, a Nefologia.

Sem o poder imaginar no início de século XIX, Howard inspirou o nascimento de uma nova categoria de Atlas. Em 1896 as coletâneas cartográficas subiam ao céu para relatar o mundo atmosférico. A primeira edição do Atlas Internacional das Nuvens conhecia edição sob os auspícios da então ainda jovem Organização Meteorológica Internacional (hoje Organização Meteorológica Mundial), nascida em 1873. Classificação que até 1975 não mereceu revisão. Depois da década de 1970, o mundo da categorização das nuvens conhecia nova visita em 1987 e, mais recentemente, em 2017.

Luke Howard rejubilaria ao saber que quase dois séculos volvidos sobre a sua classificação embrionária, o catálogo mundial de nuvens é extensíssimo, dividindo-se em géneros, espécies, variedades e particularidades. Mais, acrescentou na sua recente revisão, 12 novos tipos às dezenas de nuvens já listadas. Entre elas, as ondulantes Aspesitas, entidades atmosféricas que, vistas do solo, se assemelham a vagas oceânicas, e as Flammagenito, nuvens resultantes de incêndios florestais.

Um entusiasmo de descoberta que por certo também inflamaria a curiosidade de outros caçadores de nuvens do passado. Em 1879 o sueco Hildebrandsson aplicaria à captação de nuvens uma técnica recente, a fotografia, propiciando um registo preciso para a catalogação. Oito anos depois, o britânico Ralph Abercromby nas suas viagens oceânicas provou que existe um padrão de repetição nas formas das nuvens, independentemente de latitudes e longitudes.

Hoje, sabemos que no distante início de tarde de 1821, sobre A Carroça de Feno, da pintura de Constable, pairavam cumulus humilis e cumulus mediocris. Arriscando uma previsão que recua perto de 200 anos, aquela tarde trouxe algumas bátegas de água sobre os campos veranis de Flatford.

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